Pesquisa confirma tamanho da maior boca de caverna do Brasil e investiga ondas de enchentes

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Tecnologia de precisão mensurou altura do pórtico da Casa de Pedra em 197 metros; análises pluviométricas indicam risco de inundação no interior da caverna

Texto: Tabita Said

Arte: Simone Gomes – Terça, 17 de fevereiro de 2026

Uma pesquisa em andamento no Instituto de Geociências (IGc) da USP conseguiu confirmar a medida exata do pórtico da Casa de Pedra, caverna com abertura monumental localizada no município de Iporanga, dentro do Parque Estadual Turístico do Alto Ribeira (Petar), no Vale do Ribeira, em São Paulo. A medição foi feita utilizando Lidar aerotransportado – um sistema de sensoriamento remoto que realiza o escaneamento a laser pulsado, emitido de um drone. A tecnologia de alta precisão, capaz de coletar milhões de pontos por segundo, realizou o mapeamento 3D e mensurou a altura da boca da caverna da Casa de Pedra em 197 metros, podendo alcançar medidas ainda maiores considerando o topo. 

Dados ainda em processamento pelos pesquisadores e obtidos pelo Jornal da USP confirmam que episódios de chuva com duração de uma hora aumentaram o nível de água em mais de dois metros na saída da gruta, um fator de risco em atividades de exploração. O levantamento pode ser útil para auxiliar no planejamento de visitas e manejo da caverna, que tem cerca de três quilômetros de extensão. 

Alvo de imprecisões e controvérsias, a caverna Casa de Pedra está fechada para visitação desde 2003, quando um grupo de turistas e um guia foram atingidos por uma tromba d’água. Um dos turistas e o guia que acompanhava o grupo morreram afogados. Atualmente o local só é acessado por pesquisadores autorizados e integrantes da Defesa Civil. 

“A caverna, por exemplo, nunca foi para o Guinness [Book]. A gente nem sabia exatamente a medida, até então”, explica Nicolás Strikis, professor do IGc da USP e um dos pesquisadores envolvidos na medição. Segundo ele, o patrimônio caiu no esquecimento e sumiu do imaginário das pessoas após seu fechamento. “É como se o Estado de São Paulo tivesse uma Baía de Guanabara, um grande ativo não só turístico, mas ambiental, estético e natural, simplesmente ignorado”, disse ao Jornal da USP.

Após o levantamento, foi possível afirmar que a Casa de Pedra tem mesmo a maior abertura de caverna do Brasil e, muito provavelmente, do mundo. “Com essas configurações de elemento paisagístico, é o maior pórtico que nós temos até hoje medido no mundo”, destaca Strikis. 

“Nós temos em São Paulo um patrimônio que sempre foi meio relegado, que é a caverna Casa de Pedra, porque é um dos mais belos portais de caverna do Brasil e do mundo. É realmente muito bonito: você tem uma Mata Atlântica ombrófila densa [ombrófilo significa, literalmente, ‘amigo da chuva’]. Um rio que percorre um desfiladeiro estreito e, de repente, você se depara com o que nós chamamos de sumidouro – que é quando o rio se mete para debaixo da montanha” – Nicolás Strikis

Guia Silnei Florindo da Silva e pesquisadora da USP Vanessa Bohrer durante deslocamento no interior da Caverna Casa de Pedra – Foto: Melissa Medina
Vista do sumidouro da Caverna Casa de Pedra, com rio Maximiano fluindo para dentro da caverna – Foto: Paulo Natanael Messias dos Santos

Medo da chuva

O mapeamento 3D da Casa de Pedra surgiu no meio da pesquisa de mestrado de Vanessa Faria Bohrer, no IGc, do qual Strikis é orientador. No trabalho, Vanessa realiza a medição da vazão da nascente do rio que passa por dentro da caverna, monitorando as ondas de enchente da Casa de Pedra. 

“Já havia um plano de manejo espeleológico desde 2010 nessa caverna, mas faltava o monitoramento hidrológico para o parque avaliar uma possível reabertura”, conta a mestranda que publica periodicamente as movimentações de coleta de dados na página do Instagram Projeto Casa de Pedra. Vanessa lembra das dificuldades envolvidas na pesquisa, cujas coletas são realizadas bimestralmente à base de muito planejamento, já que os riscos de enchentes e inundações são iminentes. 

