A escola e o excesso do mundo

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Tem ganhado força a suposição de que os conflitos humanos seriam anomalias corrigíveis pela escola — expectativas que não lhe pertencem integralmente. Como se a vida social pudesse ser ajustada por uma instituição específica

No cotidiano das escolas contemporâneas, torna-se cada vez mais visível uma sobreposição de tensões que não se originam nelas, mas que ali se condensam. Agressões entre estudantes — incluindo bullying e conflitos identitários —, desgaste emocional crescente entre professores, conflitos com famílias, dificuldades de convivência e os efeitos da sociabilidade digital formam um conjunto heterogêneo, mas recorrente.

Não se trata de casos isolados, mas de manifestações de um mesmo campo de sobrecarga social. A escola passou a ocupar um lugar singular no imaginário contemporâneo: o da instância capaz de conter, corrigir ou reduzir as múltiplas violências da vida social. Espera-se que medie conflitos, enfrente desigualdades, acolha sofrimentos psíquicos e organize formas cada vez mais instáveis de convivência. Trata-se de uma atribuição que ultrapassa a capacidade de qualquer instituição.

Essa posição se apoia numa suposição recorrente: a de que os conflitos humanos seriam anomalias corrigíveis pela educação. Como se a vida social pudesse ser ajustada por uma instituição específica. O que se observa, porém, é outra dinâmica: tensões não esaparecem quando concentradas institucionalmente; deslocam-se, mudam de forma e retornam sob novas configurações. Em termos diretos, o que a escola enfrenta não é apenas o conflito, mas sua necessária reorganização contínua.

Correção de mundo?

É nesse ponto que a noção de cultura precisa ser explicitada. Cultura não é ornamento nem suplemento formativo. Em sentido rigoroso, designa o conjunto de recursos culturais — instituições, linguagens, narrativas e formas de interpretação — que tornam possível a convivência, apesar da permanência das divergências.

Esses recursos operam em dois registros: o das normas — leis, regras e instituições — e o das formas simbólicas — linguagem, arte, literatura, história e filosofia. Um organiza a vida coletiva; o outro permite compreender, interpretar e elaborar aquilo que excede qualquer organização.

De forma simples, leis regulam o convívio; cultura ajuda a elaborar aquilo que a regulação, sozinha, não consegue resolver. Quando essa função é deslocada, a escola passa a ser tratada como instância de correção do mundo — uma infraestrutura improvisada de contenção do social. Nesse movimento, recebe expectativas que não lhe pertencem integralmente: espera-se que resolva violências que surgem fora dela, mas que ali se tornam intensas e visíveis.

Fonte: Revista Educação /Espera-se que a escola medie conflitos, enfrente desigualdades, acolha sofrimentos psíquicos e organize formas cada vez mais instáveis de convivência (Foto: Shutterstock)

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