Lorena Scavone Giron
Sven Beckert reposiciona as origens do sistema fora da Europa e questiona a narrativa dominante ao destacar o papel de redes globais, reinos e impérios
Se há algo que aproxima correntes tão distintas quanto capitalismo e comunismo é o impulso quase permanente de intelectuais — historiadores, economistas e filósofos — em criticar, dissecar e expor as falhas dos sistemas político-econômicos. Ainda assim, raramente as origens das complexas redes de trocas globais são analisadas com distanciamento crítico e consistência teórica baseada em dados e registros. É nesse ponto que “Capitalism: A Global History”, de Sven Beckert, se destaca ao propor uma leitura ampla, provocadora e menos centrada nos paradigmas tradicionais.
Na obra, que ultrapassa 1.300 páginas, o historiador apresenta uma tese tão direta quanto óbvia – mas só se o leitor parar para refletir: o capitalismo não nasceu na Europa, nem pode ser entendido como fruto exclusivo de mercados livres. Desde o início, afirma, foi um fenômeno globalizante, cheio de expansões e contrações, construído a partir de redes comerciais complexas que conectavam Ásia, África e Oriente Médio muito antes da ascensão europeia. Uma narrativa ignorada que resultou no que pode ser classificado como apagamento.
Nascimento fora de rota
Um dos pontos centrais é a mudança de perspectiva eurocêntrica sobre onde e como o capitalismo surgiu. Em vez de Florença, Bruges ou Amsterdã, Beckert aponta para o papel estratégico de centros comerciais do mundo islâmico e asiático.
A hoje conflagrada Aden, no Iêmen, é apresentada como um dos principais polos dessa dinâmica, funcionando como elo entre o Mar Vermelho, o Oceano Índico e a costa da África oriental. Ao lado dela, portos como Ormuz e centros comerciais como Calicute aparecem como espaços fundamentais para a circulação de mercadorias, tecnologias e capital.
Nesse contexto, o autor descreve um sistema já sofisticado de trocas globais, com rotas bem estruturadas e capacidade logística avançada — incluindo embarcações árabes de grande porte, que dominaram o comércio marítimo por séculos.
A leitura desloca o protagonismo histórico e amplia o entendimento sobre quem foram os agentes iniciais desse processo.
Além do livre mercado
Outro eixo relevante da obra é a crítica à ideia de que o capitalismo teria se desenvolvido a partir de mercados livres e espontâneos. Beckert argumenta que, desde sua expansão, o sistema esteve profundamente ligado ao poder político de imperadores, reis, sátrapas, sultões, califas, emires, xeques, paxás, marajás, rajás e xás de peles mais acobreadas.
A consolidação do capitalismo, sobretudo a partir do século XV, teria ocorrido por meio de uma aliança entre estados e mercadores, o que impulsionou a expansão marítima europeia e a reorganização das economias globais. Nesse processo, práticas como colonização, escravidão e coerção aparecem como elementos estruturais e não como desvios — doa a quem doer.
A análise também conecta esse passado à dinâmica contemporânea, incluindo a ascensão de economias asiáticas, como a China, dentro de um sistema que sempre foi global e interdependente.
Narrativa ambiciosa, leitura exigente
Do ponto de vista editorial, o livro combina pesquisa extensa e narrativa de fôlego. Beckert articula episódios históricos, dados econômicos e interpretação teórica em uma obra que se aproxima mais da referência acadêmica do que de uma leitura introdutória.
A densidade do conteúdo pode ser um obstáculo para leitores pouco afeitos a dados, números e contextos históricos. Todavia, esse peso é o que sustenta a ambição do projeto: oferecer uma visão abrangente, que ultrapassa fronteiras geográficas, temporais e conceitos nublados pela memória colonialista, a preponderância tecnológica das potências ocidentais, o preconceito religioso e o etnocentrismo.
Revisão e debate
Mais do que recontar o passado, “Capitalism: A Global History” propõe uma revisão de como o sistema é compreendido no presente. Ao descentralizar a narrativa e evidenciar o papel de diferentes regiões e agentes históricos, o livro amplia o debate sobre globalização, desigualdade e o papel do estado na economia.
A obra também reforça a trajetória de Beckert como um dos principais estudiosos do tema, após o sucesso de Empire of Cotton, de 2014, finalista do Pulitzer e vencedor do Bancroft Prize.
Em um momento de tensões geopolíticas e questionamentos sobre os rumos da economia global, o livro se apresenta como uma contribuição relevante — ainda que exigente — para entender as origens e os desdobramentos do capitalismo.

Ficha técnica
Título: Capitalism: A Global History
Autor: Sven Beckert
Editora: Penguin Press
Páginas: 1.343
Preços médios: Kindle (R$ 157,26) | Capa dura (R$ 221,39)
Título: Capitalism: A Global History
Autor: Sven Beckert
Editora: Penguin Press
Páginas: 1.343
Preços médios: Kindle (R$ 157,26) | capa dura (R$ 221,39) | audiolivro (R$ 233,99)
Sobre o Autor
Sven Beckert é professor de História na Universidade Harvard. Especialista em história econômica, sua obra anterior, Empire of Cotton, foi eleita um dos dez melhores livros do ano pelo New York Times e venceu o prestigiado Bancroft Prize.
Fonte: Money Report