Quem continua morrendo por HPV no Brasil

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Novo exame para detecção do vírus será incorporado no SUS. Vacina oferecida no sistema público previne sua disseminação. Ainda assim, há mais de 7 mil mortes por ano causadas por câncer de colo de útero – e mulheres negras são maioria. Como mudar esse cenário?

Por Marjorie Chaves

Em 2024, o Brasil registrou 7.388 mortes por câncer de colo do útero. O dado consta no Boletim Epidemiológico Volume 56, nº 15, publicado em outubro de 2025 pela Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente (SVSA) do Ministério da Saúde, com base nas informações do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM). Trata-se de uma doença amplamente prevenível, associada quase integralmente à infecção persistente por tipos oncogênicos do papilomavírus humano, o HPV. Ainda assim, permanece entre as principais causas de morte por câncer entre mulheres no país.

Entre 2010 e 2024, ocorreram 92.182 óbitos por câncer de colo do útero no Brasil. A magnitude desse número, por si só, já seria suficiente para mobilizar atenção pública. No entanto, o aspecto mais revelador está na distribuição dessas mortes. O Boletim evidencia desigualdades persistentes segundo raça/cor. No período analisado, a taxa padronizada de mortalidade na população negra, que inclui mulheres pretas e pardas, aumentou de 9,8 para 11,4 óbitos por 100 mil mulheres. Entre mulheres brancas, a tendência foi mais estável ou de leve redução. Isso significa que os avanços tecnológicos e as políticas de prevenção implementadas nas últimas décadas não produziram o mesmo impacto em todos os grupos populacionais.

O câncer de colo do útero é um dos poucos tipos de câncer cuja principal causa já é cientificamente conhecida. A infecção persistente por tipos de alto risco do HPV, especialmente os tipos 16 e 18, responde por cerca de 70% dos casos. Estima-se que 8 em cada 10 pessoas sexualmente ativas terão contato com o HPV ao longo da vida, sendo esta a infecção sexualmente transmissível (IST) mais comum no mundo. Na maioria das situações, o sistema imunológico elimina a infecção espontaneamente.

O problema surge quando o vírus persiste e desencadeia alterações celulares progressivas que podem evoluir para lesões precursoras e, após alguns anos, para câncer invasivo. Essa trajetória de desenvolvimento torna o câncer cervical um caso paradigmático de prevenção possível. Existem três níveis de intervenção eficazes. A prevenção primária ocorre por meio da vacinação contra o HPV. A prevenção secundária é realizada pelo rastreamento regular, capaz de identificar lesões antes que se tornem invasivas. A prevenção terciária envolve o tratamento adequado das lesões e dos casos diagnosticados, reduzindo complicações e mortalidade.

Estratégia da OMS

Em 2020, a Organização Mundial da Saúde (OMS) lançou a Estratégia Global para Acelerar a Eliminação do Câncer do Colo do Útero como Problema de Saúde Pública. O plano estabelece metas claras, conhecidas como 90-70-90. A proposta é vacinar 90% das meninas até os 15 anos, rastrear 70% das mulheres com teste de alta performance aos 35 e novamente aos 45 anos, e tratar 90% das lesões precursoras e dos casos diagnosticados. A OMS afirma que, se essas metas forem atingidas de forma sustentada, o câncer cervical poderá ser eliminado como problema de saúde pública ainda neste século.

O Brasil incorporou a vacina contra o HPV ao Programa Nacional de Imunizações (PNI) em 2014. Atualmente, o Sistema Único de Saúde (SUS) oferece a vacina em dose única para meninas e meninos de 9 a 14 anos, com estratégias de resgate para adolescentes que não foram vacinadas/os na idade recomendada. A ampliação para meninos contribui para reduzir a circulação do vírus e ampliar a proteção coletiva. A evidência científica acumulada demonstra alta eficácia na prevenção de lesões precursoras associadas aos principais tipos oncogênicos.

Apesar disso, as coberturas vacinais ainda não alcançam, de forma homogênea, o patamar de 90% recomendado internacionalmente. Existem diferenças regionais importantes e desafios relacionados à desinformação, à hesitação vacinal e a dificuldades logísticas nos territórios mais vulneráveis. As desigualdades sociais e raciais também atravessam esse cenário, pois populações com menor acesso à informação qualificada e aos serviços de saúde tendem a apresentar menor cobertura.

Para as mulheres que hoje concentram a maior parte das mortes, a vacinação não foi uma realidade na adolescência. Para esse grupo, a proteção depende fundamentalmente do rastreamento regular e do tratamento oportuno. Durante décadas, o Brasil utilizou o exame citopatológico, conhecido como Papanicolau, como principal estratégia de rastreamento. O exame permitiu avanços significativos, mas seu modelo oportunístico, baseado na procura espontânea, mostrou-se insuficiente para garantir cobertura regular e universal.

Novo teste e velho modelo

A transição para o teste molecular de DNA-HPV representa um avanço importante. O novo método detecta a presença do vírus de alto risco antes que alterações celulares sejam visíveis ao microscópio, sendo mais sensível que a citologia convencional. Essa maior sensibilidade permite identificar mulheres com risco aumentado e organizar melhor o seguimento, além de possibilitar intervalos maiores entre exames quando o resultado é negativo. O Ministério da Saúde prevê a implementação nacional progressiva até 2026; no entanto, a eficácia da nova tecnologia depende de uma mudança estrutural no modelo de gestão.

