Por que formar profissionais do SUS em territórios do campo

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Em dois anos, saltaram de duas para vinte as residências multiprofissionais com ênfase na saúde de populações como quilombolas e ribeirinhos. É uma vitória. Agora, é preciso posicionar esses trabalhadores para que façam a diferença no sistema de saúde

Por Alexsandro de Melo Laurindo


Será que é realmente possível formar profissionais comprometidos ética e politicamente com a saúde dos povos que sustentam este país? Povos quilombolas, camponeses, indígenas, ribeirinhos, assentados e tantos outros têm gritado ao nosso Sistema Único de Saúde (SUS) que ele ainda é urbanocentrado e se sustenta em bases técnicas, cosmovisões e epistemologias predominantemente eurocêntricas. Assim como acontece no cuidado em saúde, a formação dos profissionais também segue, em grande medida, uma lógica europeia e urbana para um país predominante rural. 

“Atende, encaminha, dá alta; volta porque a gente não tem dinheiro para o transporte e são 20 km até chegar à Unidade Básica de Saúde; perdi o atendimento porque a maré estava muito baixa para atravessar o rio; nesse território só tem casos de violência contra a mulher e uso abusivo de álcool; não dá para trabalhar aqui. Como a gente faz visita domiciliar em um raio de mais de 70 km com apenas um transporte para duas equipes de saúde? Os pontos de apoio não têm energia nem água; como garantir um cuidado digno e humanizado desse jeito?”. Estes são depoimentos de usuários e trabalhadores do SUS que vivem nesta realidade, coletados pelo artigo Saúde da família rural: reflexões sobre o fazer-saúde no Núcleo Ampliado de apoio à saúde da família.

Mas há potência também: a gente é especialista em gente, em pisar no chão e compreender todos os desafios produzidos pela ausência do Estado por aqui. A gente transforma “a conversa” entre trabalhadores e usuários em cuidado e salva vidas coletivamente. A gente constrói laços e pertencimento com o povo. A gente dá um jeito, a gente vai, a gente faz o SUS acontecer para esse povo. Na raça e na tora, chama a Secretaria de Saúde, a associação de moradores, a escola. Precisamos pensar em um novo modelo de SUS para essas realidades. A gente vai fazer o SUS acontecer. Hoje, mais do que nunca, é necessário refundar nossas bases pedagógicas e formar profissionais de saúde a partir dessas realidades. É preciso pisar no chão de barro, no rio e na lama do mangue. Conectar-se com as múltiplas territorialidades que ali existem e tornar-se especialista em gente. 

A partir da retomada de um governo popular e democrático, esses mesmos especialistas que pisaram no chão começam a incidir sobre as políticas públicas federais de saúde. Surgem, a partir de processos de indução, diversas experiências de programas de Residência em Saúde da Família, Saúde Coletiva e Medicina de Família e Comunidade (MFC), com ênfases nas populações do campo, da floresta e das águas e em outras equidades, em todas as regiões do país. 

Até 2023, eram apenas dois programas no Brasil. Entre 2024 e 2026, esse número cresceu para mais de 20 programas multiprofissionais com ênfase na saúde das populações do campo, das florestas e das águas, somados ao ano adicional (R3) de MFC com a mesma ênfase. Inauguram-se, nesse mesmo bojo, novos programas voltados à saúde indígena, à saúde da população negra, quilombola e de outras populações tradicionais. 

Mas expandir é realmente responder a tais necessidades? O ineditismo dessas experiências, a potência de suas propostas político-pedagógicas, as relações construídas junto aos movimentos sociais e os desafios para sua consolidação e sustentabilidade constituem engrenagens complexas que também precisam de manutenção. 

É chegada a hora de fortalecermos esses programas por meio da criação de redes colaborativas e interinstitucionais, de apostas pedagógicas construídas junto aos movimentos sociais populares, de articulações políticas e de compromisso ético com o movimento construído até aqui. Outros debates e reflexões também se colocam: qual é o perfil profissional que estamos construindo? Como se dará a absorção desses egressos no mundo do trabalho? Como qualificar preceptores e o corpo docente das Instituições de Ensino Superior (IES)? E, sobretudo, como garantir financiamento suficiente para assegurar condições de logística, sustentabilidade e valorização pedagógica dessas experiências? 

Sem pretensão de encerrar conclusões, mas em busca de pistas, é necessário reconhecermos a potência desse processo e, ao mesmo tempo, compreendê-lo como um fato político-histórico no movimento de expansão e conformação de modelos formativos capazes de responder às necessidades das múltiplas diversidades pedagógicas, territoriais, culturais e sociais que atravessam o cuidado com os povos do campo, da floresta e das águas e com outras populações e grupos historicamente invisibilizados. 

Talvez seja justamente aí que esteja uma das possibilidades de mudar o futuro da saúde brasileira: formar não apenas profissionais para chegar aos territórios, mas profissionais que aprendam com os territórios, com seus povos, seus modos de vida, seus saberes e suas formas de produzir cuidado. Porque há lugares em que o SUS não pode simplesmente chegar pronto. Ele precisa ser construído junto. No barro, no rio, na floresta, no quilombo, na comunidade. Com os pés no chão e com gente que saiba, antes de tudo, ser especialista em gente.

REFERÊNCIAS

LIMA, D. F.; LAURINDO, A. M.; SILVA, J. M. Saúde, trabalho e subjetividade na atenção básica em saúde. Capítulo II – Saúde da família rural: reflexões sobre o fazer-saúde no Núcleo Ampliado de apoio à saúde da família – Recife: Pró-Reitoria de Extensão e Cultura da UFPE; Editora UFPE, 2023. ISBN 978-65-5962-254-2 (online). 

BRASIL. Ministério da Saúde. Oficinas fomentam ampliação de residências em saúde em áreas estratégicas. Brasília: Ministério da Saúde, 27 maio 2024. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias/2024/maio/oficinas-fomentam-ampliacao-de -residencias-em-saude-em-areas-estrategicas. 

ARRUDA, Guilherme. Como o MST impulsiona a Saúde da Família do Campo. Outra Saúde (blog), Outras Palavras. Publicado em 5 fev. 2024. Atualizado em 22 fev. 2024. Disponível em: 

https://outraspalavras.net/outrasaude/como-o-mst-impulsiona-a-saude-da-familia-do-campo/. Acesso em: 23 ago. 2025. 

SBMFC. Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade. Residências em MFC poderão submeter à CNRM projetos de R3 em 5 novas áreas, 3 jul. 2024. Disponível em: https://www.sbmfc.org.br/noticias/residencias-em-mfc-poderao-submeter-a-cnrm-projetos-de -r3-em-5-novas-areas/ 

BRASIL DE FATO. Conferência inédita debate rumos para a saúde de trabalhadores do campo, floresta e águas. São Paulo, 21 ago. 2024. Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/2024/08/21/conferencia-inedita-debate-rumos-para-a-saude de-trabalhadores-do-campo-floresta-e-aguas/

Fonte: Outra Saúde / Foto: Eder Braz



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