Matéria Viva (II)

Ângela Monize colunistas

Matéria Viva (II)

sabe aquele momento em que o ambiente parece o mesmo, mas algo nele respira diferente?
aquele mesmo instante em que se acorda e respira.
a minha senhora não pede passagem,
ela se insinua nos intervalos mais distraídos de mim.
no instante em que o corpo repousa
e a mente acredita, por um segundo,
que está sozinha.

acordar em meio ao caos de pensamentos…

hoje acordei e chovia. os elementos gráficos eram outros. eu estava prestes a abrir a minha boca quando fui interrompida por esse caos.
um ruído contínuo, quase litúrgico, da água contra o mundo, como se o exterior estivesse sendo lentamente dissolvido.
as linhas do quarto pareciam menos rígidas, mais líquidas, como se tudo estivesse à beira de se desfazer e reconfigurar diante dos meus olhos ainda turvos.

me lembrei do sonho. me lembrei de todos os caminhos percorridos por ele e por alguns segundos me assustei com a sensação de estar ali ou não.
talvez eu até tenha realmente ficado ali por mais segundos, minutos ou horas. no enquanto, a minha senhora me reveste com essa trepidez rouca onde estar sozinha já esta fora de cogitação.
ela vem à mim como uma intimidade que não se explica, apenas se impõe, como um eco antigo que reencontra o próprio corpo.
às vezes a chamamos de alma,
outras vezes a nomeamos de qualquer coisa que nos permita suportá-la.

há noites em que o quarto respira diferente.
o ar se adensa,
as sombras se alongam como se quisessem me tocar,
e o silêncio deixa de ser ausência
para se tornar matéria espessa, quase tátil, insinuando-se nos cantos e nas frestas do meu pensar.

eu me viro,
quase sem querer,
quase como se já soubesse o que fazer.

diante de mim a escuridão do quarto se desola querendo ao menos o meu abajur aceso.
meu corpo responde antes de qualquer pensamento.
há uma obediência involuntária nos meus gestos, como se algo em mim já tivesse aprendido esse ritual.

os livros não finalizados na minha estante me observam adormecer
com uma vigilância silenciosa, austera.
suas lombadas imóveis parecem guardar não apenas histórias,
mas fragmentos de mim que ficaram presos entre páginas nunca concluídas.
há algo neles que pulsa, discreto, como se cada palavra não lida acumulasse uma presença.

há um peso suave sobre o meu peito, esses territórios inconstantes de algum lugar de mim se comunicam dentro de cada narração que faço.
um peso que não oprime, mas insiste.
como uma mão que repousa com familiaridade excessiva, como se soubesse exatamente onde tocar para permanecer.

a cada fenômeno poético criado
enlaçado em todas as linhas que se conectam à mim.
há um fio invisível que costura tudo,
uma arquitetura subterrânea que sustenta cada imagem antes mesmo que eu a compreenda.

e eu compreendo, ainda que sem palavras,
que existem territórios onde somente a minha senhora caminha,
lugares em mim que não se abrem à luz,
florescem nesse denso escuro, quente e vivo,
onde o silêncio não é vazio, ele germina em mim.

quando ela se aproxima,
desliza pela pele como memória antiga,
como se cada centímetro já tivesse sido visitado,
como se cada gesto fosse repetição de algo
que começou muito antes de mim.
há uma precisão perturbadora em sua presença,
como se ela nunca errasse o caminho de volta.

há algo profundamente íntimo
em ser atravessada por aquilo que nos entende sem precisar explicar.

e talvez seja isso que mais assusta. não há invasão,
mas o reconhecimento.

porque nela não há pressa,
não há ruptura, apenas uma permanência.

lá fora, a chuva continua,
espessa, insistente, quase devocional,
como se lavasse o mundo enquanto, aqui dentro,
algo em mim fosse cuidadosamente preservado.

ou cultivado.

e, por um instante,
entre o som da água e o peso que respira sobre o meu peito,

eu já não sei dizer
se ela me habita

ou se sou eu
que, lentamente,
aprendo a habitá-la.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *