FIXAÇÃO 

Ângela Monize Bahia Brasil colunistas

Por Angela Monize – Terça, 19 de maio de 2026

me perguntaram qual é a parte do meu corpo que eu mais gosto.

meus olhos, eu disse.

mas eles são castanhos, me disseram.

e por um instante eu pensei no quanto as pessoas passam a vida inteira confundindo a ideia de valor. como se a beleza precisasse lembrar o oceano para ser profunda e bela de verdade.

é como se a cor da terra não fosse justamente aquilo que em tudo vive.

a cor, de fato, não importa muito se você parar pra pensar em tudo o que alguns olhos observaram ou ainda observam…

continuar observando o mundo rodar e a vida passar, mesmo depois de perceber certas crueldades… é um desafio. e mesmo assim, ainda ter a delicadeza das rosas, apesar de tudo o que já atravessou e viu.

me perguntaram o que eu mais gosto em mim.

meu sorriso, eu disse. 

e nos perdemos em silêncio.

como se fosse absurdo amar justamente a parte de mim que é tão comum conseguir: um sorriso. 

32 dentes em uma boca.

as linhas.

algum pouco de batom borrado.

expressão.

os olhos.

sentimento.

beleza imóvel.

transcendental.

histórica…

a melhor parte de mim nunca esteve na simetria. ela vive nessa pequena curva que aparece depois do caos. 

é a tímida curva que insiste em se formar em meus lábios.

nesse movimento quase tímido dos lábios quando qualquer coisa dentro de mim decide permanecer viva apesar de ter todas as vontades de desaparecer por alguns dias.

tentaram me ensinar a olhar para mim de uma maneira errada. 

analisando e procurando defeitos…

grande demais. 

torto demais. 

torpe demais!

sensível demais. 

intenso demais.

requisitos demais.

“critérios” demais…

mas eu nunca fui “demais”.

eu nunca coube na forma pequena com que enxergam as coisas.

meu corpo carrega marcas porque eu vivi dentro dele. 

minha mente nunca para porque não a deixo parar.

porque o tempo passou por mim. 

porque existir altera a matéria das pessoas. 

e eu acho um tanto quanto assustador tentar transformar isso em vergonha ou exposição.

não há culpa em crescer.

mudar.

sangrar.

desejar.

sentir o mundo de maneira excessiva, expansiva, dimensionada.

e eu sinto. e sangro.

escrevo. e sangro.

eu passo meu café, sempre com notas de caramelo. e sangro.

sinto tudo de uma maneira perigosa.

as memórias ficam vivas por tempo demais em mim. os lugares permanecem no meu corpo mesmo depois que eu vou embora deles. certas palavras continuam ecoando durante anos. certas dores criam raízes fortes e saudáveis.

é deveras violenta toda essa beleza…

porque enquanto muitas pessoas passam pela vida anestesiadas, eu estou aqui experimentando cada sensação piamente. até onde queima. eu me deixo transbordar.

não permito mais me diminuir para parecer fácil de ser amada. não quero amputar partes minhas para caber no conforto de ninguém. eu quero é a honestidade de ser inteira, mesmo quando isso assusta.

vou me respeitar, acima de tudo.

e talvez seja isso que mais incomoda. essa minha tranquilidade de alguém que finalmente parou de pedir desculpas por existir.

Foto : Angela Monize

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *