Premiação reconheceu obras ligadas à Bahia em conto, poesia e educação
A Bahia saiu da 68ª edição do Prêmio Jabuti com motivos para comemorar, já que entre os vencedores deste ano estão autores e projetos ligados ao estado que passaram por áreas distintas da literatura, do conto à poesia e à educação, mostrando uma produção que olha para o território baiano sem se limitar a ele.
Na categoria Conto, o escritor Abáz conquistou o primeiro lugar com Massaranduba, livro que transforma o bairro onde nasceu e viveu até 2019 em matéria literária. Já Manuel Alves de Sousa Junior, professor do Instituto Federal da Bahia (IFBA), venceu em Educação com Como conversar com crianças sobre racismo e diversidade. Em Escritor Estreante – Poesia, o prêmio ficou com História a que ninguém deu nome, de Juliana Cajives, autora radicada na Bahia e publicada pela baiana Mormaço Editorial.
Mais do que colocar diferentes nomes do estado entre os premiados, as obras ajudam a revelar caminhos distintos da produção contemporânea feita a partir da Bahia, com memória e território, experimentação de linguagem, educação e enfrentamento ao racismo.
Massaranduba vira matéria literária
Para Abáz, o Jabuti tem um significado ainda mais particular porque premia justamente uma obra construída a partir do seu lugar de origem. Massaranduba reúne 18 contos e nasceu das memórias do bairro de Salvador onde o escritor cresceu. Segundo o autor, Salvador não funciona apenas como cenário. A cidade atravessa a própria linguagem do livro.
“Eu tenho um mapa de Salvador aqui em casa. Quando estou no processo de escrita e travo, olho para esse mapa. É a nossa música, o barulho, o som, o sotaque, a gíria, tudo isso que constrói a experiência de estar em Salvador, de estar na Bahia”.

O Jabuti é o segundo grande reconhecimento de Massaranduba. A obra também venceu o Prêmio Sesc de Literatura, que abriu ao escritor um circuito por 26 cidades brasileiras. Para Abáz, os prêmios ampliam principalmente uma possibilidade básica para qualquer autor: ser lido.
“A Bahia tem uma tradição muito forte na literatura. O bonito é olhar para o lado e perceber que coisas estão sendo feitas hoje com muita qualidade, projeção, alcance e inventividade”, afirmou.
Poesia experimental e uma editora fora do eixo
A relação entre território e literatura aparece de outra maneira na trajetória de Juliana Cajives. Em História a que ninguém deu nome, a autora mistura poesia, teatro e ilustração para abordar temas como maternidade, aborto e violência obstétrica. Ela explica que essa estrutura híbrida está ligada à própria formação artística.
“Já passei pelo teatro, artes visuais, cinema e literatura. Essas linguagens moram em mim, assim como esses temas. Não vejo outra forma de falar sobre isso que não seja por uma investigação aberta, pela forma experimental.”
A autora também destacou a importância de vencer justamente em uma categoria dedicada a estreantes. Para ela, o prêmio deve funcionar mais como ponto de partida do que de chegada.
“Um prêmio não é um fim, mas o começo. Ganhar visibilidade é ter a oportunidade de ser lida, de encontrar pares e receber crítica. Ser percebida pela crítica é fundamental para aprimorar meu trabalho futuro”, declara.
A conquista também colocou em evidência a Mormaço Editorial, editora independente criada na Bahia e formada por uma equipe de três pessoas. Juliana passou a integrar o projeto depois da publicação do próprio livro e vê o Jabuti como uma oportunidade para ampliar a circulação de editoras fora dos centros tradicionais.
“A gente tem esse eixo Bahia-São Paulo, que é uma quebra dos eixos tradicionais. É muito importante que se valorizem as editoras independentes deste país”, afirmou.
Educação antirracista também é destaque no Prêmio Jabuti
Na categoria Educação, Manuel Alves de Sousa Junior levou o Jabuti por uma obra que propõe justamente começar o enfrentamento ao racismo ainda na infância. Para o autor, conversar com crianças sobre o tema exige antes um processo de formação dos próprios adultos.
“Ainda falta muito letramento racial. Por causa do racismo estrutural, nossa sociedade ainda é muito racista. As pessoas são educadas para o racismo e quebrar esse ciclo é fundamental.”
Manuel relaciona diretamente a obra à trajetória construída na Bahia. Formado em História em Salvador e professor do IFBA, ele afirma que a experiência no estado ampliou sua compreensão sobre racialidade e educação.

“Minha vivência na Bahia está completamente relacionada com o adulto que me tornei. Ser professor do IFBA me faz ter contato com diferentes realidades e me ensina todos os dias a ser uma pessoa melhor.”
Para o escritor, a vitória também dá visibilidade a uma discussão que precisa ultrapassar os livros. “Não adianta ter uma democracia consolidada se ainda temos o racismo atravessando nossa sociedade. Isso só se resolve com educação.”
Em diferentes categorias e com propostas bastante distintas, os vencedores ligados à Bahia chegam ao Jabuti colocando no centro questões que passam pelo território, pela linguagem e pelas disputas sociais do país. Mais do que uma presença regional na principal premiação literária brasileira, os resultados ajudam a pulverizar uma produção que parte da Bahia, mas encontra leitores muito além dela.
Fonte: Bahia.ba / Autores baianos no Prêmio Jabuti 2026: Abáz, Manuel Sousa Júnior e obra de Juliana Cajives. (Foto: Acervo Pessoal de cada autor)