Por que o Salão do Automóvel virou o maior evento de carros no Brasil

AutoCity Bahia Brasil

Apesar dos inúmeros perrengues, organização do evento soube criar um nome forte e usou até sorteio de carros para conquistar o coração do brasileiro

Por Marcos Rozen – Sexta, 2 de janeiro de 2026

Quem gosta de carro indubitavelmente tem pelo menos uma boa lembrança do Salão do Automóvel . A feira é um fenômeno por conseguir sempre estar associada a uma recordação positiva, mesmo quando uma série de fatores negativos orbita o ambiente do evento.

Afinal, quem nunca passou perrengue no trânsito para chegar ou sair do Salão? E para estacionar, então? E aquele calor insuportável? E a frustração de não conseguir tirar uma foto daquele carro especial, sempre cercado por centenas de pessoas? E a dificuldade para comer, beber água, ir ao banheiro ou apenas achar um lugar para se sentar? Nada disso abala nossas lembranças, especialmente as de infância e adolescência.

Em 1970, “multidão VIP” aguarda a entrada para a noite de estreia — Foto: Acervo MIAU
Em 1970, “multidão VIP” aguarda a entrada para a noite de estreia — Foto: Acervo MIAU

Isso acontece porque, talvez até inconscientemente, já íamos ao Salão esperando encontrar uma massa gigantesca de pessoas. Então, acabamos abstraindo isso e focando nossas recordações não no que já sabíamos que haveria, a multidão e os perrengues, e sim naquilo que efetivamente nos gerava ansiedade e expectativa: os carros que seriam ali mostrados.

Mas como será que o Salão do Automóvel se tornou um evento de tamanho sucesso de público? Afinal, outras diversas mostras automotivas já ocorreram e, mesmo que também tenham feito algum sucesso quando realizadas, nem de longe têm ou tiveram a aura do Salão.

No quinto Salão, em 1966, a fama do evento já estava consolidada — Foto: Acervo MIAU
No quinto Salão, em 1966, a fama do evento já estava consolidada — Foto: Acervo MIAU

primeira razão está no nome, que é muito forte e representativo. E a segunda está em uma estratégia muito bem pensada quando a feira viveu suas primeiras edições. Para atrair o público, ainda que o tema carro já seja interessante o suficiente para o brasileiro, os organizadores tiveram uma ótima ideia: sortear carros entre os visitantes.

No primeiro Salão do Automóvel de São Paulo, realizado no Parque do Ibirapuera, em 1960, quem comprava um ingresso concorria a cinco carros zero-quilômetro: um Renault Dauphine, uma DKW Vemaguete, um Aero Willys, um Alfa Romeo FNM JK e um Simca Chambord. Para atiçar ainda mais o público, esses carros ficaram expostos em um gramado bem ao lado da bilheteria. Foi, é claro, um sucesso. E então, desde a primeira edição, já se instaurou um caos no estacionamento — que, para piorar, era no próprio parque, em meio às árvores.

Salão do Automóvel - No segundo Salão, em 1961, foram sorteados 14 carros, um por dia — Foto: Acervo MIAU
Salão do Automóvel – No segundo Salão, em 1961, foram sorteados 14 carros, um por dia — Foto: Acervo MIAU

Na segunda edição, de 1961, a mesma estratégia foi usada, mas com ainda mais peso: 14 carros sorteados (todos Renault Dauphine), um para cada dia do evento. Os veículos ficaram expostos em uma estrutura metálica enorme, bem na entrada. O mais curioso é que cada um era sorteado diariamente, dentro do Salão, pasmem, às 23h — ou seja, ninguém ia embora antes disso.

Primeiro Salão do Automóvel, no Ibirapuera, teve cinco carros sorteados — Foto: Acervo MIAU
Primeiro Salão do Automóvel, no Ibirapuera, teve cinco carros sorteados — Foto: Acervo MIAU

Assim, já na terceira edição, em 1962, a fama do Salão estava consolidada. Mesmo sem sorteio de carros a partir de então, os registros de época encontrados no acervo do Museu da Imprensa Automotiva (Miau) mostram uma multidão impressionante tentando entrar na mostra.

O espaço disponível no Ibirapuera ficou pequeno demais e, em 1970, o Salão inaugurou um lugar de exposições muito maior em São Paulo, o Anhembi. Todo mundo achou que a questão do estacionamento estaria finalmente resolvida, só que o novo local atraiu ainda mais público, de modo que nem mesmo as milhares de vagas disponíveis ali foram suficientes.

Mesmo o enorme estacionamento do antigo Anhembi era insuficiente — Foto: Acervo MIAU
Mesmo o enorme estacionamento do antigo Anhembi era insuficiente — Foto: Acervo MIAU

Outro problema corriqueiro, que se arrastaria por muitas e muitas edições, era a compra dos ingressos, que só podia ser feita na hora. Formava-se, então, uma fila quilométrica para adquirir o bilhete e depois enfrentava-se um verdadeiro formigueiro humano para entrar, pois também os sistemas de catraca e controle não eram automatizados, o que tornava tudo mais lento e difícil.

Bem, avançamos para 2025 e o Salão do Automóvel, depois de sete anos na UTI, volta a ser realizado. Coincidentemente, ocorrerá outra vez no Anhembi, agora totalmente renovado. Passaremos perrengue? Com certeza. Guardaremos boas lembranças? Certamente que sim. Afinal, quem gosta de carro, gosta — automaticamente — de Salão do Automóvel…

Fonte: Autoesporte globo / Apesar dos inúmeros perrengues, organização do evento soube criar um nome forte e usou até sorteio de carros para conquistar o coração do brasileiro

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