Terça-feira, 20/01/2026 – 16h20
Por João Gabriel de Lima | Folhapress
A Unidade de Contraterrorismo da Polícia Judiciária de Portugal desencadeou, nesta terça (20), uma das maiores ações contra grupos neonazistas já realizadas no país. Batizada de Operação Irmandade, a ação havia prendido 37 pessoas até a publicação desta reportagem. As investigações começaram no início de 2024 e devem prosseguir por mais alguns meses.
Todos os detidos pertencem ao grupo ultranacionalista 1143 -o número remete ao ano de fundação de Portugal. Seu líder, Mário Machado, o neonazista mais notório do país, está detido numa prisão de Lisboa desde maio de 2025, por incitamento ao ódio e à violência contra mulheres de esquerda. Ele ainda comande o 1143 de dentro da prisão -o que pode agravar sua pena de 2 anos e 10 meses.
“Continua a existir comunicação e passagem de informação de dentro para fora”, disse Patrícia Silveira, diretora da Unidade de Contraterrorismo.
“As autoridades vão ter que investigar se isso acontece mesmo e, em caso positivo, como as mensagens saíram da prisão, se foram, por exemplo, recados enviados através de visitas”, diz o advogado brasileiro Leonildo Camillo de Souza Júnior.
Morador de Guimarães, ele representa uma jornalista brasileira que foi vítima de ameaças por parte de Bruno Silva, outro integrante do grupo 1143, que está em prisão preventiva desde outubro do ano passado. “Há um forte componente de gênero, as vítimas são em geral mulheres”, diz Luís Neves, diretor-geral da Polícia Judiciária.
Silva, um brasileiro naturalizado português, ficou famoso quando postou nas redes sociais que oferecia um apartamento em Lisboa para quem lhe levasse as cabeças de cem brasileiros. Nas postagens ele definia a si próprio como “o português mais racista de Portugal”.
Em seu comunicado sobre a Operação Irmandade, a Polícia Judiciária portuguesa afirmou que os detidos “adotavam e difundiam a ideologia nazi, inerente à cultura nacional-socialista e à extrema direita radical e violenta, agindo por motivos racistas e xenófobos, com o objetivo de intimidar, perseguir e coagir minorias e etnias, designadamente imigrantes”. Durante as prisões foram apreendidas armas e material de propaganda.
A partir desta quarta (21) os detidos serão submetidos a interrogatório. “É possível que vários deles, como Bruno Silva, fiquem presos preventivamente”, diz Camillo Júnior. “Seus depoimentos são importantes para entender o funcionamento desses grupos e chegar a seus integrantes. Computadores e celulares apreendidos também são de grande valia”. A polícia quer desvendar, entre outras coisas, as conexões de grupos como o 1143 com redes extremistas internacionais.
As investigações sobre neonazismo em Portugal se intensificaram por pressão da União Europeia. Divulgado em junho passado, um relatório da Comissão Europeia contra o Racismo e a Intolerância (Ecri) registrou “um aumento acentuado do discurso de ódio [em Portugal], que visa, sobretudo, os migrantes, os ciganos, a comunidade LGBTQIA+ e as pessoas negras”. De acordo com o relatório, as queixas judiciais contra os crimes de ódio em Portugal quintuplicaram de 2019 para 2024.
Em suas redes sociais, o neonazista Bruno Silva se diz um apoiador do partido político Chega -cujo líder, André Ventura, é candidato à Presidência de Portugal. Em novembro passado, o vice-presidente da sigla, Pedro Frazão, enviou um vídeo para o congresso do grupo Reconquista, que defende o mesmo ideário do 1143 e também tem integrantes presos por crimes de ódio.
No vídeo de dois minutos, Frazão defendeu uma das causas caras aos extremistas portugueses, a “remigração” -deportação forçada de imigrantes mesmo que estejam com os documentos em dia. “É a única política capaz de restaurar a ordem, a segurança e a esperança no nosso país”, disse o deputado do Chega na gravação exibida no congresso.
O partido mantém uma relação dúbia com os grupos extremistas. André Ventura já criticou Mário Machado, líder do 1143. “Não tem o perfil que se enquadra no Chega. Tenho sido o travão [freio] a esse tipo de pessoas que fazem a apologia da violência. Pessoas que dizem que as mulheres de esquerda devem ser violadas nunca terão lugar no Chega”, disse em entrevista dada há cinco anos ao semanário Sol.
Em janeiro de 2025, no entanto, o líder do Chega fez uma alusão velada ao grupo de Mário Machado ao defender a tese da remigração. Ventura postou em suas redes sociais uma foto fantasiado de piloto da TAP, a companhia aérea portuguesa, ao lado de um cartão de embarque. “Este boarding pass certifica a sua participação no voo de regresso ao seu país de origem”, dizia a legenda. No cartão de embarque fictício lia-se o número do voo: TP 1143.
Fonte: Bahia Noticias / Foto: Norbert / Pixabay