A reconstrução mamária é um direito garantido às mulheres que passam por mastectomia em decorrência do câncer de mama, mas o acesso ao procedimento ainda está distante de ser universal no Sistema Único de Saúde (SUS).
Dados do Datasus analisados em levantamento publicado em 2026 mostram que, entre 2014 e 2024, apenas 17% das mulheres submetidas à mastectomia por câncer de mama realizaram reconstrução mamária pelo SUS. Em outro levantamento, a Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM) estima que cerca de 80% das pacientes submetidas à mastectomia na rede pública não têm acesso à reconstrução.
O cenário ganha relevância neste Outubro Rosa porque, além do desafio de ampliar o acesso, o próprio SUS passou por uma atualização recente. A Portaria GM/MS nº 12.254 incluiu na tabela do sistema um procedimento de reconstrução mamária unilateral, com ou sem prótese, e estabeleceu um recurso anual estimado em R$ 37,1 milhões para procedimentos de cirurgia plástica reconstrutiva de mama. A norma também prevê impacto financeiro de R$ 21,6 milhões para 2026, considerando as competências de junho a dezembro.
Para a mastologista, especialista em Oncoplastia e consultora da DMC Group, Gláucia Cordeiro, a discussão precisa ser ampliada para além da realização da mastectomia e considerar também a vida da paciente depois do tratamento.
“O tratamento do câncer não termina quando o tumor é retirado. Para a grande maioria das mulheres que vai sobreviver à doença, também precisamos pensar em como reconstruir o corpo, recuperar a autoestima e permitir que ela siga sua vida depois do câncer.”
A reconstrução mamária é preferencialmente realizada no mesmo momento da mastectomia quando existem condições clínicas e técnicas para isso. Entretanto, nem todas as pacientes podem passar pelo procedimento imediatamente. Tratamentos complementares, como radioterapia, condições dos tecidos, características do tumor ou mesmo questões relacionadas à estrutura disponível no serviço de saúde podem fazer com que a reconstrução seja planejada para uma etapa posterior. Isso não significa, porém, que a paciente tenha perdido a possibilidade de reconstruir a mama.
Reconstrução tardia pode ser alternativa para quem terminou o tratamento sem a cirurgia
A legislação brasileira determina que, quando houver condições técnicas, a reconstrução seja realizada no mesmo tempo cirúrgico da mastectomia. Quando isso não for possível, a paciente deve ser acompanhada e ter garantida a realização da cirurgia assim que alcançar as condições clínicas necessárias.
Na prática, portanto, uma mulher que concluiu o tratamento oncológico sem reconstrução ainda pode ser avaliada para uma cirurgia tardia.
“O fato de a reconstrução não ter acontecido no momento da mastectomia não significa que essa possibilidade tenha sido perdida. A paciente pode ser avaliada posteriormente, levando em conta o tratamento que realizou, as condições dos tecidos e seu estado clínico”, explica Gláucia.
Nos casos em que houve radioterapia, por exemplo, o planejamento pode exigir um intervalo maior para que os tecidos se recuperem. A reconstrução pode ser considerada posteriormente, mas o momento adequado varia de acordo com cada paciente e deve ser definido pela equipe responsável pelo acompanhamento.
A cirurgia também não necessariamente se encerra em um único procedimento. Dependendo do caso, podem ser necessárias etapas complementares para melhorar contorno, simetria e reconstrução do complexo aréolo-mamilar.
Desigualdade de acesso aparece nos dados
Os números disponíveis mostram que o desafio brasileiro não está apenas relacionado à indicação médica, mas também à capacidade do sistema de oferecer o procedimento.
O levantamento da Folha baseado no Datasus identificou apenas 17% de reconstruções entre as mulheres submetidas à mastectomia por câncer de mama no SUS entre 2014 e 2024. A análise também apontou diferenças regionais e obstáculos relacionados à disponibilidade de próteses, profissionais especializados e estrutura hospitalar.
Já um estudo brasileiro apresentado no congresso da American Society of Clinical Oncology (ASCO) em 2026 analisou 267.781 reconstruções mamárias realizadas entre 2015 e 2022. Do total, 58,8% ocorreram na saúde suplementar, segundo os dados apresentados pela Gláucia em artigo publicado neste Outubro Rosa.
Os números não são diretamente comparáveis, um levantamento considera especificamente mulheres submetidas à mastectomia por câncer no SUS e o outro contabiliza reconstruções mamárias realizadas no país, mas, em conjunto, ajudam a evidenciar a diferença de acesso entre os sistemas.
A própria Sociedade Brasileira de Mastologia aponta que aproximadamente 75% das pacientes da rede suplementar conseguem realizar a reconstrução, enquanto o acesso no SUS permanece muito menor. Entre os obstáculos apontados pela entidade estão financiamento insuficiente, disponibilidade de próteses e capacidade operacional dos hospitais.
O que muda com a atualização do SUS
A atualização da tabela do SUS representa uma mudança relevante porque altera procedimentos e valores relacionados à cirurgia reconstrutiva. A Portaria nº 12.254/2026 estabelece recurso anual estimado de R$ 37,1 milhões e determina que as informações de produção sejam utilizadas para a transferência dos recursos aos fundos de saúde.
Para Gláucia, ampliar o financiamento é importante, mas o acesso depende de uma estrutura capaz de transformar o recurso previsto em atendimento efetivo.
“A reconstrução mamária depende de planejamento, equipe especializada, estrutura hospitalar e condições adequadas para cada paciente. O avanço não está apenas em garantir que o procedimento exista na tabela, mas em fazer com que ele esteja efetivamente disponível para quem precisa.”
O Ministério da Saúde já mantém uma estratégia específica para ampliar o acesso à reconstrução mamária pós-mastectomia no SUS, com habilitação de hospitais de alta complexidade em oncologia para a realização do procedimento.
Reconstruir depois do câncer também é parte da recuperação
Com o aumento da sobrevida das pacientes com câncer de mama, a discussão sobre o período posterior ao tratamento ganha importância. Em tumores iniciais, as chances de cura são altas, e a reconstrução passa a fazer parte de uma etapa mais ampla de reabilitação.
“A reconstrução mamária não deve ser encarada apenas como uma questão estética. Ela pode contribuir para a qualidade de vida e para a retomada da vida cotidiana”, afirma a especialista.
A discussão, portanto, não termina na retirada do tumor. Para muitas mulheres, a recuperação envolve também reconstruir o corpo, recuperar a autoestima e voltar às atividades pessoais e profissionais depois da doença.
Com Informações do Site Medicina SA