A misoginia como religião principal do Afeganistão

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Por Maria Clara Fernandes – Terça, 28 de julho de 2026

• o hoje do Afeganistão é mais antigo que o ontem

“There is a woman in Somalia […] This is how she’s dying / she’s dying to survive”

Esse trecho da música “Pearls”, interpretado pela cantora nigeriana Sade Adu, pode ser traduzido livremente como: “Há uma mulher na Somália, ela morre para sobreviver”. Sade canta sobre uma mulher na Somália durante a guerra civil, na qual a luta diária por migalhas de sobrevivência — agravada por um ambiente que hostiliza a existência feminina — fazia parte do cotidiano. Ao considerar essa obra sob o viés artístico — que aqui se torna uma denúncia social — nota-se que a intérprete poderia facilmente trocar a personagem somali por uma mulher afegã da atualidade. 

A trágica similitude entre os dois contextos exige um olhar mais preciso sobre a trajetória específica do Afeganistão, porque, por mais que a história não aconteça em linha reta, nota-se que elementos semelhantes repetem-se de acordo com a passagem do tempo — e um exemplo notório disso é a usurpação dos direitos femininos. 

Simone de Beauvoir uma vez disse que basta uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados — e isso se faz presente no Afeganistão desde a sua tomada pelo Talibã. A seguir, traço uma linha temporal dos direitos das mulheres afegãs — a concessão e a perda.

A Trajetória dos Direitos das Mulheres: Do básico a menos que o mínimo:

• Primeiras reformas (1919-1929): O movimento a favor dos direitos das mulheres começou no século 20. Durante o reinado do Rei Amanulá Khan e da Rainha Soraya Tarzi, o país passou por uma modernização progressiva, notada por implementações como: a abertura de escolas para meninas, a proibição de casamentos forçados e o aumento da idade mínima para o casamento e a abolição de regras rígidas de vestimenta para mulheres. É certo que a Rainha foi figura central do progresso educacional das mulheres afegãs nesse período, tendo incentivado de maneira ímpar a igualdade de oportunidades.

• Reação conservadora e novo ciclo de reformas (1929-1973): As reformas de Amanulá Khan geraram forte reação de tradicionalistas e conservadores, levando à sua deposição em 1929, dando início ao longo reinado de Muhammad Zahir Shah (1933-1973). Nesse prazo de tempo, escolas para meninas foram restabelecidas e uma nova universidade foi fundada, além do estabelecimento da Constituição de 1964, que concedeu às mulheres afegãs o direito de votar, o que fez persistir o desgosto dos conservadores. 

• Instabilidade e guerra (Décadas de 1970-1990): Como em toda a história da política, sabe-se que, após a garantia de direitos básicos e o progresso de governos igualitários, surge uma onda de conservadorismo extremo— e com ela, o regresso dessas garantias. Em 1973, o Rei Zahir Shah foi deposto por seu primo, Mohammad Daud, que prometeu acabar com as relações patriarcais opressivas, porém, em 1978, ocorreu a chamada Revolução de Saur, quando o atual presidente foi morto. Em 1979, a URSS invadiu o país para proteger o governo comunista que havia tomado o poder no golpe e evitar que o país caísse nas mãos de extremistas islâmicos aliados dos EUA. Os Estados Unidos, por sua vez, financiaram e armaram os mujahideens (guerrilheiros islâmicos) para expulsar os soviéticos. Isso ocorreu por meio da parceria dos EUA com o Paquistão e a Arábia Saudita. 

• Primeiro regime Talibã (1996-2001): Conhece-se, também, que em períodos de guerra, criam-se grupos totalitários, como o Talibã, um grupo fundamentalista que surgiu durante a guerra civil e tomou o poder em 1996. Este período foi marcado por uma repressão brutal aos direitos das mulheres: elas foram proibidas de estudar, trabalhar e sair de casa sem um acompanhante masculino — conhecido como ‘‘mahram’’ — sendo obrigadas a usar a burca.

• Intervenção americana e avanços (2001-2021): A invasão do Afeganistão pelos Estados Unidos, em outubro de 2001, foi uma resposta direta aos ataques terroristas de 11 de setembro. A motivação principal era desmantelar a rede terrorista Al-Qaeda, responsável pelos atentados, e punir o regime do Talibã que a abrigava após recusarem a entrega de Osama bin Laden. Durante as duas décadas seguintes, houve avanços significativos: meninas voltaram à escola, mulheres puderam trabalhar e a nova Constituição de 2004 garantiu direitos às mulheres.

