Na semana em que Jorge Amado, nascido em 10 de agosto de 1912, completaria 114 anos, a exposição gratuita “3 Obás de Xangô” permanece aberta ao público nesta quarta-feira (12/08/2026), na unidade Pelourinho da CAIXA Cultural Salvador, no Centro Histórico da capital baiana. Inspirada no documentário homônimo dirigido por Sérgio Machado, a mostra reúne obras, documentos e registros de mais de 45 artistas para examinar a amizade entre o escritor, Carybé e Dorival Caymmi, além da influência do Candomblé, das comunidades de axé e das lideranças femininas negras na formação da identidade cultural brasileira.
Exposição parte da amizade entre três referências da cultura baiana
A mostra toma como ponto de partida a relação construída entre Jorge Amado, Carybé e Dorival Caymmi, três nomes cuja produção artística se tornou profundamente associada à Bahia. Os homenageados receberam o título de Obás de Xangô no Ilê Axé Opô Afonjá, vínculo religioso e cultural que orienta a narrativa da exposição.
O projeto, entretanto, não se limita às trajetórias individuais do escritor, do artista plástico e do compositor. A proposta curatorial procura compreender como suas obras, relações e experiências estiveram conectadas a um ambiente intelectual, religioso e artístico formado por diferentes agentes sociais.
Sob essa perspectiva, a amizade entre os três homenageados funciona como eixo inicial para uma reflexão mais ampla sobre arte, religiosidade, memória e identidade cultural. A exposição procura demonstrar que a representação da Bahia difundida pela literatura, pela música, pelas artes visuais e pela fotografia resultou de uma construção coletiva, atravessada por tradições afro-brasileiras.
Curadoria destaca mães de santo e intelectualidade negra
A exposição tem curadoria de Tiago Sant’Ana, Mariana Vaz, Solange Bernabó e Gildeci Leite. Segundo os responsáveis pelo projeto, o objetivo é deslocar o foco de uma narrativa restrita aos três artistas para evidenciar a participação da intelectualidade negra, das comunidades religiosas e das lideranças femininas na preservação e na circulação dos saberes afro-brasileiros.
Nesse processo, as mães de santo recebem posição central. A curadoria destaca a atuação dessas lideranças na organização das comunidades de axé, na continuidade das tradições religiosas e na transmissão de conhecimentos entre diferentes gerações.
A abordagem também procura reconhecer a estrutura coletiva que possibilitou a constituição do chamado ministério de Xangô e a inserção dos três artistas homenageados nesse universo. Dessa maneira, a exposição diferencia o reconhecimento público alcançado por Jorge Amado, Carybé e Caymmi da contribuição histórica das lideranças negras que sustentaram os espaços religiosos, intelectuais e culturais relacionados às suas trajetórias.
Núcleos temáticos abordam matriarcado, Candomblé e identidade cultural
Organizada em núcleos temáticos, “3 Obás de Xangô” apresenta diferentes dimensões da presença afro-brasileira na cultura da Bahia. Um dos eixos examina o matriarcado nas religiões de matriz africana, ressaltando o papel exercido pelas mulheres na organização institucional, religiosa e comunitária dos terreiros.
Outro núcleo aborda os saberes produzidos e preservados nas comunidades de axé. A exposição trata esses espaços não apenas como locais de prática religiosa, mas também como ambientes de produção de conhecimento, conservação da memória e transmissão de referências culturais.
A simbologia de Xangô, a amizade entre os três homenageados e as transformações contemporâneas das expressões artísticas afro-brasileiras completam a estrutura temática. Obras, documentos e registros históricos articulam diferentes períodos e linguagens, permitindo ao público observar permanências, mudanças e novas interpretações do legado cultural relacionado aos três Obás.
Mais de 45 artistas integram a exposição
A mostra reúne trabalhos e registros de mais de 45 artistas ligados às artes visuais, à música, à literatura e à fotografia. A diversidade de linguagens procura ampliar a compreensão sobre as relações entre criação artística, religiosidade, ancestralidade e memória social.
Nas artes visuais, estão representados nomes como Ana Sant’Anna, Ani Ganzala, Ayrson Heráclito, Emanuel Araújo, Goya Lopes, Mario Cravo Neto, Mestre Didi, Rubem Valentim, Pierre Verger e Yedamaria. O conjunto reúne artistas de diferentes gerações e perspectivas, cujas produções dialogam com a cultura afro-brasileira e com a formação histórica da Bahia.
Na música, a exposição inclui Aguidavi do Jêje, BaianaSystem, Letieres Leite Quinteto, Margareth Menezes, Orquestra Afrosinfônica, Tiganá Santana e Olodum. A seleção evidencia a continuidade das matrizes africanas em diferentes formas de criação musical, desde manifestações tradicionais até experiências contemporâneas.
