Exposição revisita a trajetória artística de Luiz Baravelli

cultura
Texto: Clara Hanek* / Arte: Livia Bortoletto**

Em cartaz no Centro MariAntonia da USP, mostra destaca a diversidade presente na obra do artista paulista


Entre suportes, estilos e técnicas, a produção artística do paulista Luiz Paulo Baravelli, de 84 anos, varia em todos os sentidos. A pluralidade que caracteriza o trabalho do artista pode ser observada a partir das cerca de 60 obras expostas na mostra Rever Baravelli, em cartaz até 26 de julho no Centro MariAntonia da USP, que oferece um panorama da sua carreira. “Essa diversidade reflete a recusa de Baravelli em se ater a uma linguagem única, reafirmando seu interesse em capturar a complexidade e a instabilidade da realidade visível”, como escreve a curadora da mostra, Maria Alice Milliet, no texto de apresentação da exposição, que é realizada pela Galeria Marcelo Guarnieri e reúne momentos da carreira de mais de meio século do artista.

As pinturas de Baravelli extrapolam o espaço do quadro convencional. Esse é o caso da série Caras, obras de grandes dimensões pintadas sobre pedaços de madeira e fixadas diretamente na parede, como A Estrangeira (2016) e Exatidão de Um Menino (2016). A produção mais recente de Baravelli é caracterizada pela presença das “pinturas-gato”, telas de pequena dimensão. O nome nasce do paralelo feito pelo artista com as suas “pinturas-cachorro”, que são telas grandes e que dão a impressão de “saltar sobre nós e de certa forma nos agredir, enquanto as ‘pinturas-gato’ são sutis e sedutoras, abrindo-se aos poucos para o observador”, como escreve Milliet. Há um conjunto de 16 pinturas-gato na mostra, produzidas entre 2025 e 2026, com técnica mista.

Baravelli tem obras compostas de madeira, vidro, metal e outros suportes, com uma preparação dos materiais que inclui serrar, colar, recortar e preparar as bases para pintura. De acordo com Milliet,  a prática do artista se dá na interseção entre arte e artesania. “Ele opera dentro dos conceitos de ready-made e da collage, ou seja, da apropriação e combinação de imagens. Na produção de suas obras, trabalha como artista/artesão, literalmente, pondo mãos à obra.”

No centro do saguão de entrada do Centro MariAntonia estão expostas peças do conjunto intitulado Krazy Kat. Produzidas na década de 1970, as estruturas se assemelham a pequenos postes com terminações “abstratas”, de formatos não identificados. Nesse conjunto, foram utilizados materiais industriais como espuma de poliuretano, cerâmica, bronze, veludo e ferro, além da madeira pintada. Outra obra composta com esses materiais é a dupla Grécia 1 e 2 (1972-2019), de madeira natural e metal cromado. Passagem (1981), também na mostra, é mais um exemplo do uso diverso de materiais.

Há na exposição pinturas que extravasam as molduras, como Lados do Ibirapuera (1971) e obras que brincam com a perspectiva, como Casa do Renato (1975), acrílica sobre tela, e Caminho Azul (1985), pintura sobre madeira. Com diferentes modos de representar um universo plural, a heterogeneidade de sua arte não é uma preocupação. Para a curadora, o artista enxerga suas obras como “representações radicais da realidade visível”. Os ambientes de Baravelli são construídos de múltiplas maneiras. Ele recorre a recursos de arquitetura, como elevações, cortes, perspectivas e plantas, “associando-os a desenhos de observação, a imagens convencionais, mediáticas ou infantis, a fim de criar espaços ambíguos que podem ser vistos como paisagens”.

"Casa do Renato" (1975), à esquerda, e Sem título (1968), à direita  - Foto: Cecília Bastos/USP Imagens
“Casa do Renato” (1975), à esquerda, e Sem título (1968), à direita – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

O nu feminino

Um objeto de estudo frequente do artista é o nu feminino. Uma sala da exposição é dedicada exclusivamente a esse tipo de produção, que atravessa as décadas da sua carreira, desde os tempos em que frequentava o ateliê de Wesley Duke Lee (1931-2010) até hoje. “Para Baravelli, desenhar é um meio de conhecimento que requer examinar o objeto de perto e por longo tempo”, o que explica a construção dos nus, feita com base no “desenho de observação de modelo vivo”.

