Superfície

Ângela Monize Bahia Brasil colunistas

Fenômenos Poéticos (Por Angela Monize) – Sex, 13 de fevereiro de 2026

embaixo d’água, tudo chega antes do nome.

o peso, a pressão nos ouvidos, a distorção das formas.

Os contornos deixam de obedecer à lógica reta

e passam a flutuar como lembranças mal fixadas.

ali, eu ainda era mil coisas misturadas.

minha voz atravessava outra voz,

meu gesto aprendia o ritmo de um corpo que não era só meu.

durante muito tempo, isso pareceu inteiro.

não completo, inteiro. como uma superfície lisa

onde não se percebe a emenda.

a água sustentava apenas um movimento contínuo de permanência.

respirar não era necessário.

existir, sim.

em algum momento, o fundo começou a ceder.

o que parecia intensidade virou uma espécie de atraso.

alguma coisa ganhava textura.

as mãos tocavam algo espesso, sem forma,

algo me puxava para dentro

enquanto o resto do mundo seguia adiante.

eu me vi afundar em você…

percebi estar dentro da sua bolha.

uma camada invisível, de textura singular, onde não havia escapatória nem progresso. apenas um retrocesso que não identifiquei antes, algo tão sutil quanto mergulhar numa piscina rasa.

vi meu corpo afundar lentamente.

cada tentativa de movimento redesenhava a própria prisão.

ali, as ideias de quem eu era começaram a perder nitidez,

como se tivessem sido escritas em água turva.

não consegui identificar a falta.

não obtive respostas de mim para as perguntas e dúvidas que sempre tive…

o tempo deixou de avançar e então me acostumei à ideia de estar ali, submersa.

mas, em algum momento, algo começou a me puxar.

seria Deus? anjos? o próprio diabo?

não sei responder. só senti algo encarnar em meu braço, gritando alguma coisa que não pude escutar, silenciando aquela canção à qual me acostumei.

aquela voz, aquela pele…

rasguei-me na ruptura.

era o mínimo a se esperar de quem esteve tão acostumada a aceitar, a acatar, a se desdobrar por alguém…

quando acordei, havia uma correnteza diante de mim.

um rio atravessava meu corpo

sem pedir licença.

a pele, exposta, reconhecia o frio como um idioma antigo.

não havia marcas visíveis do que ficou para trás,

mas algo em mim ainda carregava o peso do fundo.

eu estava despida

da ausência de forma fixa.

nenhum nome parecia definitivo.

nenhuma memória se encaixava por completo.

o rio seguia.

e eu, atravessada por ele,

aprendia a existir sem a identidade que compartilhei,

sem a arquitetura que sustentei por tanto tempo

como se fosse minha.

restava o movimento.

e a estranha lucidez de quem entende

que, depois de dividir o próprio ser,

é preciso reaprender a habitá-lo

sem garantias.

Fonte e Foto: Ângela Monize

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