Por J. Perossi*
As inteligências artificiais não são, por si, boas ou ruins, são apenas ferramentas desenvolvidas com alta tecnologia, mas seu uso pode trazer aspectos positivos ou negativos

A inteligência artificial veio para ficar. Potentes ferramentas como o ChatGPT, Midjourney e a chinesa DeepSeek podem ser utilizadas para facilitar diversos processos do cotidiano e no mercado de trabalho, mas também para ensino e pesquisa. Diante da impossibilidade de frear o desenvolvimento ou o uso dessas ferramentas nas escolas, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) publicou um guia para uso de IA generativa no ensino e pesquisa.
O guia reúne informações sobre o funcionamento das IAs generativas, tanto de texto quanto de imagens, e também orientações para um uso que esteja em conformidade com os princípios da pedagogia atual. Rogério de Almeida, professor da Faculdade de Educação (FE) e coordenador do Laboratório Experimental de Arte-Educação & Cultura da USP, explica sobre a utilização de IAs em sala de aula.

Boa ou ruim?
Conforme explica Almeida, as inteligências artificiais não são, por si, boas ou ruins, são apenas ferramentas desenvolvidas com alta tecnologia. Mas o uso que é feito delas pode trazer aspectos positivos ou negativos: “Em termos dos problemas, já temos uma questão ética. Os textos têm uma autoria que é questionável, porque, de fato, não é a inteligência artificial que está produzindo. Ela se vale de dados produzidos por muitas pessoas e, muitas vezes, apaga, inclusive, a origem desses dados”.
Outro problema surge com a distorção de informações e desinformação. Como o banco de dados utilizado pela inteligência artificial é retirado da internet e é muito amplo, não é possível filtrar quais informações são verídicas e quais não são, e muitas vezes as respostas contêm erros factuais e imprecisões. “Nós sabemos, pelos testes já feitos, que a IA produz muita distorção nas informações. Tanto que teríamos que questionar se o nome mais adequado mesmo seria inteligência artificial; ela opera muito mais como uma comunicação artificial, como alguns autores têm mencionado, ou uma espécie de processamento textual, processamento sonoro, processamento visual, a partir de fontes que ela coleta na internet” afirma o professor.
Contudo, conforme explicita o guia da Unesco, a IA pode ser utilizada para um método de aprendizagem focado na interação humana e no aprendizado construtivo, aquele em que o aluno não reproduz passivamente o que é dado como tarefa, mas também desenvolve senso crítico e emancipatório. Rogério cita alguns exemplos de usos que podem ser aproveitados na sala de aula: “A IA consegue fazer, por exemplo, revisão de texto e apontar sugestões de melhorias. Ela trabalha bem quando você fornece os dados para ela. Ela consegue, por exemplo, elaborar questões a partir de um texto que você produziu, a partir de uma ideia que você tem. Mas ela não é oráculo”.
Segurança de dados

Outra preocupação importante em relação às IAs é a segurança de dados. Os dados de utilização são tanto utilizados para alimentar a máquina quanto também são coletados a cada vez que fazemos uma pergunta ao ChatGPT, por exemplo. Andressa Pellanda, doutora em Relações Internacionais pela USP, explica que essa é uma questão de soberania nacional: “Existem secretarias de educação da região Norte que sequer têm todos os dados das suas escolas, então, o próprio Estado não tem acesso suficiente a dados em relação a essas escolas. Imagina esses dados serem coletados e colocados à venda nas mãos de líderes globais”, exemplifica Andressa.
Um dos líderes globais envolvidos fortemente com o desenvolvimento de inteligências artificiais é Elon Musk, chefe do Departamento de Eficiência Governamental dos Estados Unidos. Musk, que fez uma saudação nazista por ocasião da posse de Trump. A empresa de internet por satélite de Musk, chamada Starlink, pode estar envolvida em lobbies de contratação pública aqui no Brasil, por meio do programa Escolas Conectadas, conta Andressa Pellanda.
“Há um enviesamento dos processos de produção de dados nesse norte global, o que afronta uma questão básica de diversidade, de inclusão, e acaba gerando um processo de maior marginalização das populações e das culturas dos países do Sul global e das populações mais pobres, que já são historicamente mais marginalizadas”, finaliza a professora.
*Sob supervisão de Cinderela Caldeira e Paulo Capuzzo / Fonte: Jornal da USP / Foto: Cecília Bastos/USP Imagens