Essa incorporação tecnológica, por mais avançada que seja, será insuficiente se o Brasil não migrar do modelo oportunístico para um rastreamento organizado, baseado na busca ativa. Sem essa mudança, a inovação corre o risco de aprofundar as desigualdades já existentes, beneficiando prioritariamente quem possui planos de saúde ou recursos para acessar o setor privado, onde essas ferramentas chegam com maior facilidade. Dados oficiais indicam que a cobertura de rastreamento no país permanece abaixo da meta de 70%, e análises estratificadas por raça/cor revelam que mulheres negras realizam exames preventivos com menor regularidade, apresentando maior probabilidade de diagnóstico em estágios avançados. Esse cenário é central para compreender a mortalidade mais elevada.

As hipóteses explicativas para essa desigualdade são múltiplas e interligadas. Um dos eixos centrais envolve o acesso desigual à atenção primária. Unidades Básicas de Saúde (UBS) localizadas em territórios marcados por maior vulnerabilidade social, onde há maior concentração de população negra, frequentemente enfrentam carência de profissionais, alta rotatividade de equipes e dificuldades na organização do cuidado.

A continuidade do acompanhamento é prejudicada, o que compromete o seguimento de resultados alterados. Outro componente relevante refere-se às barreiras socioeconômicas. Muitas mulheres enfrentam dificuldades para comparecer às consultas por incompatibilidade de horários com jornadas de trabalho precarizadas, ausência de transporte adequado, custos indiretos e responsabilidades de cuidado com crianças ou familiares. O modelo de funcionamento dos serviços nem sempre considera essas realidades.

Racismo na saúde

Também se destaca o racismo institucional. Estudos no campo da saúde coletiva demonstram que pessoas negras, especialmente mulheres negras, vivenciam com maior frequência experiências de discriminação, comunicação inadequada e menor resolutividade nos atendimentos. Isso pode gerar desconfiança, menor adesão ao rastreamento e atrasos na busca por cuidado. O resultado é um percurso terapêutico mais longo e fragmentado. É importante reiterar que não há evidência de maior suscetibilidade biológica ao HPV entre mulheres negras. O que se observa é maior exposição a contextos de exclusão social e menor acesso às ferramentas de prevenção e tratamento. A diferença está no percurso de cuidado, não no vírus.

Em 4 de março celebra-se o Dia Mundial de Conscientização do HPV. É fundamental reconhecer que a eliminação do câncer de colo do útero não se limita a uma agenda biomédica. Trata-se de um compromisso com a equidade e com a justiça reprodutiva. Garantir que mulheres não morram de uma doença evitável é parte do direito à saúde e da garantia de dignidade.

Quando o câncer de colo do útero é confirmado por laudo anatomopatológico, a paciente deve ser encaminhada para serviços habilitados em oncologia no SUS, como as Unidades de Assistência de Alta Complexidade em Oncologia (UNACONs) e os Centros de Assistência de Alta Complexidade em Oncologia (CACONs). A legislação brasileira garante o início do primeiro tratamento em até 60 dias após o diagnóstico, nos termos da Lei nº12.732/2012, podendo esse prazo ser menor conforme a necessidade clínica.

O tipo de tratamento depende do estadiamento da doença e pode envolver cirurgia, radioterapia, quimioterapia ou a combinação dessas modalidades, especialmente nos casos localmente avançados, em que a radioterapia associada à quimioterapia é frequentemente indicada. Em tese, o desenho da rede assegura integralidade e continuidade do cuidado. Na prática, contudo, atrasos na regulação, na realização de exames de estadiamento e no acesso aos centros especializados podem ampliar desigualdades já existentes, afetando de forma desproporcional mulheres negras e moradoras de territórios periféricos.

Sem a garantia concreta dessa linha de cuidado, da atenção primária à alta complexidade, as metas internacionais de eliminação permanecem distantes da realidade vivida por muitas mulheres. A efetividade da prevenção não depende apenas da existência de tecnologia, mas da capacidade do SUS de assegurar fluxo contínuo, acesso universal e tratamento no tempo oportuno.

O Brasil possui capacidade técnica e base científica para eliminar o câncer cervical como problema de saúde pública. O desafio é transformar esse potencial em resultados justos. Se a nova etapa da prevenção, marcada pela ampliação da vacinação e pela adoção do teste molecular, não vier acompanhada de políticas deliberadas de redução das desigualdades raciais, o país poderá celebrar avanços médios enquanto mantém intactas as disparidades históricas.

Na nova era da prevenção, a pergunta que precisa orientar as políticas públicas não é apenas quantas vacinas foram aplicadas ou quantos testes foram realizados. A pergunta decisiva é quem está sendo protegida. A resposta revelará se a ciência disponível será convertida em justiça social concreta ou se continuará reproduzindo as hierarquias que marcam a história da saúde no Brasil.

Fonte: Outra Saúde / Créditos: Stat News




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