Enquanto o Sundance Film Festival 2026 consagrava um novo nome do cinema autoral, a conquista de uma diretora com raízes brasileiras acabou passando praticamente ao largo da grande imprensa nacional. A cineasta Beth de Araújo, nascida em San Francisco, nos Estados Unidos, filha de pai brasileiro e mãe sino-americana, foi o grande destaque da edição ao vencer, com seu filme de estreia “Josephine”, os dois principais prêmios da mostra competitiva de drama americano: o Grande Prêmio do Júri e o Prêmio do Público.
O resultado foi anunciado no dia 30 de janeiro, em Park City, Utah, encerrando uma trajetória que já vinha chamando atenção desde a première do longa, no dia 23. A dobradinha é rara: o último filme a conquistar ambos os troféus havia sido “CODA – No Ritmo do Coração”, em 2021, que mais tarde venceria o Oscar de Melhor Filme.
Estrelado por Channing Tatum e Gemma Chan, “Josephine” parte de uma experiência pessoal da diretora. A trama acompanha uma jovem que testemunha um crime e reage de forma impulsiva na tentativa de retomar o controle da própria vida.
Criada em San Francisco, cidade onde também ambienta sua história, Beth constrói um filme que mistura memória e tensão psicológica, característica que foi destacada pela crítica. Amy Nicholson, da revista The New York Times, definiu a direção como “perspicaz e firme”.
Ao receber o principal prêmio do festival, Beth de Araújo fez um discurso contundente, conectando o tema do filme a questões estruturais da sociedade contemporânea. “A cultura do estupro está profundamente entrelaçada no tecido desta sociedade”, afirmou, ao associar o tema abordado na produção “aos mais altos escalões da atual administração norte-americana”.
Em um dos momentos mais emocionantes da cerimônia, visivelmente comovida, a diretora continuou: “Quando toleramos estupradores, vemos onde isso nos leva. Quando esses homens não são responsabilizados, a convicção de que podem fazer qualquer coisa sem consequências se espalha. Eu sei que vocês estão com medo. Eu também estou. Mas este é o momento de encontrarmos coragem, de nos unirmos, abraçarmos nossos vizinhos e pessoas queridas, porque somos mais fortes juntos. Somos milhões. Agora é a vez deles terem medo”, disse.
Com a vitória, Beth de Araújo se tornou apenas a 17ª mulher a conquistar o Grande Prêmio do Júri da competição dramática americana em Sundance, juntando-se a nomes como Karyn Kusama, Debra Granik, Sian Heder, Nikyatu Jusu, A.V. Rockwell e Hailey Gates.
Com estreia prevista ainda para 2026, “Josephine” já desponta como um dos títulos a se observar na próxima temporada de premiações. A campanha para o Oscar, inclusive, já começou nos bastidores.
Fonte: Alô alô Bahia