Campos Neto fez algum tipo de Intervenção direta, mesmo que em parte do conglomerado Master? Jamais
Por Leandro Demori – Segunda, 26 de janeiro de 2026
Em 2024, na gestão de Roberto Campos Neto no Banco Central, o Banco Master de Daniel Vorcaro já patinava em crise de liquidez. O Master era incapaz de mostrar que tinha dinheiro suficiente em caixa pra honrar suas contas e relatórios internos do BC pipocavam alertas. Campos Neto fez algum tipo de Intervenção direta, mesmo que em parte do conglomerado Master? Jamais.
Campos Neto escolheu o caminho tortuoso: deixou rolar uma “solução particular” às custas do contribuinte e do dinheiro público para salvar uma operação que já se provava, pelos relatórios do BC comandado pelo próprio Campos Neto, um buraco sem fundo. Um documento que une todos esses registros foi esmiuçado na coluna de Lula Costa Pinto (leia). Ele foi enviado ao TCU e ao MPF com uma linha do tempo de todos os alertas e ações feitos pelo BC no caso Master.
Problema antigo
Em fins de 2023 a coisa começou a ficar feia pros lados do Master. Em meados de 2024, como revelam documentos internos do BC, o Master falhou em apresentar ao BC capacidade de captação de dinheiro junto ao mercado. A expectativa era que o banco de Daniel Vorcaro levantasse R$ 15 bilhões para mostrar alguma musculatura. Pelos relatórios, conseguiu apenas R$ 2 bilhões. Em novembro, o BC identificou que o Master já não mais conseguia pagar suas obrigações vencidas. Ou seja: o calote estava acontecendo ao vivo, diante de Campos Neto.
Um caso daquela época deveria ter acendido todos os alertas. Em abril de 2024, o Master emprestou R$ 459 milhões à Brain Realty Consultoria e Participações (uma empresa de capital irrisório), que aportou R$ 450 milhões no Fundo Brain Cash, da Reag, empresa envolvida na Operação Carbono Oculto sob suspeita de trabalhar com dinheiro do PCC. Em 20 dias, ela teve seu patrimônio multiplicado por 30 mil vezes (sim, trinta mil vezes) apenas fazendo troca de numeralha em papéis sem valor comprovado. Uma hora e meia depois da mágica contábil, recursos no Fundo D Mais (Reag) foram parar em outro lugar: FIDC High Tower – que reavaliou papéis tóxicos do extinto banco Besc para R$ 10,8 bi. Uma rentabilidade surreal de 10 milhões por cento. Ficção pura para simular liquidez e voltar ao Master via CDBs. Uma espécie de criação fictícia de clientes.
O banco de Vorcaro suplicava por uma intervenção ou liquidação, mas seguiu operando sob os olhos de Campos Neto.
A solução BRB
Enquanto o Master derretia, o Banco de Brasília (BRB), estatal do DF, injetava bilhões de reias nele, iniciando uma compra de carteiras de créditos opacos ou podres em julho de 2024 nas mesmas semanas em que o BC de Campos Neto registrara a incapacidade do Master de conseguir dinheiro no mercado. O buraco já era sem fundo. Mesmo assim, o banco comandado pelo governador Ibaneis Rocha seguia firme em seu propósito de jogar uma bóia de dinheiro público a Vorcaro.
Pouco tempo depois, Ibaneis defenderia publicamente não apenas a compra de produtos do Master, mas a compra de parte do próprio banco de Vorcaro. Uma “operação que tem muito pouco risco para o BRB”, afirmou Ibaneis em um evento em Dubai. Aos olhos da opinião pública, a movimentação pareceu apenas uma tentativa desesperada de evitar que a panela de pressão de Vorcaro explodisse na cara dos envolvidos.
A fala de Ibaneis andava na contramão dos balanços do banco. Enquanto era cortejado pelo BRB como um negócio de ouro, o Master navegava com a vela inflada por CDBs turbinados muito acima do mercado e uma exposição dezenas de vezes além do limite regulatório. Seu caixa estava vazio. No meio do caminho, o banco parou de depositar dinheiro no FGC, uma demanda legal. Na data de sua liquidação, aponta o relatório de Galípolo, o Master deveria ter depositados R$ 2,5 bilhões no FGC, mas mantinha apenas R$ 22,9 milhões – uma ninharia.

A faxina de Galípolo
Logo que assumiu o BC, Galípolo precisou fazer uma faxina emergencial no Master. Seguidos pedidos de informação sobre a capacidade de honrar seus pagamentos foram feitos pela instituição a Vorcaro. O que se vê no relatório é uma enrolação sem fim por parte do banqueiro. Entre tantos casos remanescentes da era Campos Neto, há o envolvimento com a Reag, que seria abatida pela operação Carbono Oculto.
Sem dinheiro, Vorcaro disse ao BC de Campos Neto, ainda em 2024, que a Reag seria uma espécie de fiadora do Master. Através de um fundo, o Gold Style, a Reag tentou convencer o BC que teria condições de aportar R$ 1 bilhão de reais por mês no Master, se necessário.
O Gold Style, nessa espécie de terceirização da liquidez do banco, seria uma espécie de “cliente” dos tais papeis do extinto Besc. Afinal, se aqueles papeis valiam algo (e não valiam), era preciso provar ao BC que alguém estava disposto a pagar por eles. Este alguém seria o Gold Style. Os informes obrigatórios do Gold Style revelaram, no entanto, outra gaveta vazia do esquema: a inexistência de ativos líquidos para suportar resgates alegados pela Reag. O fundo, em suma, não tinha o dinheiro que disse que tinha. Um castelo de cartas contábil. Mesmo assim, o Master seguiu operando.
O silêncio de Campos Neto
Campos saiu em dezembro de 2024 como ícone da autonomia, legando a Gabriel Galípolo o trabalho de descascar o pepino da maior fraude bancária da história do Brasil.
Fonte: ICL Noticias. / Foto: IA