Entre protocolos de acolhimento, acompanhamento a longo prazo e necessidade de expansão intersetorial, professora da USP explica como o SUS age no combate à violência de gênero
No último episódio do programa de entrevistas do Outra Saúde em parceria com o Farol Brasil, a convidada Ana Flávia Pires Lucas d’Oliveira elaborou sobre o papel do SUS no combate à violência contra a mulher. Diante de crescentes casos de ataques a mulheres e, em suas últimas consequências, feminicídios, a professora aponta de que forma a identificação e acolhimento de vítimas por meio do sistema de saúde é diferente dos meios jurídicos e policiais, e pode salvar vidas.
Ana Flávia é docente da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e referência na área de saúde e violência de gênero, além de ser autora do Guia Prático Para o Atendimento a Mulheres em Situação de Violência, adotado pelo Ministério da Saúde.
Ela inicia sua explicação apontando a relevância da capilarização dos serviços de saúde, principalmente aqueles da atenção básica, para o acolhimento. Ressaltando a informação alarmante de que uma em cada três mulheres já passou por violência física ou sexual, a professora aponta: “Torna-se mais fácil ir a uma UBS do que a uma delegacia. A saúde já lida com as famílias, acompanha-se longitudinalmente. É um lugar especialmente propício para uma primeira revelação e acolhimento.”
Uma vez que se identifica uma situação de violência, há um protocolo a ser seguido entre os trabalhadores da saúde responsáveis pelo acolhimento em questão. Os principais passos ressaltados pela professora são: escutar sem julgamentos, entender como a vítima deseja prosseguir, validar o relato, e o encaminhamento para atender as necessidades dessa mulher. Para Ana Flávia, é essencial frisar que julgar o relato nesse momento configura violência institucional, de maneira a revitimizar a pessoa. Além disso, ela aponta aquilo que diferencia o acolhimento por meio do SUS de outros espaços institucionais: “Validar o que está sendo dito. Nós não somos a justiça. A gente escuta e acredita. Se tem que ouvir o outro lado, o contraditório, quem faz isso é a justiça. Nós não vamos investigar, não vamos punir agressores”.
Os impactos da violência na saúde pública também são abordados pela docente. Desde 2002 a OMS coloca mortes por violência como evitáveis, de maneira a considerar as consequências como preveníveis. Discorrendo sobre as consequências em questão, a professora aponta que mulheres em situação de violência doméstica crônica têm duas a três vezes mais chance de ter depressão e ideação suicida. Além de desfechos reprodutivos não esperados como morte fetal, abortamento, e até mesmo a contração de ISTs. “Um contingente importante dos problemas de saúde está associado à violência e à nossa cegueira para a desigualdade de gênero.”
Ana Flávia coloca, também, a dificuldade na articulação intersetorial entre saúde, assistência social e a justiça, fator importante para o acolhimento e assistência completa às vítimas. “A Lei Maria da Penha diz que deve haver uma rede de proteção e que todos os trabalhadores dessa rede devem ser formados em raça, gênero, direitos humanos e violência. Mas na prática, os trabalhadores da saúde não sabem o que é um CRAS ou uma Defensoria. Precisamos nos auto-reconhecer e reconhecer os outros”, termina.
Fonte: Outra Saúde