Por Angela Monize – Terça,21 de abril de 2026
“me ame” – era o que ela dizia.
“amo você da cabeça aos pés, não vou desistir” – uma voz intensa ressaltava no fundo.
a persistência dessa ideia poderia até gerar a cura de um trauma.
quase parece que eu pronunciei exatamente essas palavras pra você. mas não tive saciedade de te contar sobre o meu amor. não ainda.
preciso sentir você até a última instância.
pelo menos uma vez por semana, nossas brincadeirinhas atiçam as risadas, o seu estresse e a minha felicidade genuína. quando você quer me tirar de cima de você é o momento em que mais eu quero subir.
me adentrar, ficar em cima, nas suas costas, me encaracolar, enlaçar todos os meus átomos em você.
enfiar minhas unhas em tua pele, amassar tua barba, demorar dentro da tua boca.
continuar e…
você sabe, eu não sei mentir sobre meus sentimentos. me envolvo em teu cheiro e deixo você me conduzir sempre para o que você quer.
o que desejar, é sempre você que escolhe, mesmo se for para dormir e eu velar o teu sono, ouvir tua respiração, inventar maneiras de continuar ouvindo teu coração bater em meu ouvido, bem pertinho, instintivamente…
ah, você…
um café recém-passado, com notas suaves de caramelo que se revelam aos poucos.
sabor, beleza e aroma.
sinto na forma como me olha,
como se cada detalhe meu fosse tudo aos seus olhos,
como se houvesse ali um cuidado natural,
inevitável.
uma transparência que não se esconde atrás de gesto algum.
tudo é dito, mesmo quando não há palavra.
tudo aparece, mesmo no silêncio.
me intriga a facilidade com que me alcança,
como se já soubesse o caminho,
como se já tivesse estado aqui antes.
quando se aproxima e o ambiente muda de temperatura.
eu mudo de temperatura.
o ar parece mais rarefeito, mais presente, respirável, exalando seu cheiro natural.
o instante ganha corpo.
suas mãos encontram as minhas.
suas mãos são brutas, indelicadas.
deslizam cuidadosamente pelos meus ombros, reconhece a pele.
um território geograficamente conhecido.
param ali por um segundo a mais, dizendo algo que ainda não se pode pronunciar.
sabe qual é a parte mais perigosa desse seu jeito de conquistar?
quando me toca o rosto.
me envolve.
os dedos desenham um contorno silencioso,
sobem devagar,
e, por um instante,
o mundo se reduz àquilo.
o toque.
a respiração próxima.
o tempo suspenso.
ele desce com esse mesmo cuidado, a mesma precisão, cada movimento intencionado, como se cada detalhe fosse escolhido milimetricamente e sentido inversamente ao mesmo tempo.
o seu amor se sustenta no olhar. o seu amor é agridoce. o seu amor é a forma mais bonita de perceber a vida e de vive-la também.
deixo que ele me alcance,
me percorra,
me leia.
afinal, ele merece isso.
como quem segura uma xícara entre as mãos
e sabe, antes mesmo de provar,
que aquilo vai marcar.
ele chegou como um sabor que eu não sabia nomear,
há nele a densidade de um café recém-passado,
na medida exata,
com notas suaves que se revelam devagar,
um caramelo quente,
um toque que permanece na língua.
como quem entende o peso exato do toque, no percurso lento que ele faz sem nunca se apressar em chegar.
o meu café esfria inexoravelmente, aproveito o aroma que ele traz, o toque quente que sinto queimar meus dedos e boca ligeiramente.
deixo que ele me alcance sem interromper o percurso.
há um tempo próprio nisso tudo, como o da água que atravessa os grãos de café moído, nem rápida demais a ponto de rasgar o sabor, nem lenta ao ponto de estagnar.
como quem sabe que tudo o que importa já está ali.
me percorrendo assim, em camadas.
os dedos sentem a borda da xícara,
a boca guarda o traço do primeiro gole, em pequenas camadas, ecos discretos, lembranças sensoriais…
primeiro, o impacto.
quente, direto, quase amargo, início este que acorda a boca
e exige atenção.
depois, o corpo.
denso, envolvente, preenche o paladar, se instala na língua, no céu da boca, cria algo que não se dispersa fácil.
depois, o fundo.
adocicado pelo caramelo aquecido no ponto certo, não muito doce, apenas um ponto diante do amargo sabor de café, um doce que vem da torra, da transformação, do que foi queimado o suficiente para ganhar a profundidade de sabor.
o gosto que permanece quando o gole já passou, o rastro insiste na memória que não se apaga.
exige pausa entre um gole e outro, não permite distração.
viciante. saboroso. encorpado.
porque cada gole de você me revela uma outra coisa. um detalhe mais seco, uma nota mais densa, uma variação mínima que só aparece pra quem consegue te ler.
a intensidade está na forma como segura o calor sem queimar, de manter o sabor sem pesar, sem repetições.
e é assim, também, que me envolve. aos poucos.
ocupando, aquecendo, aprofundando.
e mais uma vez, eu posso dizer: “um café com notas de caramelo, por favor.”
e te sentir cada vez mais perto, ansiosa pela tua volta, em qualquer momento desses meus derradeiros dias da semana.
Foto: Angela Monize