O problema está mais em quem paga a conta mais pesada do que o quanto os mais prósperos possuem e usufruem. O resto é ressentimento
Críticos do igualitarismo, entendendo-se por isso a igualdade, ou algo próximo disso, de renda e riqueza entre os membros de uma sociedade, frequentemente afirmam que ele se baseia na inveja. Em resposta, seus defensores dizem que há razões respeitáveis para favorecer a igualdade. (Estou assumindo que a inveja não conta como uma razão respeitável). Por exemplo, pode-se argumentar que a desigualdade é injusta, que ela leva os ricos a terem poder sobre a vida dos pobres e que dificulta que os pobres mantenham o autorrespeito. O filósofo T. M. Scanlon examinou essas e outras razões em Why Does Equality Matter? [Por que a igualdade importa?], obra que eu resenhei aqui. Assim, Scanlon está dizendo que a oposição à desigualdade não precisa se apoiar na inveja, e ele está certo quanto a isso, mesmo que você pense, como eu penso, que os argumentos que ele e outros apresentam a favor da igualdade estão errados. No entanto, disso não se segue que a oposição de algumas pessoas à desigualdade não decorra da inveja, e o que pretendo fazer na coluna desta semana é apresentar exemplos disso.
Para distinguir a atitude que vou destacar de razões respeitáveis para se opor à desigualdade, vejamos o que Scanlon tem a dizer sobre os super-ricos, que constituem os exemplos mais extremos de desigualdade de renda e riqueza. “Parece plausível, no entanto, que minha própria ausência de angústia em relação à diferença entre minha vida e a dos super-ricos se deva em parte ao fato de pertencermos a diferentes grupos que não se comparam entre si. A maneira como eles vivem não me sujeita à pobreza de status ou à pobreza de agência, porque a vida deles não estabelece nenhuma norma de expectativa para mim” (Scanlon, p. 37). Em outras palavras, Scanlon não sente inveja dos super-ricos simplesmente porque eles têm mais dinheiro do que ele: ele não vê necessidade de se comparar com eles. Em contraste, eis o que Rob Larson, professor de economia no Tacoma Community College, diz sobre certos apartamentos extremamente caros:
“Além do retorno das mansões urbanas para os afluentes e seus automóveis, Nova York e Londres também viram o crescimento das chamadas ‘poor doors’ (‘portas dos pobres’). Trata-se de entradas separadas em novos edifícios de luxo, erguidos sob a exigência municipal de incluir algumas unidades de habitação acessível para trabalhadores comuns, além das unidades ‘a preço de mercado’, vendidas por valores na casa dos sete dígitos ou mais. O Guardian descreve um empreendimento de luxo em Londres no qual a porta principal se abre para revestimentos de mármore luxuoso e portas sofisticadas, e uma placa na parede alerta os moradores de que o serviço de concierge está disponível. Nos fundos, a entrada para as moradias acessíveis é um corredor de cor creme, decorado apenas com caixas de correio cinzas e um cartaz advertindo os inquilinos de que estão sob vigilância por câmeras e que serão processados caso causem qualquer dano” [Larson, Capitalism vs. Freedom, edição Kindle da Amazon, pp. 51–52].
Para mim, esta é uma passagem impressionante. No exemplo de Larson, alguns “trabalhadores comuns” estão alojados em alguns dos apartamentos mais luxuosos do mundo. Ainda assim, Larson se opõe a isso porque essas pessoas não podem usar as entradas mais sofisticadas feitas para os super-ricos que pagam preços de mercado. À medida que se lê Larson, é possível sentir seu ódio fervilhante pelos ricos: ele gostaria de derrubá-los simplesmente porque são capazes de pagar por coisas que outros não conseguem. Ele não apresenta nenhuma evidência de que os trabalhadores que vivem nesses apartamentos estejam insatisfeitos. Se eu tivesse de arriscar um palpite, imaginaria que eles estariam felizes por receber o ganho inesperado que resulta da interferência do governo no livre mercado em seu favor; mas, esteja eu certo ou não, isso não importa no contexto presente. O objetivo é simplesmente expor a emoção de Larson pelo que ela é. Como analogia, considere alguém que ressentisse a existência de viagens aéreas em primeira classe, não porque considere a classe econômica desconfortável, mas apenas porque outras pessoas viajam em condições melhores do que as suas. E o caso de que inveja e ódio estão envolvidos no exemplo de Larson é ainda mais forte do que no caso da viagem aérea. Exceto pela entrada, os trabalhadores estão obtendo o bem de luxo, mas isso não é suficiente para Larson.
Um economista muito mais proeminente ilustra a mesma atitude. A ideia central de Thomas Piketty é que a desigualdade é o supremo pecado social e deve ser radicalmente reduzida. Ele não nega que o capitalismo resulte em crescimento econômico e em um padrão de vida mais elevado, mas a renda e a riqueza dos ricos cresceram muito mais rapidamente do que as dos pobres. Pode-se perguntar por que isso importa, mesmo concedendo a validade de suas estatísticas duvidosas: as pessoas não se importam muito mais com o quão bem estão indo do que com ressentimento em relação aos ricos, se é que de fato os ressentem?
Para Piketty, fazer perguntas desse tipo é olhar para a sociedade a partir da perspectiva errada. Para ele, a igualdade se sobrepõe à prosperidade. Se outra de suas propostas, a “economia verde” com o objetivo de reduzir as emissões de carbono, for adotada, a maioria das pessoas terá de viver com uma menor quantidade de bens materiais. Mas, projetando seus próprios compromissos igualitários sobre os outros, ele acredita que as pessoas estarão dispostas a fazer esse sacrifício desde que os ricos tenham de pagar sua “parte justa” dos custos:
“[O] ajuste considerável nos estilos de vida para lidar com o aquecimento global só será aceitável se uma distribuição justa do esforço for garantida. Se os ricos continuarem a poluir o planeta com seus SUVs e seus iates registrados em Malta … então por que os pobres deveriam aceitar o imposto sobre carbono, que provavelmente será inevitável?” [Piketty, Time for Socialism, p. 164].
Pode-se levantar a seguinte objeção ao que afirmei até aqui. Ainda que eu tenha conseguido encontrar exemplos proeminentes de economistas que fundamentam parte de seu igualitarismo em uma razão inaceitável, não poderia uma acusação semelhante ser dirigida aos defensores do livre mercado? Não faz parte da atração dos bens de luxo, para aqueles que podem adquiri-los, o fato de que outras pessoas não podem? Por que essa atitude seria melhor do que a inveja e o ódio que critiquei?
A isso, podem ser dadas duas respostas. Primeiro, minha discussão diz respeito às razões para favorecer o igualitarismo, e não às atitudes daqueles que têm mais ou menos em um sistema desigual; assim, o argumento sobre a atração dos bens de luxo, mesmo que seja correto, não afeta minha tese. Segundo, as duas atitudes não se equivalem do ponto de vista moral. Aqueles motivados pelo desejo de exibir superioridade não se empenham em piorar a situação dos outros: os ricos não procuram tornar os pobres mais pobres do que já são. (Na verdade, seus investimentos e gastos tornam a vida dos pobres melhor, mas isso é outro assunto). Já aqueles cuja defesa do igualitarismo se baseia na inveja e no ódio desejam piorar as condições materiais dos outros, algo de natureza muito diferente, de fato.
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Por David Gordon