Estado lidera o refino da droga no país e integra rota controlada pelo PCC enquanto Ronaldo Caiado, do PSD, vende sua gestão como modelo de segurança pública.
Cecília Olliveira – Terça, 1 de setembro de 2026
“Um paciente foi atropelado por um ônibus. Quais são os pontos que você vai priorizar? Poxa, cara, eu nem examinei o doente. Calma”. Foi essa a resposta de Ronaldo Caiado quando César Tralli e Renata Vasconcellos, na sabatina do Jornal Nacional desta terça-feira, pediram detalhes sobre o que faria na Previdência.
Foi também a estratégia que ele repetiu ao longo de toda a entrevista: reclamou dos jornalistas dizendo que “não estamos aqui em uma mesa examinadora”, interrompeu, fugiu das perguntas objetivas e delegou os detalhes a “melhores cabeças do Brasil” que ainda não nomeou.
A ironia é que o candidato do PSD à Presidência da República se apresenta há meses como alguém que já examinou o doente e traz o remédio pronto. O nome do remédio é Goiás.
E Goiás é o estado que mais concentra laboratórios de cocaína no Brasil. São 81 estruturas identificadas entre janeiro de 2019 e julho de 2025, mais do que o dobro do segundo colocado, o Amazonas, com 39.
O dado é do relatório Floresta em Pó, publicado em outubro de 2025 pelo Instituto Fogo Cruzado em parceria com outras organizações. O estudo mapeou 550 laboratórios no país e mostra uma virada: o Brasil deixou de ser apenas rota de passagem da cocaína para se tornar um dos principais lugares onde a droga é refinada, movimentando cerca de US$ 6 bilhões por ano.
Goiás está no centro dessa nova geografia. O estado concentra 44 laboratórios de alta capacidade produtiva e integra a chamada Rota Caipira, sob domínio do PCC, que controla as fronteiras com o Paraguai e a Bolívia.
‘Modelo que deu certo’
Nada disso apareceu na sabatina. Nada disso aparece nas convenções em que Caiado repete que “Goiás é o modelo que deu certo”, que “Goiás, hoje, é o estado que tem a maior segurança pública do Brasil” e que “bandido não se cria em Goiás”.
O plano de governo registrado no Tribunal Superior Eleitoral, o TSE, ratifica a mesma narrativa em linguagem institucional: “a experiência de Goiás mostra que esse cenário pode ser modificado”. O que a experiência de Goiás mostra, se examinarmos o doente, quer dizer, os dados, é outra coisa.
Um estado que ocupa esse lugar na cadeia internacional do tráfico não é modelo de segurança pública. É um hub logístico do narcotráfico.
E ninguém está fazendo a pergunta que ele deveria responder: se sua gestão foi tão bem-sucedida contra o crime organizado, por que Goiás lidera o refino de cocaína no país durante exatamente os seis anos em que ele governou?
O plano de governo, tanto quanto a entrevista de terça, não oferece resposta. Oferece um catálogo de propostas que repete o repertório de sempre, que vai de redução da maioridade penal a uso das Forças Armadas contra facções.
Ele fala sobre enquadrar grupos armados como terroristas, incluindo milícias, mas não resolveu a famosa “confraria da morte”, conjunto de policiais de Anápolis que assassinou um desafeto do governador e outras sete pessoas como queima de arquivo. A milícia se enquadraria na tal proposta?
Hub goiano do refino
Dentre as propostas no plano do candidato, nenhuma toca no elo que sustenta o hub goiano do refino: a arquitetura financeira que lava o dinheiro da cocaína, as rotas rodoviárias que atravessam o estado sem fiscalização efetiva, a infraestrutura rural que abriga os laboratórios.
Segurança pública contra o crime organizado se faz com inteligência financeira, controle integrado de fronteiras, cooperação internacional efetiva, desarticulação patrimonial das lideranças e políticas de redução de danos que retirem o mercado consumidor das mãos das facções. Nada disso está no centro da proposta de Caiado.
O centro da proposta é uma lei de terrorismo doméstico com regime prisional próprio para facções, enquanto o mesmo candidato promete anistia “ampla, geral e irrestrita” aos condenados pelo 8 de Janeiro. Rigor máximo para uns crimes, perdão total para outros. Que combate ao crime é esse?
Quando questionado, Caiado responde que não examinou o doente. Quando não é questionado, apresenta o remédio. E o remédio é o estado que virou plataforma de exportação de cocaína durante os seis anos em que ele foi médico responsável.
Esse é o exemplo que Caiado quer levar ao Brasil.
Fonte: The Intercept Brasil /