por Angela Monize – Sábado, 21 de fevereiro de 2026
o rio seguia seu fluxo.
ele me atravessava.
eu aprendi a não lutar contra a direção.
ficar ali exigia outra espécie de força.
eu não conseguia como também não queria nadar contra,
mas, suportar ser atravessada.
a água passava por mim como se lesse
o que ainda estava inscrito sob a pele.
aquele idioma antigo… nomes, gestos repetidos, memórias…
o modo como eu havia ajustado a própria respiração
para caber dentro de outra.
desaprender alguém não acontece de uma vez.
acontece nos detalhes. nas sílabas. na temperatura da pele sob a água. permanecer enquanto a corrente atravessa cada parte exposta.
no jeito como o corpo estranha
o silêncio que antes era preenchido.
na ausência de expectativa ao acordar.
na descoberta de que certas lembranças
já não provocam o mesmo desarranjo.
houve dias em que eu quase voltei.
não a ele.
mas à uma versão de mim que existia ali.
era confortável permanecer conhecida,
mesmo que essa familiaridade tivesse sido construída
sobre concessões imperceptíveis.
o rio não impedia.
também não salvava.
seguia.
e eu comecei a perceber algo discreto:
meus movimentos já não pediam autorização interna.
a mão não buscava outra mão para validar o gesto.
o pensamento não se organizava em função de um diálogo imaginário. aqueles diálogos imperceptíveis que eu tinha comigo mesmo. aqueles que me causavam um certo desconforto no pescoço e algumas dores de cabeça.
havia um espaço novo.
apenas meu.
a travessia deixou de acontecer fora.
instalou-se em mim.
algumas memórias se soltaram como folhas úmidas.
outras permaneceram aderidas,
como vestígio…
aos poucos, o corpo reaprendeu o próprio contorno.
um outro, ainda em formação,
mais sóbrio, menos dependente de um espelho.
desaprender alguém é reaprender a si
sem testemunha.
e continuar.