Pesquisadores debatem sobre a chegada de Bombus terrestris ao Brasil no XIV Encontro sobre Abelhas

Bahia Brasil CITY RURAL

Quinta, 15 de janeiro de 2026

A espécie é nativa da Europa e polinizadora de diversas culturas agrícolas, mas pode competir com espécies brasileiras e disseminar doenças

Bombus transversalis, espécie nativa da Bacia Amazônica. Crédito: Marcelo CavalcanteEm 2015, a tese de doutorado intitulada “Bombus terrestris chegará ao Brasil? Um estudo preditivo sobre uma invasão em potencial”, do pesquisador André Luis Acosta, apresentada ao Instituto de Biociências da USP, antecipou a preocupação sobre a chegada dessa espécie ao país. Embora seja uma ótima polinizadora agrícola, que movimenta uma indústria milionária de produção, aluguel e venda de colmeias para diversos países do mundo, a potencial invasão da mamangava europeia preocupa a comunidade científica e impulsiona ações de monitoramento e novos estudos sobre o tema.

O Simpósio Bombus e sua potencial dispersão na América do Sul”, realizado durante o XIV Encontro sobre Abelhas, em novembro de 2025, em Ribeirão Preto (SP), reuniu especialistas, estudos e iniciativas voltados ao aprofundamento do conhecimento científico sobre o gênero Bombus e suas implicações ecológicas, produtivas e regulatórias.

O simpósio foi coordenado pela Profa. Dra. Vera Lúcia Imperatriz-Fonseca e pelo Prof. Dr. Carlos A. Garofalo, e contou com a participação dos pesquisadores Profa. Dra. Favízia Freitas de Oliveira, Dra. Patrícia Nunes-Silva, Dra. Sidia Witter e Prof. Dr. Breno Freitas.  A realização do simpósio teve o apoio da A.B.E.L.H.A., contribuindo para qualificar o debate técnico e subsidiar futuras decisões no campo sobre conservação e manejo de polinizadores.

Foto Bombus simposio
Da esquerda para a direita: Dra. Patrícia Nunes-Silva, Profa. Dra. Favízia Freitas de Oliveira, Profa. Dra. Vera Lucia Imperatriz-Fonseca, Dra. Sidia Witter e Prof. Dr. Breno Freitas. Crédito: Cinthia Gomes/A.B.E.L.H.A.

Monitoramento

O projeto “Status das espécies de mamangavas nativas (Bombus) em áreas suscetíveis à invasão de Bombus terrestris na fronteira Brasil-Uruguai” foi iniciado este ano no Rio Grande do Sul, estado por onde a espécie deve alcançar o território brasileiro. O monitoramento está sendo realizado por pesquisadores do Departamento de Diagnóstico e Pesquisa Agropecuária da Secretaria da Agricultura, Pecuária, Desenvolvimento Sustentável e Irrigação do RS e busca dar continuidade à pesquisa de 2015.

“O objetivo é estudar e monitorar populações de Bombus nativos na fronteira Brasil-Uruguai antes da chegada de Bombus terrestris, para subsidiar políticas públicas. Para isso, vamos avaliar a ocorrência, dados de abundância de espécies de Bombus nativos e plantas visitadas, caracterizar os tipos florais preferenciais pelas espécies de Bombus, identificar as plantas usadas como recursos alimentares, etc.”, afirma a Dra. Sidia Witter, coordenadora do projeto.

O estudo de 2015 identificou oito municípios gaúchos por onde pode se dar a invasão: Aceguá, Bagé, Chuí, Dom Pedrito, Herval, Jaguarão, Pedras Altas e Santa Vitória do Palmar. Todos fazem fronteira com o Uruguai, onde o monitoramento também já ocorre. Após a entrada em território brasileiro, a invasão pode se estender por corredores ecológicos pelos estados de Santa Catarina, Paraná e chegar até São Paulo. A pesquisa também mapeou 20 cultivos agrícolas com os quais Bombus interage, como abacate, batata, cebola, pepino, maçã, melancia e morango.

Ameaça

Bumblebee Bombus terrestris By Alvesgaspar
Bombus terrestris deve chegar ao Brasil pela fronteira com o Uruguai. Crédito: Wikimedia Commons By Alvesgaspar

Nativa da Europa, a Bombus terrestris foi introduzida no Chile em 1997 e a área de distribuição se expandiu mais de 2 mil km e já chegou até a Argentina. E estima-se que elas devam chegar ao Brasil em pouco tempo.

Segundo a Dra. Patrícia Nunes-Silva, da UNISINOS, a invasão da nova espécie traz diversos riscos. “Pode haver hibridização com espécies invasoras, competição por recursos florais e locais de nidificação, alterações nas interações planta-polinizador, além de introdução e espalhamento de patógenos e parasitas. Por isso, precisamos de mais informações e monitoramento mais frequente para proteger as abelhas nativas”, explica Nunes-Silva.

