Vacina da dengue do Butantan: um sinal de alerta

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A suspensão da imunização foi um “acerto ético e sanitário” – e o risco relativo ainda é muito reduzido. Veja outros casos de interrupção de vacinas para investigação

Por Gabriel Brito

O anúncio do Ministério da Saúde na última segunda-feira (8) de suspensão da Butantan-DV, a vacina contra a dengue produzida pelo Instituto Butantan, pegou o país de surpresa e reavivou o temor do discurso negacionista que marcou a ação do governo Bolsonaro na pandemia de coronavírus.

Aplicado em 500 mil profissionais de saúde, o imunizante causou reações adversas em 3.700 pessoas, com 42 reações graves e dois óbitos (em março e abril), números suficientes para o ministro Alexandre Padilha anunciar a paralisação da vacinação para investigação dos casos. Não há outros casos sob suspeita.

“A estratégia de vacinação é de proteção – e agora agimos em função da proteção, o que explica a escolha de descontinuar temporariamente a campanha”, justificou em coletiva oficial.

Padilha esteve acompanhado da linha de frente das autoridades que possuem relação direta com as vacinas. Eder Gatti (diretor do Programa Nacional de Imunização), Ésper Kallas (diretor do Instituto Butantan) e Leandro Safatle (diretor-geral da Anvisa) também deram explicações a respeito da emergência.

As autoridades fizeram questão de reafirmar a eficácia da vacina e sua proteção para os quatro tipos de dengue em todos os imunizados. A recomendação é de que os vacinados fiquem atentos a sintomas similares aos do vírus transmitido pelo mosquito Aedes aegypti em até 21 dias.

De sua parte, a imprensa tradicional aderiu ao tom de defesa da imunização, em evidente movimento preventivo contra o negacionismo, cujo discurso já ecoou em redes digitais através de perfis suspeitos.

Especialistas ouvidos por meios de comunicação enfatizaram que a aprovação da Butantan DV seguiu todos os protocolos de ensaios clínicos. No entanto, a fase de distribuição em massa é a hora da verdade e eventos inesperados devem levar à sua suspensão.

Segundo o painel de arboviroses do Ministério da Saúde, são cerca de 369 mil casos de dengue e 177 óbitos em 2026. Ou seja, o risco relativo de eventos adversos em pacientes vacinados é muitíssimo menor, em comparação ao grupo de infectados desprotegidos. No entanto, o debate epidemiológico se depara com questões éticas e também políticas.

“O Ministério fez o certo do ponto de vista ético e sanitário. Mesmo que o risco relativo seja muito inferior entre vacinados, uma massificação do imunizante mudaria tal percepção. Mantida essa taxa de mortalidade num cenário de 50 milhões de vacinados, falaríamos de 200 mortes. E aí o debate sairia do lugar de uma doença que mata – ainda que relativamente mais – para uma vacina que mata”, analisou o médico e sanitarista Reinaldo Guimarães.

Tal como outros especialistas ouvidos pela mídia, Guimarães não crê que o discurso negacionista encontrará muito espaço, pois sua identificação com o bolsonarismo traz altos custos políticos.

“Politicamente, acredito que a situação é estável. A vacina é do Butantan, de um governo alinhado à direita. O PNI foi retomado e fortalecido nos últimos anos, o que significa adesão populacional. Não parece haver atores políticos dispostos a adotar o discurso negacionista”.

O Ministério da Saúde não forneceu previsão de fim das investigações de causalidade entre vacinas e óbitos por dengue. A investigação incluirá os 42 casos de reação severa, inclusive o processo de distribuição e armazenagem. 

Padilha afirmou que as vacinas devem seguir armazenadas nos estabelecimentos de Saúde. Já o Instituto Butantan publicou nota na qual garante a segurança do processo de produção, que possui 45 milhões de doses em estoque. A partir de agora, o ritmo da produção dependerá dos resultados da investigação dos casos de reações graves e óbitos.

Outros casos de vacinas suspensas

A suspensão da campanha de vacinação da Butantan-DV não é um caso isolado. A interrupção temporária em meio a eventos adversos é considerada o protocolo correto da farmacovigilância. Abaixo, listamos alguns casos de imunizantes que foram retirados de circulação. Alguns nunca mais voltaram a ser ofertados ao público.

AstraZeneca (Oxford), para covid-19 – Global, 2020: vacina de vetor adenoviral de chimpanzé teve seus ensaios clínicos globais pausados em setembro de 2020 após dois casos de mielite transversa (inflamação da medula espinhal) em voluntárias no Reino Unido. Investigações independentes concluíram que o primeiro caso foi devido a esclerose múltipla não diagnosticada previamente; o segundo caso não teve associação confirmada com a vacina. Os testes foram retomados em todos os países (Reino Unido, Brasil, África do Sul), e a vacina seguiu para aprovação e uso emergencial global.

Janssen (Johnson & Johnson), para covid-19  – EUA, 2021: vacina de vetor adenoviral foi pausa pelo CDC e FDA em abril de 2021 após relatos de trombose com trombocitopenia (TTS) em mulheres, incluindo trombose de seio venoso cerebral. A pausa durou 10 dias, e permitiu que profissionais de saúde fossem orientados sobre diagnóstico e tratamento do evento adverso raro. Voltou ao mercado com advertência sobre o risco.

Sarampo (inativada e da cepa Edmonton B) – EUA, anos 1960 e 70: versões com vírus inativado e atenuado foram retiradas de circulação por proteção de curto prazo ou geração de reações mais adversas em quem era infectado. Hoje, foi substituída por vacinas mais modernas.

Pandemrix (influenza H1N1) – Europa, 2009-2011: fabricada pela GSK para a prevenção da gripe H1N1. Foram registrados casos de narcolepsia em crianças e adolescentes. Voltou ao mercado com restrição do uso em menores de 20 anos. Foi descontinuada.

Dengvaxia (dengue) – França, 2007: fabricada pela Sanofi, sofreu restrições por recomendação da OMS. Continua no mercado para uso em pessoas que nunca tiveram contato anterior com o vírus da Dengue.

LYMErix (doença de Lyme) – Europa, 1998: fabricada pela GSK, houve a suspeita do aparecimento de artrite em pessoas que tomaram a vacina. A suspeita não se confirmou, mas a empresa decidiu retirar o produto do mercado.

Rotashield (rotavírus) – EUA, 1998-1999: fabricada pela Wyeth para proteção contra rotavírus, que causa gastroenterite. Retirada definitivamente do mercado por episódios de invaginação intestinal (quando uma parte do intestino desliza para dentro de outra) em crianças.

Ixchiq (chikungunya) – EUA, 2025-2026: fabricada pela Valneva, foi retirada do mercado por eventos adversos graves em determinados grupos populacionais. A investigação continua.

O site History of Vaccine apresenta uma lista de episódios adversos associados à imunização.

Fonte: Outra Saúde / Foto: © Frame EBC




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