Sábado, 08/08/2026 – 00h00
Por Bianca Andrade
Não há movimento que tenha tido sua “morte” decretada mais vezes que o Axé Music. Vai ano, vem ano, chega quinta-feira de Carnaval e depois a quarta-feira de cinzas, e a história é sempre a mesma: o Axé Music morreu.
O veredito, dado por quem acredita que o tempo do Axé já passou, não vale para quem tem o movimento identitário do Carnaval de Salvador como trabalho. É o caso de Milton Meneses, sócio da Cara de Urso Produções, que decidiu resgatar uma velha conhecida do público: a banda Levada Louca.
Em entrevista ao Bahia Notícias, o empresário revelou o motivo de resgatar o grupo, sucesso nos anos 2000, que agora volta sob nova direção e com Alice Moraes nos vocais.
“Temos parceiros no Brasil que ainda acreditam e apostam no Axé. Então, pegamos um produto que a gente já tinha em casa, uma marca que fez história, e investimos nele. Começamos a sondar e o mercado apoiou a ideia: a galera de Fortaleza, o pessoal do Pará, Rio Grande do Norte, Sergipe”, contou.

Para Milton, o retorno não só da Levada Louca, mas de projetos que carregam o Axé na veia, é uma prova de como o movimento segue vivo e clama por renovação.
“A gente precisa renovar o mercado; a renovação é fundamental para a continuidade do Axé. Hoje, com esse movimento da nostalgia, o interessante é trazer o que fez sucesso e dar uma nova roupagem, misturar um pouco da música sertaneja com o axé e trazer um pouco do arrocha para aproximar o público do ritmo novamente.”
Com 15 anos de estrada, a produtora comandada por Milton e Nelson Neto — que traz no catálogo nomes como Companhia do Pagode, É O Tchan, A Patroa, Samprime, Ygor Silva e a própria Levada Louca — entende que a sazonalidade do movimento e o crescimento do consumo no verão não devem ser impeditivos para continuar investindo no gênero ao longo de todo o ano.

De acordo com Milton, a própria procura de empresários de fora da Bahia por novas bandas de Axé fez com que a Cara de Urso investisse ainda mais no segmento.
“A aposta vem disso: voltou-se a consumir o Axé. Havia procura e a gente não tinha braço para cobrir a demanda. O empresário da Bahia precisa se movimentar para não deixar que falem ‘Ah, o Axé morreu’. Para mim nunca morreu, e se depender da gente, vamos continuar dando sequência a esse trabalho.”
O empresário também cita o fator nostalgia como combustível para impulsionar o mercado. Um levantamento feito pela empresa de pesquisa PiniOn indicou, por exemplo, que 56,8% dos brasileiros já realizaram compras motivadas por memórias do passado. Mas como isso se reflete na música e, em especial, no Axé?
“Hoje eu posso dizer que o É O Tchan, em 1995 e 1996, abriu portas para o Axé no país, e esse nosso mercado nunca caiu. Como faço muitos eventos com prefeituras de outros estados do Nordeste, percebo que a procura por bandas de Axé no período do São João, por exemplo, passou a ser maior do que a busca por bandas de forró no Carnaval.”
Outro reflexo dessa força nostálgica é o retorno de labels históricas, a exemplo do Trivela, festa icônica do Asa de Águia comandada por Durval Lelys.
“Eu acompanho o É O Tchan ao redor do país e a gente vê a empolgação das pessoas, o carinho do público. Foi assim no Fortal, em Florianópolis, no Rio Grande do Norte e em diversos outros lugares. Como eu posso dizer que não vou dar continuidade a esse legado?”, questiona o sócio da Cara de Urso.

No entanto, Milton entende que esse resgate não pode ser estático. Para o empresário, a proposta ao trazer a Levada Louca de volta é conectar o Axé com as novas gerações e com o cenário atual.
“Pelo que sinto no mercado, cada novo artista faz o movimento crescer. Precisamos fazer a célula do Axé continuar forte e presente em diversos ritmos. Se você olhar para o sertanejo, para o forró ou para o piseiro, vai encontrar muito da percussão da Bahia ali. É isso que estamos fazendo com a Levada Louca. Quando o Axé surgiu e estourou no Brasil, ele falava de amor. Acho que é exatamente isso que queremos transmitir”, concluiu.
Fonte: Bahia Noticias / Foto: Divulgação