Por Ipirá City – Sexta, 17 de abril de 2026
A Justiça que Floresceu no Caixote
Quando a noite fecha as asas sobre uma cidade,
alguns homens acendem estrelas sem saber.
Humberto Colonnezi foi desses:
um lavrador de justiça em terra de esquecimento.
Ele nasceu em Salvador, em setembro de 1933,
mas foi em Ipirá que suas raízes desceram fundo —
como se o chão da Bahia já soubesse
que ali brotaria um dos seus mais legítimos frutos.
Menino, aprendeu a serenar a madeira bruta com as mãos.
A marcenaria não lhe deu apenas ofício:
deu-lhe a paciência dos que constroem,
a humildade dos que sabem que tudo começa no silêncio do corte.
Mais tarde, trocou a plaina pelos livros,
mas nunca perdeu o jeito de quem cura a aspereza do mundo com gesto firme e alma macia.
Na Faculdade de Direito, não foi um aluno comum.
Foi um rio que aprendeu a correr contra a corrente.
Líder estudantil, aprendeu cedo que a lei, sozinha, é um espelho vazio;
é preciso aquecê-la com a voz do povo.
E que voz era a sua!
Palavras que não se acomodavam no papel —
dançavam, incendiavam, pariam auroras.
Voltou a Ipirá e plantou amor no nome de Jacy.
Desse solo fértil nasceram quatro frutos:
Liege, Humberto Jr., Giovanna, Alesandro.
E ao lado deles, cresceu um clube chamado Ipiracy —
invenção de quem sabia que a alegria também é um território a ser conquistado.
Ali, naquele primeiro salão aberto a todos,
a primeira menina negra vestiu a faixa de Miss Estudante
e o preconceito caiu como um muro velho.
O Ipiracy foi a praça onde o povo aprendeu a dançar de braços abertos.
Nas feiras livres, Humberto subia em caixotes.
Era ali, entre cheiro de fruta e vozerio de feirante,
que a política virava poesia de pé-de-chão.
Do alto daquele palanque improvisado,
ele semeava discursos que germinavam em votos.
Fundou os Macacos — não para brigar com os Jacus,
mas para ensinar que o poder também pode ser macio,
ágil, trepado em árvores de justiça.
Vereador com a maior votação que Ipirá já viu.
Vice-prefeito duas vezes.
Mas nunca se sentou em nenhuma cadeira como quem descansa.
Cadeira era trincheira.
Seu tribunal de verdade foi o júri —
lá, sua oratória era espada e violão ao mesmo tempo.
Cortava o erro, acordava a verdade,
e ainda sobrava melodia para consolar o condenado inocente.
Por isso, em 2018, batizaram com seu nome a sala da OAB no Fórum.
Não foi um gesto, foi um reconhecimento:
aquele espaço agora respira com os pulmões de quem ensinou que advogar é plantar dignidade em terra árida.
Humberto Colonnezi não morreu.
Morrer é deixar de florir.
E ele floresce em cada menino pobre que ainda ousa sonhar com justiça.
Floresce na dança do carnaval antigo, na segunda-feira gorda,
na volta do círculo onde os olhares se cruzam e se entendem.
Floresce na madeira bem talhada, no discurso sobre caixote,
no nome do clube que é abraço de Ipirá com Jacy.
Ele se foi como os grandes rios se vão:
não desaparecem — viram céu, viram chuva, viram memória que rega o chão.
Hoje, a história testemunha:
Humberto Carvalho Colonnezi foi a luz da verdade,
a vida da memória, a mestra da vida.
E enquanto houver uma feira livre,
um júri popular,
um salão onde se dance sem medo,
ele estará lá —
sorrindo de dentro do caixote,
eterno como a justiça que o povo nunca esquece.
Fonte de Pesquisa para a construção do texto : Alberto Pires/Alessandro Colonnezi Filho/Oficial Marcus Carvalho- Instagram. Foto: Agencia Rossi