Feira de Santana entra na contagem regressiva para uma apresentação concebida como afirmação artística da cidade. No próximo 18 de abril de 2026, o Teatro do Centro de Convenções recebe o Festival Feira Canta Feira, espetáculo voltado à valorização da produção musical feirense e à ampliação da visibilidade de artistas que representam, em diferentes linguagens sonoras, a diversidade cultural do município. Com início previsto para as 20h, o evento terá ingressos gratuitos, disponibilizados por meio da plataforma Sympla.
A proposta do festival parte de uma ideia central: transformar o palco em espaço de reconhecimento da música produzida em Feira de Santana. Mais do que uma sucessão de apresentações, o projeto foi estruturado como uma celebração da memória, da criação autoral e do vínculo entre artistas e público. Em vez de recorrer apenas a repertórios consagrados da música nacional, o espetáculo busca colocar no centro da cena os nomes, as referências e as narrativas que nasceram ou se consolidaram na cidade.
Artistas de diferentes estilos compõem a programação
A programação reúne intérpretes e compositores com trajetórias distintas, o que reforça o caráter plural do festival. Entre os nomes confirmados está Dionorina, cantor, compositor, violonista e professor, identificado como um dos grandes expoentes do reggae na Bahia. Também integra o elenco Camila Pereira, reconhecida pela qualidade vocal em repertórios que transitam entre MPB, rock e música regional.
O festival contará ainda com a participação de Maryzélia, sambista de voz marcante e vinculada ao samba tradicional e ao samba do Recôncavo. Outro nome do espetáculo é Paula Sanffer, cantora, compositora e instrumentista feirense com trajetória consolidada na música baiana e com passagem pelo The Voice Brasil. Completa a grade Matheus Amorim, artista autoral com trabalhos voltados à MPB e presença destacada na cena local e estadual.
A composição do elenco indica uma escolha curatorial orientada menos por um gênero específico e mais pela representatividade artística de Feira de Santana. Reggae, samba, MPB, rock e música regional aparecem como expressões complementares de uma cidade cuja produção cultural não se limita a um único padrão estético.
Curadoria propõe repertório com identidade feirense
Um dos elementos mais consistentes do projeto está no formato pensado para as apresentações. Cada artista deverá interpretar quatro canções, organizadas a partir de um critério que combina criação individual, trajetória profissional, diálogo com a música brasileira e pertencimento local. Segundo a concepção divulgada, o repertório será composto por uma música autoral, uma música de trabalho, uma canção da música brasileira e uma composição feirense que ganhou projeção nacional.
Esse desenho confere unidade ao espetáculo e evita que o evento se reduza a uma vitrine dispersa. Há, nesse formato, um esforço evidente de costurar repertório, memória e identidade. A escolha de incluir uma composição feirense nacionalmente conhecida reforça a intenção de reposicionar a cidade não apenas como espaço de consumo cultural, mas como território produtor de obras com alcance mais amplo.
Também chama atenção o fato de o festival apostar numa experiência de escuta organizada em torno da identidade de cada artista. Em termos simbólicos, trata-se de uma decisão acertada: a valorização da cena local exige, antes de tudo, que os artistas sejam apresentados em sua singularidade, e não diluídos em programações genéricas.
Espetáculo homenageia Carlos Pitta e Jorge de Angélica
Além do foco na produção contemporânea, o Feira Canta Feira também prestará homenagem especial aos saudosos Carlos Pitta e Jorge de Angélica, dois nomes de grande relevância para a música baiana e para a história cultural de Feira de Santana.
A homenagem amplia o alcance do festival porque conecta presente e passado. Ao reconhecer artistas que marcaram gerações, o espetáculo se afasta da lógica efêmera que muitas vezes domina eventos culturais e assume uma função de preservação da memória musical. Em cidades com forte tradição artística, esse tipo de gesto é mais do que protocolar: ele ajuda a consolidar referências e a transmitir legado.
Ao incluir esses nomes no centro da proposta, o festival reafirma que a cena atual não nasce do nada. Ela é resultado de uma continuidade histórica, de influências acumuladas e de uma herança cultural que ainda molda o imaginário da cidade.
Feira de Santana busca consolidar posição como polo criativo
O festival surge em um contexto em que Feira de Santana vem sendo apresentada como um importante polo criativo do interior da Bahia, com histórico de formação de artistas e de movimentos culturais relevantes. Ainda assim, a consolidação dessa condição esbarra em um problema recorrente: muitos talentos locais enfrentam obstáculos para ampliar circulação, público e reconhecimento fora de seus círculos imediatos.
Nesse cenário, o Feira Canta Feira aparece como uma iniciativa concreta de fortalecimento da cena musical feirense. O evento cria uma ponte entre artistas e público, dá centralidade à produção local e oferece uma estrutura institucional capaz de ampliar a visibilidade desses nomes. Não se trata apenas de promover um show, mas de afirmar que a música produzida em Feira de Santana merece palco, curadoria e política de difusão.
Essa dimensão é particularmente relevante porque, historicamente, parte significativa da produção cultural do interior baiano enfrenta dificuldades para disputar espaço com circuitos concentrados nas capitais. Projetos como esse têm valor justamente por corrigirem, ainda que parcialmente, essa assimetria.
Concepção e direção reúnem comunicação, música e cenografia
A concepção do projeto é assinada pelo jornalista e produtor Caíque Marques, que também responde pela direção artística, em parceria com a jornalista Beatriz Ferreira. A direção musical está a cargo de Marcus Rossini, enquanto a cenografia é assinada por Matheus Guimarães, do Chão de Palha.
A equipe revela um esforço de construção estética e narrativa que vai além da organização operacional do evento. A presença de direção musical e cenográfica indica preocupação com a coerência do espetáculo como experiência completa, não apenas como reunião de performances isoladas. Em iniciativas culturais voltadas à identidade local, esse cuidado faz diferença: forma e conteúdo precisam caminhar juntos.
Realização, apoio institucional e retirada de ingressos
O festival é realizado por Júlio Sonorização, com produção da Urupi Comunicação e Cultura, patrocínio do Governo da Bahia e apoio do deputado estadual Angelo Almeida. Os ingressos são gratuitos e podem ser retirados pela plataforma Sympla.
A gratuidade amplia o alcance social do evento e tende a favorecer a presença de públicos diversos. Em ações culturais desse tipo, a democratização do acesso não é detalhe secundário; é parte do próprio sentido do projeto. Quando a proposta é celebrar a identidade musical da cidade, a participação do público local precisa deixar de ser barreira econômica para se tornar elemento central da experiência.
Festival aposta na memória afetiva e no protagonismo dos artistas locais
O Feira Canta Feira foi concebido como um encontro entre gerações, estilos e trajetórias. A iniciativa busca emocionar o público, resgatar memórias afetivas e reafirmar o protagonismo de artistas que ajudaram — e ainda ajudam — a construir a paisagem sonora de Feira de Santana.
Esse ponto merece destaque. Em muitas cidades brasileiras, a produção local costuma ser lembrada apenas em datas comemorativas ou em programações marginais. Quando um festival coloca a música da própria cidade como tema principal, ele rompe com essa lógica periférica e recoloca o artista local no lugar que deveria ser natural: o centro do palco.
Fonte: Jornal Grande Bahia