Um dos mais expressivos e conhecidos poetas negros do Rio Grande do Sul, Oliveira Silveira, vai ser companheiro de praça de Mario Quintana, Carlos Drummond de Andrade e de nomes históricos como os do General Osório, Barão do Rio Branco e Júlio La Porta*.
A Praça é a da Alfândega, no coração do Centro Histórico de Porto Alegre, local da Feira do Livro e de tanta vibração cultural. A homenagem a Oliveira Silveira em forma de escultura é justa e destaca um dos poetas gaúchos relevantes pela sua obra e uma espécie de ícone da comunidade negra do estado. O monumento vencedor foi escolhido por júri organizado pela Associação dos Escultores do Estado do RS (AEERS).
Participaram do concurso 21 propostas inscritas e criadas especialmente para a Praça da Alfândega. Os cinco trabalhos finalistas ficaram expostos no Museu de Arte do Paço (Mapa) até o dia 13 de fevereiro, com boa participação conforme registra o livro de presenças. Os finalistas receberam premiações em dinheiro e menções honrosas.
A classificação ficou assim: 1° lugar – “Monumento Oliveira Silveira” de Marcos Porto; 2° lugar – “Encontrei Minhas Origens” da Hararte; 3° lugar – “Oliveira Silveira – Consciência Negra” de André Azambuja e Iouri Petrov; 4° lugar – “Poema em Aço” de Caroline Lazzaretti, Gabriela Degelmann e Igor Faistauer e 5° lugar – “Monumento a Oliveira Silveira” de Adriana Leiria e Ronaldo Mohr da Arte Conecta.

Com a conclusão do concurso e da exposição, agora a grande batalha é a execução do monumento. “O artista vencedor e a prefeitura vão buscar juntos as melhores formas de viabilizar a obra”, diz a AEERS. Entre as possibilidades estão recursos oriundos de emendas parlamentares, leis de incentivo à cultura ou financiamento direto via fundos públicos ou privados.
O espaço está garantido e foi escolhido pela filha do poeta, Naiara Silveira, presidente do Instituto Oliveira Silveira e secretária-geral da Associação Negra de Cultura. “Passeava muito por ali com o pai e até ficava observando as conversas que ele tinha com Mario Quintana”, diz ela.
O concurso teve seu edital lançado em 25 de julho de 2025. As inscrições para selecionar o projeto da escultura, que será instalada na Praça da Alfândega em Porto Alegre, ficaram abertas até 1º de setembro de 2025.
‘Sou o trabalho e a luta’
“Sou a bombacha de santo/ sou o churrasco de Ogum/ entre os filhos desta terra/ naturalmente sou um/ Sou o trabalho e a luta/ suor e sangue de quem/ nas entranhas desta terra/ nutre raízes também.” O trecho do poema Sou, é do homenageado, Oliveira Silveira. Ele nasceu no distrito de Touro Passo na cidade de Rosário do Sul em 1941. Veio para Porto Alegre onde se graduou em Letras na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) e virou ativista do movimento negro.
Sempre em posição de destaque pela sua abrangência, criatividade e inteligência, ajudou a criar o Grupo Palmares e participou da luta do 20 de Novembro como Dia da Consciência Negra. É autor de diversos títulos individuais de poesia e publicou também dezenas de artigos, contos e crônicas, sempre dando visibilidade ao papel do negro no contexto social. Nada ficava para depois e foi acumulando conhecimentos, premiações e se posicionando firme e corajosamente contra qualquer preconceito. “Um guerreiro”, como diz a jornalista Jeanice Ramos, coordenadora do júri.

Entre as distinções recebidas destacam-se a Menção Honrosa pela União Brasileira de Escritores no Rio de Janeiro em 1969, a Medalha Cidade de Porto Alegre – concedida pelo Executivo Municipal em 1988, a Medalha Mérito Cruz e Souza em Florianópolis em 1998, e a homenagem Tesouro Vivo Afro-brasileiro no Congresso Nacional de Pesquisadores Negros, realizado em 2002 na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Desde a década de 1970 atuou em diversas entidades e comissões, tais como Razão Negra, Tição, Samba Arte Negra, Associação Negra de Cultura, Comissão Gaúcha de Folclore e o Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial (CNPIR) entre 2004 e 2007.
Oliveira Silveira morreu em Porto Alegre em 2009. A filha Naiara acredita que ganhar uma escultura e um espaço de memória como este valida tudo que o intelectual fez pelo movimento negro no Brasil. “É um reconhecimento da pessoa que ele foi. Uma pessoa muito simples, mas que sempre batalhou pelas causas da cultura e da história do povo negro no Rio Grande do Sul”, afirma ela, emocionada.
Oliveira Silveira tem uma extensa obra, sozinho ou em coautoria. Estes aqui são os seus livros individuais. Germinou: 1962, Poemas regionais: 1968, Banzo, saudade negra: 1970, Décima do negro peão: 1974, Praça da palavra: 1976, Pêlo escuro: 1977, Roteiro dos tantãs: 1981, Poema sobre Palmares: Porto Alegre: 1987, Anotações à margem: 1994, Poemas: 2009, publicação póstuma.
O vencedor do concurso
Marcos Porto é um artista visual com experiência em pintura, escultura, ilustração, web design e design gráfico. Estudou desenho no Atelier Livre Xico Stockinger e webdesign no Senac Informática em Porto Alegre. Artista com influências do neosurrealismo e do afrofuturismo, sua arte mostra uma estética voltada para a tecnologia e o simbolismo africano.

