“Saí da consulta indignado, convencido de que ser atendido em um serviço onde o paciente tem uma equipe responsável, que conhece sua doença, como preconiza a política de Atenção Básica do SUS, operacionalizada com tantas dificuldades faz toda a diferença”
Por Luiz Cecilio
Luiz Cecilio para a coluna Resiste SUS
Procurei o PS do plano de saúde depois de três dias com gripe forte – as lembranças das últimas experiências de atendimento no serviço retardaram a decisão de busca de socorro. Minha senha apareceu depois de 76 minutos de olhos cansados de seguir as mudanças no painel luminoso e dos irritantes sinais sonoros que impediam a concentração no livro que levei para passar o tempo. Um mar de cabelos brancos na espera. Tive a impressão de que todas as bengalas de Sampa estavam ali, eu era um igual entre iguais: não fui classificado como prioridade.
Finalmente, no consultório, a médica fez três perguntas que respondi entre ataques de tosse e chiados. Alergia a algum medicamento? Hipertensão? Diabetes? Com certeza já pensando na receita padrão pronta no computador. Não me perguntou mais nada, a velocidade dela não me deixou contar que eu tinha me vacinado, não havia espaço para escuta atrás da máscara.
No exame físico, pousou o estetoscópio em apenas dois pontos em um lado do peito por cima da malha de lã, algo como três segundos de ausculta a cada toque. Não se interessou pelo coração de um idoso hipertenso, mas isso não tive tempo de enfatizar a questão para ela. Gastou então, cerca de cinco minutos para anotações no prontuário e dar o comando para imprimir uma receita com uma lista de medicamentos. Sem saber que eu era médico, não deu explicação nenhuma sobre eles. Não solicitou raio X de tórax e nenhum exame laboratorial complementar (conduta que foi criticada pela segunda, terceira e quarta opiniões que pedi depois): um homem de 75 anos, com quadro pulmonar exuberante, vivendo com o HIV no clima agressivo do inverno paulistano merecia um cuidado mais atento.
Levantei-me, e fui embora sem agradecer. Decidi escutar do meu neto médico (uma segunda opinião) que discutiu com uma colega de plantão (terceira opinião), que simplesmente discordou do uso do antibiótico que eu já tinha até comprado. Pode ser uma pneumonia viral, justificou sua crítica à conduta adotada. Uma ex-colega de turma, infectologista (quarta opinião), sugeriu manter, sim, o antibiótico prescrito pela médica do PS, acrescentando um xarope para ajudar a expectoração e aguardar a evolução, opinião que finalmente acatei.
Saí da consulta indignado, convencido de que ser atendido em um serviço onde o paciente tem uma equipe responsável, que conhece sua doença, como preconiza a política de Atenção Básica do SUS, operacionalizada com tantas dificuldades — e que algumas operadoras de planos de saúde vêm muito timidamente adotando numa perspectiva racionalizadora — faz toda a diferença. Consultando o Chat GPT, a máquina fez as perguntas que eu achei que faltavam na consulta e teve mais tempo para conversar comigo…
Como sanitarista, não pude deixar de pensar nos velhos e velhas que enfrentam problema igual, que perambulam pelos serviços médicos e são atendidos por profissionais sem preparo técnico e a mínima empatia pelo doente. E pensei como ser atendido num serviço com equipe responsável, que conhece seu histórico de saúde, pode fazer toda a diferença na evolução da doença, podendo nos dar a chance de continuarmos vivos, com cotas maiores de autonomia e felicidade.
Fonte: Outra Saúde