Existem cerca de 300 espécies descritas de abelhas do gênero Bombus ao redor do mundo, sendo somente oito delas presentes em território brasileiro (Bombus applanatus, B. bahiensis, B. bellicosus, B. brasiliensis, B. brevivillus, B. pauloensis, B. transversals). “O raio de forrageamento de Bombus chega a 27 km. Elas são abundantes em habitats alpinos e de alta altitude da zona temperada do Hemisfério Norte, mas possuem ampla distribuição, que vai da Groenlândia à Bacia Amazônica, incluindo outras florestas tropicais”, destaca a Profa. Dra. Favízia Freitas de Oliveira, da Universidade Federal da Bahia.

De acordo com a Comissão Nacional de Biodiversidade (CONABIO), espécies exóticas invasoras estão entre as principais causas diretas de perda de biodiversidade e extinção de espécies. “Não se constrói cerca nem muro, temos que pensar em estratégias de controle. Não vejo pontos positivos numa invasão biológica, ainda que seja uma espécie polinizadora, mas coloca em risco os nossos polinizadores, como aconteceu no Chile e na Argentina. O que seria interessante é começar a tratar da criação das nossas Bombus, que podem até vir a ser uma barreira natural para a entrada da Bombus terrestris”, afirma o analista ambiental Carlos Henrique Jung Dias, do IBAMA. Ele é o responsável por desenvolver um protocolo específico, a partir da legislação existente, para o caso de invasão biológica por Bombus terrestris.

E por que não criamos as Bombus brasileiras?

Bombus transversalis Crédito Marcelo Cavalcante
Bombus transversalis, espécie nativa da Bacia Amazônica. Crédito: Marcelo Cavalcante

Essa foi a pergunta que o Prof. Dr. Breno Freitas, da Universidade Federal do Ceará, procurou responder durante o Simpósio. “São abelhas estudadas no mundo todo, mas no Brasil elas são negligenciadas. Talvez pela agressividade dessas abelhas, que causa medo até nos pesquisadores, mas principalmente na população, que acaba destruindo os ninhos dessas abelhas. Quase não temos estudos sobre essas abelhas no Brasil e temos observado uma redução no número de colônias”, elucida Freitas, que já pesquisa sobre a polinização feita pelas mamangavas brasileiras há anos.

A coordenadora do projeto gaúcho de monitoramento de Bombus, Sidia Witter, conta que ninhos foram encontrados no solo, grama alta e próximos às raízes de oliveiras, mas que acabam sendo destruídos quando os produtores utilizam as máquinas agrícolas. “Essas abelhas polinizam trevo, alfafa e ervilhaca, que auxiliam no desenvolvimento de outras culturas, na cobertura do solo e fixação de Nitrogênio”, ressalta Witter.

Para a coordenadora do Simpósio, Profa. Dra. Vera Imperatriz-Fonseca, é preciso fazer um trabalho educativo com os agricultores. “Essas abelhas também são grandes polinizadoras, o valor econômico é enorme. Mamangavas são muito importantes no mundo inteiro. Temos que conversar com os produtores. O Rio Grande do Sul está produzindo azeite de muito boa qualidade. Se as oliveiras são um bom lugar para Bombus, vamos trabalhar com os produtores de oliva, abrir novas frentes de diálogo”, enfatiza Imperatriz-Fonseca.

Bombus terrestris é a espécie de abelha mais comercializada no mundo, com mais de 850 mil colônias exportadas ao ano a partir da Europa para mais de 60 países.

Fontes consultadas

ACOSTA, André Luis. Bombus terrestris chegará ao Brasil? Um estudo preditivo sobre uma invasão em potencial. Tese de Doutorado. Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo. Acesso em 25 de novembro de 2025. Disponível em: https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/41/41134/tde-22092015-080256/publico/AndreLuis_Acosta_CORRIG.pdf

IBAMA. Resolução 7, de 29 de maio de 2018 (Dispõe sobre a Estratégia Nacional para Espécies Exóticas Invasoras). Acesso em 27 de novembro de 2025. Disponível em: https://www.ibama.gov.br/component/legislacao/?view=legislacao&legislacao=138909

SEAPI. Espécie de abelha invasora começa a ser monitorada na fronteira do RS. Secretaria da Agricultura, Pecuária, Desenvolvimento Sustentável e Irrigação do Rio Grande do Sul. Acesso em 27 de novembro de 2025. Disponível em: https://www.agricultura.rs.gov.br/especie-de-abelha-invasora-comeca-a-ser-monitorada-na-fronteira-do-rs

Fonte: Abelha.org /

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