Lorena Scavone Giron
Por que o Brasil e o mercado de Venture Capital perdem bilhões ao ignorar o potencial produtivo e a inovação das mulheres
No cenário econômico de 2026, a igualdade de gênero deixou de ser apenas uma pauta de direitos humanos para se tornar uma estratégia macroeconômica de sobrevivência. Enquanto o Brasil busca novos motores para o crescimento, um exército de talentos femininos permanece subutilizado ou subfinanciado. O preço dessa lacuna? Bilhões de reais que deixam de circular na economia todos os anos.
O gigante adormecido
A matemática é direta: mais mulheres no mercado de trabalho e em cargos de decisão significam maior produtividade. Segundo o McKinsey Global Institute, a paridade econômica plena poderia injetar impressionantes US$ 28 trilhões ao PIB global. No Brasil, o ganho estimado seria de US$ 850 bilhões em uma década.
Estudos do McKinsey Global Institute estimam que a paridade econômica plena poderia adicionar 26% ao PIB global até 2025, o equivalente a somar uma nova economia do tamanho de EUA e China ao mapa mundial.
Para a economista Ana Carla Abrão, vice-presidente da B3 e especialista em produtividade, a barreira não é a capacidade, mas o acesso e o risco. “As mulheres muitas vezes são mais avessas ao risco porque acham que precisam estar 200% preparadas para o próximo passo. Existe um gap de acesso: muitas vezes não lhes são ofertados os mesmos produtos financeiros e oportunidades que aos homens. Se fechássemos esse gap, as receitas vinculadas a esses produtos poderiam triplicar”, afirma.
Já aeconomista Zeina Latif aponta que a baixa produtividade brasileira está ligada à má alocação de talentos. “Quando olhamos o PIB pelas horas trabalhadas, nossa produtividade está estagnada. Precisamos de um redesenho do mercado de trabalho que permita que a mulher, que já possui alto capital humano, ocupe postos onde possa gerar valor máximo para a economia”, destaca.
No Brasil, o primeiro Relatório de Transparência Salarial do governo federal mostra que mulheres ganham em média 19,4% menos que homens, diferença que sobe para 25,2% em cargos de liderança. Quando o recorte é de raça, o abismo é ainda maior: mulheres negras ocupam menos postos formais e recebem cerca de 49,7% menos do que mulheres brancas.
Onde o dinheiro não chega
Se na economia tradicional o desafio é a ascensão, no ecossistema de inovação o problema começa no capital. Dados do PitchBook e do relatório Female Founders Report (Distrito/Endeavor) revelam que apenas cerca de 2% de todo o capital de risco mundial é destinado a startups fundadas exclusivamente por mulheres.
Dani Junco, CEO da B2Mamy, aceleradora que já impactou milhares de empreendedoras, é enfática sobre a barreira cultural que impede esse investimento.
O dinheiro precisa mudar de mãos. Menos de 2% do venture capital vai para mulheres fundadoras. Observamos que as mulheres ainda são questionadas se são mães ou se pretendem ser, algo que não acontece com homens. Não há transformação sem poder e dinheiro ocupando cargos de alta liderança e na esfera pública”, pontua Dani Junco.
O paradoxo do retorno
Apesar de receberem menos, as startups fundadas por mulheres são frequentemente mais eficientes. Maria Rita Spina Bueno, fundadora do MIA (Mulheres Investidoras Anjo) e conselheira da Anjos do Brasil, observa que o “filtro” para mulheres é muito mais rígido.
“Existe uma barreira histórica e um tabu sobre o dinheiro para as mulheres. No ecossistema de startups, as mulheres que chegam a captar costumam ser extremamente resilientes e entregam resultados sólidos, muitas vezes com menos recursos. O mercado está perdendo ótimas oportunidades de negócio por viés de gênero”, analisa Maria Rita Spina Bueno.
O “gap” na prática
Mesmo em setores dominados por homens, como o agronegócio, as mulheres estão provando o valor da inovação. Mariana Vasconcelos, CEO da Agrosmart, enfrentou esse cenário ao levantar capital para uma das maiores agtechs da América Latina.
“Foi um trabalho de pioneiras. É importante ter modelos para nos espelharmos e dizer ‘não estou sozinha’. O gap de financiamento ainda é enorme, especialmente em setores técnicos, mas a mudança virá conforme tivermos mais mulheres em cargos de decisão nos fundos e no campo”, afirma Mariana.
O ESG como alavanca
Para o mercado financeiro em 2026, a agenda ESG (Environmental, Social, and Governance) deixou de ser discurso e virou métrica de performance. Investir em mulheres não é caridade corporativa, é gestão de risco e busca por alfa (retorno acima da média).
O recado das especialistas é claro: o Brasil não pode se dar ao luxo de deixar metade da sua inteligência fora da mesa de negociações. A igualdade de gênero é a reforma estrutural mais barata e eficaz que o país pode implementar para finalmente destravar o seu PIB.
A regulação também entrou em campo. Com a obrigatoriedade de relatórios de transparência salarial, empresas brasileiras passaram a expor, pela primeira vez, a diferença média de 19,4% na remuneração entre homens e mulheres, dado que entra no radar de investidores que usam métricas ESG para avaliar risco e governança.
Fonte: Money Report