por Angela Monize – Terça, 17 de março de 2026
amanhã eu quero ir à biblioteca com a minha bicicleta velha de rodinhas brancas. amanhã, quero que seja tudo tranquilo, bem melhor do que o esperado e com vivências construtivas. amanhã eu preciso pensar no que estou fazendo hoje e relembrar os devaneios do meu traço no papel.
e por pensar que, ao invés de escrever a minha rotina, estou aqui aos pés do meu presente, num desespero enorme pelo futuro e medo da angústia.
talvez, quem sabe, mais tarde, eu passe um pouco de café, jurando amanhã repensar meus atos com total coesão e responsabilidade. afinal, o que é a universidade…?
um lugar de respostas? ou apenas um lugar onde aprendemos a formular perguntas cada vez mais perigosas?
interrogando você e eu de cabeça para baixo eu saberia que nós dois somos fracos sozinhos. e o fracasso leva à queda.
mas há algo estranho na queda: às vezes ela tem a delicadeza de um convite.
se, ao tocarmos nossas mãos, se ao menos houvesse a primeira conversa, a primeira intenção, saberíamos que nós dois somos intensos demais, firmes demais, nos queremos demais.
e que se houvesse um esforço para te trazer para cima, você e eu saberíamos que somos diferentes. não no sentido de ser melhor ou pior, não no sentido de ser mais do que aquilo que a nossa humanidade grita para ser, mas no sentido raro de sermos, juntos, ideias inteiras. caminhos traçados. correntes fortes correndo sob a mesma pele, no mesmo mundo.
no meu cadarço existem um bilhão de histórias. cada nó guarda um tropeço antigo. cada laço uma tentativa de permanecer de pé quando a vida empurra para o lado errado da estrada.
na minha bicicleta existe amor.
amor no metal gasto, no barulho da corrente que insiste em rodar, na maneira como as rodas continuam girando mesmo quando ninguém acredita muito no caminho. amor em todas as vertentes, amor em algo tão singular como equilibrar.
mas eu não quero só isso. não quero me limitar ao óbvio.
há em mim uma vontade que não cabe em bibliotecas, nem em cafés mornos, nem nos planos disciplinados de quem tenta domesticar o próprio destino.
sempre tenho desejos e loucuras a realizar. sanidades a cumprir. sonhos desesperados, figurar-se em mim…
há dias em que dá vontade de jogar o corpo no mundo, lançar todas as perguntas ao vento. me desenhar nas margens daquilo que ainda não sou. me desdenhar das versões antigas de mim mesma.
e desaparecer por um instante.
sumir como um bom sopro de uma brisa pálida. como a chuva densa de uma noite fresca que cai sem pedir licença e muda silenciosamente a respiração da terra.
ninguém fala sobre o momento exato em que decidimos confiar. talvez seja nesse tipo de manhã… essa vontade de pedalar até às 4. ir à biblioteca. sentir o cheiro das histórias…
é quando o mundo ainda está meio eterno, meio indeciso… e nós também.
então talvez amanhã eu realmente vá à biblioteca.
talvez eu apenas pedale sem destino, com o vento atravessando o rosto e o pensamento aberto como estrada.
talvez eu saia de casa esperando encontrar o meu amor. prende-lo em meu cadarço.
eternizar você…
deixar a rua me levar,
te encontrar na curva de uma esquina, no silêncio entre dois pensamentos, no instante em que a roda da bicicleta gira e o mundo gira junto.
talvez eu até descubra que certas histórias não estão nos livros da biblioteca, mas escondidas no ar da manhã, no metal gasto da bicicleta, na coragem silenciosa de continuar.
e, no fim, pode ser que eu entenda que não era sobre chegar a lugar nenhum.
era sobre pedalar dentro da própria história.