por: Tabita Said – Terça, 17 de fevereiro de 2026
Manchas brancas espalhadas pelo corpo de “Fantasma”, como foi chamado pelos pesquisadores, pode indicar falta de variabilidade genética e fragmentação da população
Cientistas brasileiros publicaram o primeiro relato de leucismo em um Sapajus libidinosus, uma espécie de macaco-prego cuja variação de cores vai de pelagens marrom-escuras até amarelo-douradas claras, com extremidades geralmente pretas. A presença de manchas brancas mostra uma perda parcial de melanina na pelagem e é extremamente rara em primatas.
Diferentemente do albinismo, que já foi identificado anteriormente em um macaco-prego-preto e em um macaco-prego-das-guianas, ambos em cativeiro, o caso relatado agora mostra um filhote, de aproximadamente três meses, com leucismo – doença congênita que causa perda parcial ou total de melanina na pelagem ou nas penas dos animais, embora a cor dos olhos permaneça escura, o que é considerado “normal”.
O macaquinho, chamado informalmente pelos pesquisadores de “Fantasma”, vive no Parque Nacional de Ubajara – Unidade de Conservação de Proteção Integral localizada na região da Serra da Ibiapaba, Estado do Ceará, e administrada pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).

“Eu estava instalando os gravadores de som na área, daí observei primeiro esse macaco branco ali, diferente, que nem era do nosso grupo de estudo. Fui atrás e vi esse filhote branquinho”, conta ao Jornal da USP o primatólogo Tiago Falótico, pesquisador associado ao Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva em Leipzig, na Alemanha, e presidente da Neotropical Primates Research Group (NeoPReGo), associação brasileira de apoio à pesquisa.
O animal foi observado duas vezes, em um intervalo de 30 dias. Todas as características estavam preservadas e seu comportamento foi o mesmo esperado de um infante saudável: era carregado pela mãe e, eventualmente, sua curiosidade também o levava a explorar o local sozinho. Mas estava socialmente integrado ao bando, sem sinais de rejeição pelos demais membros do grupo.
O Fantasma e o Jenipapo
Características do parque, como fragmentação territorial e intensa ocupação humana nas extremidades, poderiam indicar alguma influência que resultasse no aparecimento do leucismo entre os macacos. Entre essas influências estaria a poluição, alterações ecológicas ou mesmo uma mudança na alimentação padrão dos animais.
“Uma das hipóteses dessa diferença de coloração seria o fator ambiental. O primeiro é o genético, alguma mutação aleatória que deu essa característica. A outra seria a questão da alimentação, alguma deficiência alimentar ou algum poluente; alguma coisa que está contaminando os macacos que a gente nem tem ideia”, explica Falótico.
O parque Ubajara tem 6.300 hectares e engloba florestas, montanhas, cavernas e cachoeiras, marcado por áreas úmidas e frias, no planalto, e outras secas, de transição para o semiárido, na planície. A diferença entre a parte de baixo e de cima do parque também se reverte em microclimas distintos, e uma diversidade de plantas e frutas.
No entanto, a tese da influência ambiental, a princípio, está descartada. “Se fosse alguma coisa mais ambiental, de poluição e de alimentação, a gente espera que veria muito mais [casos de leucismo] espalhados nos grupos”, argumenta o pesquisador, que não desconsidera a análise genética. “Não temos desse indivíduo, em particular, mas a gente pode pelo menos dar uma olhada se tem algum gene conhecido de leucismo rodando na população e que não está ativo. Mas, o mais provável, é que ele seja uma mutação nova.”
A pulga atrás da orelha tem uma razão de ser: ao descobrirem o Fantasma, os pesquisadores decidiram revisar vídeos e informações em antigos bancos de dados, onde encontraram registros de um macho adulto, que também apresentava uma mancha branca na cabeça, embora mais sutil. Esse macaco é o Jenipapo. E não: ele não é pai do Fantasma.
“O Jenipapo é de outro grupo, e provavelmente é o macho alfa de lá”, explica Tatiane Valença, coautora do artigo que foi publicado durante a conclusão de seu doutorado no Instituto de Psicologia (IP) da USP. Tatiane também é pesquisadora visitante do Instituto Max Planck de Comportamento Animal em Konstanz, na Alemanha. “O mais fofo do grupo do macaquinho branco é o Zeca, provavelmente o pai dele. A gente conhece bem”, completa a pesquisadora e atualmente coordenadora de campo na base de pesquisas da NeoPReGo no parque cearense.
“Na verdade, tem outra característica que a gente não colocou [no artigo], mas, além da cabeça, o Jenipapo tem uma descoloração nos testículos”, conta Falótico ao Jornal da USP. Nenhum outro macaco-prego com esses padrões foi observado pela equipe nessa população desde o início da pesquisa, há seis anos.

Tatiane Valença – Foto: CV Lattes

Filhote leucístico de macaco-prego-barbudo (Sapajus libidinosus) do Parque Nacional de Ubajara e sua mãe. Ele tem membros e cauda com coloração esbranquiçada, diferente do padrão de coloração da pelagem da mãe – Imagens: NeoPReGo / extraídas do artigo

Jenipapo é um macho adulto com uma mancha de pelo mais claro no topo da cabeça – Foto: Tiago Falótico / Extraída do artigo
O risco da perda de uma tradição
Para os pesquisadores, a presença de dois macacos-prego com padrões de coloração anormais é um sinal de alerta para manter um monitoramento de longo prazo. Não apenas preservando a espécie, mas uma longa tradição de uso de ferramentas que é passada de geração em geração.
“Essa população é bem interessante porque, durante o meu doutorado, eu descobri que eles usam não só as pedras para quebrar coco, como boa parte dos macacos-prego, mas eles também usam pedras para cavar e usam varetas para tirar aranhas de alçapão de tocas. Um comportamento que a gente só tinha visto na Serra da Capivara”, destaca Tatiane Valença.
Se a hipótese genética estiver correta, o leucismo pode ser uma consequência do cruzamento de uma população pequena na qual a diversidade genética diminui significativamente. Com isso, genes recessivos raros (que normalmente não se manifestam) ganham maior probabilidade de aparecer.
Somente o acompanhamento e o registro sistemático desses animais poderá confirmar o aumento dessa característica na população de macacos-prego do Ubajara, um parque que também sofre a pressão das mudanças climáticas e do desenvolvimento urbano.
“Esse sinal de mutação – um bicho com cor diferente – pode ser um indicativo de endogamia de uma população que está restrita, ali, num fragmento, e não está tendo fluxo gênico. E tem outros problemas, como a população de animais domésticos entrando e interagindo com os animais do parque”, aponta Tiago Falótico.
“Conservar essas populações é importante para a gente conservar a diversidade de tradições dos macacos-prego. Esses comportamentos são importantes para a sobrevivência desses animais, mas também nos ajudam, enquanto seres humanos, a entender mais sobre nós mesmos”, conclui Tatiane.
O artigo First observation of a leucistic bearded capuchin monkey (Sapajus libidinosus) foi publicado na revista Primates.
Mais informações: [email protected], com Tiago Falótico
FONTE: Jornal da USP / Sapajus libidinosus, também chamado de macaco-prego barbado ou capuchinho, foi registrado por pesquisadores brasileiros no Parque Nacional de Ubajara, no Ceará – Foto: Tatiane Valença/NePReGo