“É um campo cansativo: são três horas de trilha até o pórtico, mas é superprazeroso. Nós sempre acreditamos no impacto desse projeto para a sociedade, tanto para o turismo local, quanto nacional e internacionalmente”, diz. Além de contarem com a ajudinha da previsão do tempo, Vanessa e Strikis recebem apoio de hidrólogos do Instituto de Pesquisas Ambientais (IPA) e integrantes da Defesa Civil de Iporanga durante o processo de coleta. Ao todo, são quatro dias de dedicação: o primeiro para deslocamento até Iporanga; no segundo, o grupo planeja a ida até a chamada ressurgência – local de reaparecimento das águas submersas do rio Maximiliano caverna adentro. No terceiro dia, a coleta de dados é realizada no pórtico e, por fim, o quarto dia é destinado à coleta de registros de precipitação na cabeceira do rio no Núcleo Caboclos, no centro do parque. 

De acordo com Strikis, a Casa de Pedra é um importante patrimônio para o qual não há nenhum histórico de medição. “Além de um produto científico inédito, o trabalho também poderia apoiar a gestão de políticas públicas no local”, afirma. Apesar da possibilidade de reabertura da caverna para visitação, o pesquisador destaca que o local é de alta dificuldade, exigindo muita experiência em ambientes subterrâneos. “É como se você estivesse andando dentro de um monte de ruínas desmoronadas, com o rio passando e vários segmentos sem área de escape. É uma coisa técnica, mas ela não é um turismo qualquer. Isso eu não recomendaria”, pondera.     

Dados da pesquisa ainda em processamento indicam o registro de episódios de enchente com um aumento importante do nível da água na área de reaparecimento do rio dentro da caverna. Uma chuva de 60 milímetros/hora (mm/h) resultou no aumento de 2,17 metros no início do ano passado; já registros de dezembro mostraram que uma chuva de 50 mm/h fez com que o nível d’água chegasse a 1,90 metros no mesmo salão. Chuvas menos intensas, com 10 mm/h, também foram suficientes para o rio chegar a 1 metro na área de ressurgência.

“O intervalo de tempo entre o pico da chuva e o pico do nível da água foi cerca de uma hora e meia. Ou seja, foi bastante rápido, mas não o tempo de uma pessoa evacuar a caverna”, comenta Vanessa. Ela reforça que os dados ainda estão sendo analisados com diferentes métodos para chegar a respostas como o tempo médio de aumento no nível da água em diferentes intensidades de chuvas, além do tempo médio de recessão – tempo de o rio voltar ao nível considerado normal. 

O grupo comparou o tamanho da entrada a cinco estátuas do Cristo Redentor empilhadas – Crédito: Reprodução / Gestão Engenharia 
Mapeamento de alta precisão gerou um modelo 3D da caverna, revelando a magnitude da abertura em rocha calcária – Crédito: Reprodução / Gestão Engenharia

Colaboração e pertencimento

O trabalho de mapeamento 3D da boca da caverna da Casa de Pedra foi feito numa parceria entre a USP, a Fundação Florestal, a Gestão Engenharia, patrocinadora do projeto, e pelo espeleólogo mineiro independente Thiago Ferreira Lima. O levantamento confirmou o tamanho monumental do pórtico – cinco estátuas do Cristo Redentor empilhadas não chegariam ao topo da entrada da caverna – e também resultou em um conjunto massivo de imagens que servirão para a compreensão de seu processo evolutivo.

“A gente pode entender melhor a morfologia dela, porque é difícil: o leito vai descendo e você nunca tem uma imagem que mostra a caverna inteira, da base até o teto. O 3D consegue nos dar isso”, explica Nicolás Strikis. Ele conta que o grupo de pesquisa também está trabalhando no processo de criação de uma maquete, que deverá permanecer junto à comunidade local.

Devido à alta resolução das imagens geradas pela tecnologia do Lidar, o grupo gerou um “gêmeo digital” – modelo virtual preservando os aspectos métricos da nuvem de pontos que tem, originalmente, milhões de dados. O material ainda será trabalhado em uma futura publicação científica.

Mais informações: [email protected], com Nicolas Misailidis Strikis 

Fonte: Jornal USP / Patrimônio natural do Estado de São Paulo tem a maior abertura de caverna já medida do mundo – Foto: Thomas Fuhrmann/Wikimedia

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