por Angela Monise – Segunda, 2 de março de 2026
rasguei o silêncio da manhã antes mesmo de abrir os olhos. um instante quase eterno entre a consciência e a falta dela.
o corpo lançado contra o próprio peso.
o ar, com certeza, rarefeito, abrupto, abrindo meus pulmões, se expandindo em uma violência silenciosa, como se reaprendessem o gesto mais primitivo da existência.
eu observava a terra. sentia aquela espessura compacta sob meus pés descalços, a textura irregular que não cedia completamente, mas também não me rejeitava, uma resistência úmida e viva que subia pelas plantas dos pés como se houvesse ali uma memória mais antiga do que qualquer pensamento, algo bruto, anterior ao nome, anterior à história, anterior até mesmo à dor. uma matéria silenciosa sustentando meu peso sem perguntar quem eu havia sido ou o que eu tinha perdido.
fiquei ali por um tempo impossível de medir, sentindo o contato áspero contra a pele, sentindo o limite exato entre aquilo que era meu e aquilo que continuava sendo mundo.
me levantei.
as pernas sustentaram o movimento com uma firmeza inesperada. o sangue percorreu seu trajeto completo, alcançando minhas extremidades.
ao redor, vi a floresta respirar.
as árvores se erguiam em sua própria soberania, indiferentes à minha história, indiferentes à minha intempérie. seus troncos carregavam cicatrizes antigas, abertas e fechadas sob o mesmo tecido vivo.
o vento atravessou meu rosto com precisão. meus olhos alcançaram distâncias maiores do que antes. o espaço não se apresentava mais como ameaça. havia uma nitidez crua nas formas.
eu existia dentro daquele cenário.
meu corpo não era mais o mesmo. os músculos sustentavam uma nova distribuição de força. a pele reconhecia o próprio limite.
eu me vi renascer das cinzas. respirava novamente sem você. acordei em um lugar onde as metáforas eram possíveis, já que todas as que usei para te explicar meus sentimentos foram ignoradas.
eu percebi que não precisava apagar a memória de nada. eu não preciso enterrar o que foi real. fazer renascer o mundo inteiro que ainda estava lá, inteiro e indiferente,
me chamando para fora, fazia mais sentido pra mim.
mas como alguém que ama, digo: como era indescritível estar sob suas circunstancias. como me cabia estar no fundo do seu oceano, revelando todas as suas máscaras, participando de todo o seu mundinho. como era interessante te observar me puxando cada vez mais pra você…
de alguma forma, quando acordei sozinha, eu senti raiva como sangue na carne.
me deixei ficar naquele momento para não me ferir ainda mais com você. mas de alguma forma, algo me fez acordar e perceber que a fisicalidade do existir era real novamente. a urgência então, sem sombra de dúvidas, era retornar, despida, ao lugar que me fez mulher em um primeiro belo momento…
não houve redenção elaborada ou respostas perfeitas. pois a superação não é cruzar a margem. superação é reconhecer a própria carne antes de acreditar no que outra boca disse sobre ela.
um passo. um passo de cada vez. foi você que me ensinou isso. e como já dizia Buarque de Holanda “Quando você me deixou, meu bem, me disse pra ser feliz e passar bem.”
e a cada movimento meu para longe, só confirmo que não estou na tua pele, na tua vida, em teu sangue. segurando as minhas lágrimas, seus aborrecimentos e suas vontades.
o passado não me retem. e isso bastava para continuar atravessando o que ainda viria.
agora, a floresta me guia.
ainda assim, eu sigo.
para longe de tudo o que me fizer chorar.