No geral, a sua produção segue procedimentos sistematizados, que se iniciam com longas sessões no ateliê. No caso dos nus, ele posiciona a modelo e a desenha por diferentes pontos de vista. Tais desenhos precedem a pintura e são arquivados em cadernos e pastas. A partir deles, com auxílio de um projetor, “ele obtém imagens ampliadas que são posteriormente pintadas sobre superfícies de várias dimensões”.

De acordo com Milliet, esse roteiro e os resultados previsíveis passaram a incomodar Baravelli em 1984, o que o levou a encarar dois desafios autoimpostos. O primeiro, não fazer desenhos prévios e sim pintar diretamente na tela. O segundo, utilizar a encáustica, técnica milenar caracterizada pela mistura de cera de abelha derretida com os pigmentos. 

O resultado dessa experimentação é um lote de 18 quadros intitulados Estudos Acadêmicos, dos quais seis estão expostos no Centro MariAntonia. A série é composta se nus frontais com a mulher de pé, no eixo central da tela, diferente de outros trabalhos do artista, em que as modelos aparecem sentadas ou reclinadas, com o corpo repousado. As características femininas — como seios, ventre e coxas — estão em destaque, enquanto os braços quase desaparecem. “Ao evidenciar os atributos da feminilidade, essa figuração não deixa de invocar as Vênus do paleolítico. O que, entretanto, garante a atualidade desses nus é a silhueta — são corpos jovens e delgados, em pleno acordo com a estética contemporânea.”

A técnica utilizada cria o desafio de pintar de forma rápida, antes que a cera esfrie e se solidifique. É uma quebra com o processo a que o artista estava acostumado, que contava com a longa observação e a projeção de desenhos antes da pintura na tela. Essa série de estudos é singular em sua obra.

Mulher Chorando em Uma Herma (1988) – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Também está na mostra a obra Mulher Chorando em Uma Herma (1988), encáustica sobre madeira, poliuretano e duraplac, que pertence à série Hermas, composta de montagens que remetem à cultura da Grécia antiga, especificamente aos monumentos dedicados ao deus Hermes. As peças são apoiadas diretamente no chão. O tema da série é a relação entre o masculino e o feminino, “com ênfase no caráter fálico e vertical do próprio monumento”.

O artista multifacetado

Baravelli formou-se arquiteto pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design (FAU) da USP, depois de ter estudado desenho e pintura na Fundação Armando Álvares Penteado (Faap), em São Paulo. Foi lá que teve aulas com Wesley Duke Lee, artista gráfico considerado pioneiro na introdução da linguagem pop na arte brasileira, cuja obra tornou-se referência para a produção inicial de Baravelli, na década de 1960.

Com José Resende, Carlos Fajardo e Frederico Nasser, Baravelli fundou, em 1970, a Escola Brasil, um “centro de experimentação artística dedicado a desenvolver a capacidade criativa do indivíduo”, de acordo com o catálogo da escola, que funcionou só até 1974, mas foi reconhecida como uma iniciativa inovadora. Também participou da fundação da revista Arte em São Paulo,  entre 1981 e 1983, periódico que se tornou referência, com artigos sobre artes plásticas e visuais.

Objetos (1968-2020) – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Ao longo das décadas, a produção de Baravelli foi caracterizada por sua diversidade e pela experimentação, de forma que ele não se restringe a uma única linguagem. O trabalho não é dividido por fases bem marcadas ou um percurso linear, já que os estilos e assuntos aparecem e são revisitados em diferentes épocas.

Luiz Paulo Baravelli nasceu em São Paulo, em 1942. Vive e produz na Granja Viana, em sua casa, que também é seu ateliê, em uma espécie de “isolamento voluntário”, que beneficia seu processo de criação. E continua misturando recortes de diferentes mídias com desenhos de observação. “Esse repertório — meticulosamente armazenado em cadernos, pastas e arquivos — permanece sempre à disposição, constituindo a matéria-prima de seu trabalho”, escreve Milliet.

Serviço

A exposição Rever Baravelli fica em cartaz até 26 de julho, de terça-feira a domingo, das 10 horas às 18 horas, no Centro MariAntonia da USP (Rua Maria Antonia, 258, Vila Buarque, região central de São Paulo, próximo às estações Higienópolis e Santa Cecília do metrô). Entrada grátis. Mais informações estão disponíveis no site do Centro MariAntonia.

* Estagiária sob supervisão de Roberto C. G. Castro

Fonte: Jornal da USP / Grécia 1 e 2 (1972-2019) – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens


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