Apesar dos inúmeros perrengues, organização do evento soube criar um nome forte e usou até sorteio de carros para conquistar o coração do brasileiro
Por Marcos Rozen – Sexta, 2 de janeiro de 2026
Quem gosta de carro indubitavelmente tem pelo menos uma boa lembrança do Salão do Automóvel . A feira é um fenômeno por conseguir sempre estar associada a uma recordação positiva, mesmo quando uma série de fatores negativos orbita o ambiente do evento.
Afinal, quem nunca passou perrengue no trânsito para chegar ou sair do Salão? E para estacionar, então? E aquele calor insuportável? E a frustração de não conseguir tirar uma foto daquele carro especial, sempre cercado por centenas de pessoas? E a dificuldade para comer, beber água, ir ao banheiro ou apenas achar um lugar para se sentar? Nada disso abala nossas lembranças, especialmente as de infância e adolescência.
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Isso acontece porque, talvez até inconscientemente, já íamos ao Salão esperando encontrar uma massa gigantesca de pessoas. Então, acabamos abstraindo isso e focando nossas recordações não no que já sabíamos que haveria, a multidão e os perrengues, e sim naquilo que efetivamente nos gerava ansiedade e expectativa: os carros que seriam ali mostrados.
Mas como será que o Salão do Automóvel se tornou um evento de tamanho sucesso de público? Afinal, outras diversas mostras automotivas já ocorreram e, mesmo que também tenham feito algum sucesso quando realizadas, nem de longe têm ou tiveram a aura do Salão.
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A primeira razão está no nome, que é muito forte e representativo. E a segunda está em uma estratégia muito bem pensada quando a feira viveu suas primeiras edições. Para atrair o público, ainda que o tema carro já seja interessante o suficiente para o brasileiro, os organizadores tiveram uma ótima ideia: sortear carros entre os visitantes.
No primeiro Salão do Automóvel de São Paulo, realizado no Parque do Ibirapuera, em 1960, quem comprava um ingresso concorria a cinco carros zero-quilômetro: um Renault Dauphine, uma DKW Vemaguete, um Aero Willys, um Alfa Romeo FNM JK e um Simca Chambord. Para atiçar ainda mais o público, esses carros ficaram expostos em um gramado bem ao lado da bilheteria. Foi, é claro, um sucesso. E então, desde a primeira edição, já se instaurou um caos no estacionamento — que, para piorar, era no próprio parque, em meio às árvores.
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Na segunda edição, de 1961, a mesma estratégia foi usada, mas com ainda mais peso: 14 carros sorteados (todos Renault Dauphine), um para cada dia do evento. Os veículos ficaram expostos em uma estrutura metálica enorme, bem na entrada. O mais curioso é que cada um era sorteado diariamente, dentro do Salão, pasmem, às 23h — ou seja, ninguém ia embora antes disso.
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Assim, já na terceira edição, em 1962, a fama do Salão estava consolidada. Mesmo sem sorteio de carros a partir de então, os registros de época encontrados no acervo do Museu da Imprensa Automotiva (Miau) mostram uma multidão impressionante tentando entrar na mostra.
O espaço disponível no Ibirapuera ficou pequeno demais e, em 1970, o Salão inaugurou um lugar de exposições muito maior em São Paulo, o Anhembi. Todo mundo achou que a questão do estacionamento estaria finalmente resolvida, só que o novo local atraiu ainda mais público, de modo que nem mesmo as milhares de vagas disponíveis ali foram suficientes.
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Outro problema corriqueiro, que se arrastaria por muitas e muitas edições, era a compra dos ingressos, que só podia ser feita na hora. Formava-se, então, uma fila quilométrica para adquirir o bilhete e depois enfrentava-se um verdadeiro formigueiro humano para entrar, pois também os sistemas de catraca e controle não eram automatizados, o que tornava tudo mais lento e difícil.
Bem, avançamos para 2025 e o Salão do Automóvel, depois de sete anos na UTI, volta a ser realizado. Coincidentemente, ocorrerá outra vez no Anhembi, agora totalmente renovado. Passaremos perrengue? Com certeza. Guardaremos boas lembranças? Certamente que sim. Afinal, quem gosta de carro, gosta — automaticamente — de Salão do Automóvel…
Fonte: Autoesporte globo / Apesar dos inúmeros perrengues, organização do evento soube criar um nome forte e usou até sorteio de carros para conquistar o coração do brasileiro