• Retorno do Talibã (2021 – presente): Mas como nada bom dura para sempre, duas décadas depois, durante o governo de Joe Biden, as tropas americanas foram retiradas. Isso se deu por conta do Acordo de Doha assinado ainda durante o primeiro governo de Donald Trump, em 2020. Esse acordo propôs ao Talibã a retirada completa das tropas americanas e da Otan em 14 meses em troca de que não fosse oferecido abrigo para grupos terroristas como Al-Qaeda. Em 2021, Biden decidiu focar em ameaças atuais como a China e a Rússia, já que, para os Estados Unidos, o objetivo original era capturar Bin Laden e não ‘‘formar uma nação digna no Afeganistão’’, assim, com a morte do terrorista em 2011 e a Al-Qaeda enfraquecida, essa missão estava cumprida. 

A retirada, no entanto, foi marcada pelo caos e aconteceu muito mais rápido do que o esperado. O Talibã lançou uma ofensiva e, em questão de dias, tomou Cabul — capital do país. Isso aconteceu porque o exército afegão, que os EUA treinaram e equiparam por bilhões de dólares, entrou em colapso sem oferecer resistência significativa, quando muitos soldados simplesmente desistiram e as forças do Talibã — por serem profundamente conhecedoras do território — aproveitaram o vazio de poder deixado pela saída americana para tomá-lo.

 A partir desse contexto, chegamos aos dias de hoje. E quando se diz ‘‘hoje’’, pressupõe-se que se trate de um contexto de modernidade, entretanto, o hoje do Afeganistão é mais antigo que o ontem, porque em uma nação guiada pelo conservadorismo não há progresso. 

• A religião como munição da arma masculina: O Talibã justifica a opressão contra as mulheres com base em uma interpretação extremamente rígida da lei islâmica (Sharia). Além disso, afirma que todas as suas leis e restrições são para “promover a virtude e eliminar o vício”, protegendo a sociedade e garantindo os direitos das mulheres “dentro dos limites do Islã”, contudo, o que não se fala é que esses limites são minúsculos. Em oposição a isso, o alcorão diz que homens e mulheres são seres iguais perante a religião, porém, o que se vê é completamente diferente do que afirma o livro. Isto é, é permitido desviar-se do que está escrito no documento que para eles é sagrado, contanto que a segregação feminina perdure.

As mulheres, nesse Estado governado pela opressão, são vistas como propriedade dos homens. Elas são controladas psicologicamente, fisicamente e sexualmente e a justificativa principal é a ideia de que as mulheres são ‘‘objetos de tentação’’ e que a presença delas em sociedade corromperá a moralidade —  extremamente frágil — dos homens.

Imagine ser sexualizada apenas por existir e pagar o preço pelo ‘‘pecado’’ individual? Essa é a realidade das mulheres afegãs, uma vez que o Talibã define as vestimentas, a voz, o corpo, o rosto e a vida feminina como inadequados. A verdade é que, por muito tempo, o ódio foi mantido como ideologia e, só agora, quando não restam mais direitos – além da vida – para usurpar, essa organização de Estado é questionada.

Além disso, elas são privadas de escolhas individuais, já que são obrigadas a manter relações sexuais com os maridos dentro do intervalo de quatro vezes por semana, são estupradas dentro do casamento e proibidas de estudar, muito menos trabalhar. À saúde também são negadas, porque, nos hospitais, mulheres morrem por não poderem ser atendidas pelo sexo oposto – o que continuará acontecendo, uma vez que mulheres não podem se tornar profissionais de saúde. 

Se não existe estudo, não existe saúde. Se não existe saúde, não há vida. A parcela feminina do Afeganistão está sendo criada para morrer. O resultado? Extremamente trágico, porque, assim como no Brasil, as mulheres afegãs um dia já foram livres, mas nenhum direito lhes foi garantido quando o que se perpetuou foi a aversão disfarçada de opinião – ou religião.

No mundo quadriculado em que as burcas permitem ver, as cidadãs afegãs são percebidas apenas como moedas de troca, alimentadas por ilusões. Porque, se em 1919, 1929 e 2001 foi apresentada a elas a liberdade, em 1996 foi criada a munição que dispara até os dias de hoje contra isso: o Talibã. E os responsáveis pelo início dessa guerra não se preocupam com as consequências, uma vez que o país não é a ‘‘ameaça atual’’. A Guerra Fria deixou como herança principal o clima quente mantido pelas armas de fogo e é claro que essa temperatura não se sente de onde cobre-se por escolha e não por obrigação.

Diante disso, é possível verificar que assistimos de maneira exclusiva à morte física das mulheres afegãs. A morte física, porque sua intelectualidade, sua fé, seus anseios e objetivos morreram assim que passaram a ser apenas objetos e não porta-vozes de suas próprias vidas. 

Há uma mulher no Afeganistão. E é por isso que ela morre. Ela morre para sobreviver — para que as lembranças da liberdade não a torturem ainda mais, ou para que a idealização da liberdade não nutra esperança onde só nasce a tirania.  No fim das contas, a pergunta que fica não é por que elas morrem, mas por que permite-se que elas continuem morrendo. 

– Maria Clara Fernandes

instagram e skoob: @legalmentemaaria

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