Equidade se ensina na escola?

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Equidade se pratica. Está na escolha dos livros, na composição das equipes, nas expectativas que depositamos sobre cada estudante

Nos últimos anos, a palavra equidade passou a integrar o cotidiano das redes públicas de ensino. Ela aparece em documentos oficiais, planos educacionais, formações continuadas e, cada vez mais, nas preocupações de gestores e professores. Não por acaso. O ICMS Educação, instituído pela Emenda Constitucional nº 108/2020, passou a considerar critérios como aprendizagem, gestão educacional e equidade na distribuição de parte dos recursos aos municípios. 

Na mesma direção, o novo Plano Nacional de Educação (2026–2036) estabelece metas voltadas à educação indígena, quilombola e do campo, à ampliação da inclusão e à melhoria das condições de oferta da educação básica. A necessidade, portanto, está posta. Mas, afinal, é possível ensinar equidade na escola? 

A resposta não é simples. Em Democratização do colo (ed. Papirus), Jussara Santos evidencia como o racismo atravessa o cotidiano da educação infantil ao mostrar o silenciamento de situações discriminatórias e a menor escuta destinada a bebês e crianças negras. 

Os dados confirmam essa realidade ao longo da educação básica. O estudo Aprendizagem na educação básica: situação brasileira no pós-pandemia (2025) mostra que, entre 2013 e 2023, aumentou a distância entre estudantes brancos, negros e indígenas. Em língua portuguesa, 45,6% dos estudantes brancos e amarelos atingiram o nível adequado de aprendizagem, enquanto entre estudantes pretos, pardos e indígenas esse percentual foi de 31,5%. 

Em matemática, a diferença também cresceu. Para além dos muros da escola, a representatividade é outra dimensão indispensável. O relatório Black diverse intelligence series 2026 da Nielsen aponta que 74% dos jovens negros desejam ver mais pessoas como eles representadas nos conteúdos que consomem, e 67% afirmam prestar mais atenção a marcas e produções que refletem sua cultura.

Os dados revelam que ainda não consolidamos um pacto entre políticas públicas, formação docente, materiais didáticos, literatura e práticas pedagógicas. Nenhuma política produz transformação sozinha. Seu impacto depende da forma como se chega às salas de aula e se traduz nas relações cotidianas.

Talvez a pergunta do título esteja incompleta. Equidade não é algo que simplesmente se ensina. Equidade se pratica. Está na escolha dos livros, na composição das equipes, nas expectativas que depositamos sobre cada estudante, nas perguntas que fazemos e, principalmente, nas respostas que estamos dispostos a ouvir. Antes de aparecer nos indicadores, a equidade aparece nas decisões cotidianas. E são essas pequenas decisões, repetidas todos os dias, que um dia passam a ser chamadas de política pública.

Referências

Aprendizagem na educação básica: situação brasileira no pós-pandemia. Disponível em: https://todospelaeducacao.org.br/wordpress/wp-content/uploads/2025/04/estudo-aprendizagem-na-educacao-basica-no–brasil-pos-pandemia-todos-pela-educacaodocx.pdf

Black diverse intelligence series 2026. Disponível em: https://www.nielsen.com/pt/insights/2026/2026-dis-black-consumer-engagement-loyalty/

Fonte: Revista Educação / Nenhuma política produz transformação sozinha. Seu impacto depende da forma como se chega às salas de aula e se traduz nas relações cotidianas (Foto: Agência Brasil)

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