Kátia Letícia levou para a ficção histórias e referências de crianças do Quilombo de Barra
A escritora, atriz e dramaturga baiana Kátia Letícia contou, durante entrevista ao .ba, como uma experiência de contação de histórias com crianças quilombolas deu origem ao livro infantil Kalê – A Princesa dos Pés Descalços, que será lançado oficialmente no dia 11 de outubro.
A obra nasceu após uma atividade realizada por Kátia, em 2023, no Quilombo de Barra, em Rio de Contas, na Chapada Diamantina. Segundo a autora, a experiência foi tão marcante que, dois dias depois de voltar para casa, ela começou a transformar aquela vivência em uma história infantil.
“Foi tão encantador, foi tão profundo o que eu vivi lá que, dois dias depois, quando eu voltei pra casa, comecei a escrever como uma história infantil, mesmo como uma ficção, mas trazendo elementos dessa realidade”, contou.
Crianças participaram da construção da história de Kalê
Kalê já acompanhava Kátia em atividades de contação de histórias em escolas públicas e comunitárias. A proposta, segundo ela, sempre foi deixar as crianças participarem ativamente da construção da narrativa.
“A história vai acontecendo à medida que eu vou trazendo alguns elementos, as crianças vão interagindo com esses elementos e a história acontece”, explicou.
Foi justamente esse processo que ganhou uma nova dimensão no Quilombo de Barra. Kátia disse que as vivências, brincadeiras, relações afetivas e referências culturais das crianças passaram a integrar o livro.
“Kalê, a princesa dos pés descalços, é um convite para que as crianças voltem a pisar no chão, voltem a pisar na terra, a ser criança, a se conectar com a natureza”, afirmou.
A escritora também resumiu a obra como uma espécie de devolução afetiva à comunidade.
“O livro A Princesa dos Pés Descalços é um presente que essas crianças deram para mim e agora eu vou lá devolver para elas”, disse.

Gabriela inspirou personagem da obra
Durante a entrevista, Kátia também contou a história de Gabriela, uma criança não verbal que participou da atividade realizada na escola do quilombo e acabou inspirando uma personagem do livro.
Segundo a autora, Gabriela acompanhou toda a contação utilizando o corpo como forma de expressão. Em determinado momento, ao interagir com um ramalhete de ervas da própria comunidade, a menina chamou a atenção da escritora.
“Foi um momento tão lindo, quando alguém conversa sem palavras, por um gesto, talvez por uma memória que ela tenha do que ela vive”, relembrou.
Gabriela aparece na obra com o próprio nome, embora sua imagem não tenha sido utilizada.
‘As crianças podem sonhar’
Um dos momentos mais emocionantes da entrevista aconteceu quando Kátia foi questionada sobre o que Kalê diria às crianças do Quilombo de Barra.
A autora se emocionou e relacionou a personagem à própria infância. “Eu acho que Kalê quer dizer para as crianças que elas podem sonhar, principalmente”, afirmou.
Kátia também disse reconhecer, nas crianças que vivem em contextos comunitários marcados por desigualdades, partes da própria trajetória. “A criança que eu fui, talvez tão desacreditada, num contexto de ter sido tão violentada de diversas formas, ficou me sustentando”, contou.
Por meio da personagem, a autora disse querer transmitir uma mensagem de possibilidade e futuro.
“Essa Kátia adulta hoje, através de Kalê, quer dizer para as crianças: vocês podem sonhar e vocês podem imaginar uma vida, um futuro para vocês”, finalizou.
Fonte: Bahia.ba / Foto: Divulgação