Ele é catarinense de Rio do Sul, onde nasceu em 1967. Participou da Mostra Internacional de Arte Contemporânea no Centro Rebouças em São Paulo, da exposição Made in Brazil de artistas brasileiros em Washington – USA, da exposição Travessias Contemporâneas ao Sul do Atlântico e da exposição Presença Negra no Museu de Arte do RS (Margs), em Porto Alegre.
É autor também da Graphic Novel Nova Lágrima e ilustrador das capas da série The Elfin Child do escritor inglês Philip Bell. Ilustrou as capas para os livros de Conscienciologia Introdução à Ciência do Macrossoma e Autoconsciência – O sentido da lucidez na 3ª e 4ª idades, da professsora Sonia Cerato, criou o design gráfico do “Calendário Português/Yorubá” e em 2023 criou o troféu Sirmar Antunes de cinema. Vive e trabalha em Porto Alegre.
Entidade Cultural
A Associação dos Escultores do Estado do Rio Grande do Sul é uma entidade cultural fundada em 1982, que mantém núcleos ativos em diferentes cidades gaúchas, contando atualmente com quadro de associados, incluindo artistas, curadores, historiadores, arquitetos, museólogos, ativistas do movimento social, entre outros profissionais da cultura.
Historicamente atua no desenvolvimento de ações em formato de ateliê aberto de arte, realiza exposições e cursos, organiza debates e seminários, além de diversas ações complementares que objetivam defender os artistas, promover a cultura, bem como preservar as obras de arte, a memória e o patrimônio.
Entre as principais realizações da entidade se pode destacar a organização de mais de 100 exposições desde o início dos anos 1980 até os dias atuais, além de mais de 30 seminários, bem como vários cursos que propiciaram a formação de muitos novos artistas e demais fazedores de cultura ao longo desses 40 anos.
O que a AEERGS faz
• Atua há 44 anos, reunindo artistas, estudantes, professores e colaboradores da cultura;
• Promove exposições anuais – como o “Dia do Escultor”, o “Pequeno Bronze” e o “Jardim de Esculturas”;
• Organiza concursos de arte – como o “Concurso Monumento Oliveira Silveira”, realizado em 2025;
• Desenvolve projetos colaborativos de arte pública – como o “Monumento a Sigmund Freud” no Parcão, obra feita por 21 artistas em 2025;
• Realiza ações de memória e patrimônio, como rodas de conversa, oficinas de educação patrimonial e caminhadas guiadas;
• Realiza o “Prêmio AEERGS”, reconhecendo ações que se destacam no setor a cada ano;
• Recebe premiações. Em 2023 a AEERGS venceu o “Prêmio Açorianos de Artes Plásticas”. E em 2025 o “Prêmio CAU”, na categoria Movimentos Sociais;
• Representa os artistas em conselhos, comissões, redes e fóruns. Hoje a AEERGS está representada por seus associados em mais de 10 espaços de debate público. A AEERGS é “Ponto de Cultura” e “Ponto de Memória” –reconhecida pelo Ministério da Cultura;
• Propõe projetos de lei e acompanha a aplicação de normas que regem as atividades artísticas na Capital e no Interior;
• Executa as obras de recuperação e manutenção da Casa da Estrela – sede da AEERGS na Rua Camerino, 34, bairro Petrópolis;
• Realiza e participa de eventos de integração comunitária com sua vizinhança. Entre eles o “Traga seu quilinho”, as “Caminhadas Culturais”, o “Dia do Patrimônio” e o “Aniversário da AEERGS”.
* Principais Monumentos e Esculturas da Praça da Alfândega: Monumento aos Poetas (Mario Quintana e Carlos Drummond de Andrade): Inaugurado em 2001, traz Quintana sentado e Drummond em pé, uma das obras mais conhecidas do escultor Xico Stockinger; Monumento ao General Osório: Homenagem ao herói da Guerra do Paraguai e patrono da cavalaria; Monumento ao Barão do Rio Branco: Homenagem ao patrono da diplomacia brasileira; Pegada Africana: Inaugurada em 2011, parte do Museu de Percurso do Negro, representando a cultura negra no calçadão; Monumento em homenagem a Júlio La Porta (O “Xerife” da Feira do Livro): Escultura em formato de sino; Hermas e Bustos: Dedicados a figuras como Caldas Júnior, Antônio Carlos Lopes, Leonardo Truda e Barão de Santo Ângelo.
Editado por: Katia Marko / Poeta gaúcho Oliveira Silveira | Crédito: Acervo Pessoal
Fonte: Brasil de Fato