A estreia da 11ª edição da Mostra Permanente de Cinema Italiano no Bixiga, pelo CPC-UMES, é um lembrete de que a cultura não precisa ser um produto de luxo
Há algo de revolucionário na persistência de uma sala de cinema que decide nadar contra a corrente do mercado comercial.
A estreia da 11ª edição da Mostra Permanente de Cinema Italiano no Bixiga funciona como um lembrete poderoso de que a cultura não precisa ser um produto de luxo restrito aos grandes shoppings. Ao abrir as portas do Cine-Teatro Denoy de Oliveira mais uma vez, o CPC-Umes reafirma o compromisso de manter viva a experiência coletiva de assistir a um filme, transformando uma segunda-feira comum em um evento de celebração comunitária que ignora a lógica do lucro imediato.
O cinema italiano sempre teve a capacidade única de rir da tragédia e encontrar beleza na dificuldade, uma característica que conversa diretamente com a alma do público brasileiro.
A escolha de Uma Vida Difícil (1961), de Dino Risi, para a abertura não é apenas técnica, mas sentimental. Ver a história de um homem que tenta manter sua integridade em um mundo corrupto, tudo isso contado com o humor ácido típico da Itália, cria um espelho onde a plateia se reconhece e se diverte. É o tipo de conexão humana que as grandes franquias de ação raramente conseguem estabelecer com quem está sentado na poltrona.
A homenagem a Cláudia Cardinale nesta edição eleva o nível da curadoria e traz luz a uma era em que os atores eram forças da natureza e não apenas rostos bonitos em cartazes publicitários. Dedicar espaço para celebrar a trajetória de uma das atrizes mais importantes da história serve para educar o olhar das novas gerações e matar a saudade dos veteranos. A Mostra acerta ao misturar esses ícones consagrados com diretores contemporâneos, criando uma ponte necessária que mostra como o cinema daquele país continua vibrante e relevante mesmo décadas depois de seu apogeu.
A grande vitória desta iniciativa reside na quebra da barreira financeira que tantas vezes afasta o povo da arte.
Ao oferecer sessões gratuitas e contínuas, a Mostra prova que a suposta falta de interesse do público por filmes clássicos ou estrangeiros é uma mentira contada por quem cobra caro nos ingressos. A sala cheia é a resposta simples de que existe uma demanda reprimida por conteúdo de qualidade. As pessoas querem ver bons filmes e debater boas histórias, elas apenas precisam de oportunidades que caibam no bolso e na rotina.
Manter um projeto desses de pé por onze anos exige uma teimosia admirável que deve servir de lição para todo o setor cultural. O Cine-Teatro Denoy de Oliveira se consolida não apenas como um espaço de exibição, mas como um guardião da memória cinematográfica em São Paulo.
Enquanto o circuito tradicional corre desesperado atrás da próxima novidade da semana, a Mostra Permanente de Cinema Italiano da UMES convida o espectador a parar, respirar e apreciar obras que resistiram ao teste do tempo.
É a vitória da consistência sobre o efêmero.
Fonte: Portal Vermelho / Foto: Divulgação