No campo da literatura, estão presentes trabalhos de Alex Simões, Ana Maria Gonçalves, Hugo Canuto, Itamar Vieira Jr., Maysa Miranda e Ordep Serra. A reunião desses autores amplia o debate sobre identidade, ancestralidade, memória, território e representação da população negra na produção literária brasileira.
Documentário de Sérgio Machado inspira abordagem da mostra
A exposição foi inspirada no documentário “3 Obás de Xangô”, dirigido por Sérgio Machado. A produção audiovisual aborda a amizade e a conexão cultural e religiosa entre Jorge Amado, Carybé e Dorival Caymmi.
Ao transportar esse eixo narrativo para o espaço expositivo, a mostra incorpora documentos, obras e registros produzidos por dezenas de artistas. A ampliação permite confrontar diferentes linguagens e examinar a formação do imaginário cultural baiano para além das biografias individuais.
O resultado é uma narrativa que utiliza os três Obás como referência, mas reconhece a participação de comunidades, intelectuais, artistas e lideranças religiosas na construção e na preservação das expressões afro-brasileiras.
Unidade Pelourinho amplia estrutura cultural da CAIXA em Salvador
A exposição integra a programação da unidade Pelourinho da CAIXA Cultural Salvador, localizada na Rua do Saldanha, nº 14, no Centro Histórico. O espaço amplia a área destinada a exposições, atividades educativas, ações formativas e eventos culturais na capital baiana.
O edifício possui 7.822,14 metros quadrados de área construída e ocupa um quarteirão do Centro Histórico. O imóvel também abrigou o Liceu de Artes e Ofícios da Bahia durante mais de 130 anos, circunstância que acrescenta dimensão histórica à nova utilização cultural do espaço.
A abertura da unidade não substitui a estrutura já existente na Rua Carlos Gomes. Com o funcionamento simultâneo dos dois endereços, a CAIXA Cultural passa a manter duas unidades em Salvador, ambas com programação regular.
Visitação gratuita segue até dezembro
A exposição pode ser visitada gratuitamente até 6 de dezembro de 2026. O funcionamento ocorre de terça-feira a domingo e nos feriados, das 9h às 18h.
Serviço
- Exposição: “3 Obás de Xangô”
- Local: CAIXA Cultural Salvador — Unidade Pelourinho
- Endereço: Rua do Saldanha, nº 14, Pelourinho, Salvador (BA)
- Período de visitação: de 06/08 a 06/12/2026
- Horário: terça-feira a domingo e feriados, das 9h às 18h
- Entrada: gratuita
Linha do tempo dos principais acontecimentos
- 10/08/1912 — Nascimento de Jorge Amado: o escritor nasceu na Bahia e se tornaria uma das referências centrais da literatura e da representação cultural do estado.
- Por mais de 130 anos — Funcionamento do Liceu de Artes e Ofícios da Bahia: o imóvel atualmente ocupado pela unidade Pelourinho da CAIXA Cultural abrigou a instituição, preservando uma relação histórica com a formação artística e cultural de Salvador.
- 06/08/2026 — Início da visitação: a exposição “3 Obás de Xangô” foi aberta ao público na unidade Pelourinho da CAIXA Cultural Salvador, com entrada gratuita.
- 10/08/2026 — 114 anos do nascimento de Jorge Amado: a permanência da mostra em cartaz durante a semana do aniversário reforçou a dimensão memorial da homenagem ao escritor.
- 06/12/2026 — Encerramento previsto: a exposição deverá permanecer aberta até essa data, com visitação gratuita de terça-feira a domingo e nos feriados.
A relevância de “3 Obás de Xangô” está na tentativa de reposicionar a memória cultural da Bahia como resultado de uma construção coletiva. Embora Jorge Amado, Carybé e Dorival Caymmi tenham alcançado reconhecimento nacional e internacional, a exposição procura demonstrar que suas trajetórias estiveram relacionadas a comunidades religiosas, intelectuais negros e lideranças femininas cuja contribuição nem sempre recebeu visibilidade equivalente.
A centralidade atribuída às mães de santo e aos saberes produzidos nas comunidades de axé amplia o debate sobre autoria, preservação da memória e reconhecimento institucional. A proposta curatorial não reduz os homenageados, mas contextualiza suas produções dentro de uma rede social e cultural mais abrangente, na qual o Candomblé desempenha papel histórico na formação do imaginário baiano.
Ao reunir mais de 45 artistas e ocupar um edifício vinculado à história do Liceu de Artes e Ofícios, a mostra associa memória, patrimônio e produção contemporânea. Sua relevância pública decorre tanto da gratuidade quanto da possibilidade de ampliar o acesso a diferentes interpretações sobre a cultura afro-brasileira.



Fonte: Jornal Grande Bahia