faz sentido que algumas coisas cheguem antes da linguagem.
antes da escolha das palavras, da intenção de escrever, até mesmo de saber que aquilo um dia teria nome.
fenômenos poéticos… é como eu costumo chamar tudo isso que me atravessa. mas isso começou antes mesmo de qualquer tentativa de entendimento.
antes da ideia de organizar palavras, antes de caber em explicação e de se tornar algo que eu pudesse apontar e dizer “é isso!”. começou quando ainda não havia um nome suficiente para o que eu sentia, nem um tipo de tradução específica.
no gesto de ver algo ganhar forma, eu fui. no barulho ritmado de uma máquina respondendo ao toque, no movimento repetido que, aos poucos, deixava de ser mecânico e passava a ser íntimo.
antes de saber que aquilo era escrita e que as palavras se soltavam de mim, isso já era encontro.
com o tempo das coisas, a insistência necessária para que algo exista de dentro pra fora. como se, ali, eu estivesse sendo apresentada não às palavras, mas ao processo de dar sentido a elas.
eu amo narrar histórias, momentos, tudo o que faz sentido num instante qualquer, mas que ganha importância quando observados por um olhar sensível.
tudo começou com uma máquina de escrever e gestos que vieram antes de mim. a máquina respondia ao toque com um som seco, quase definitivo. nada de deslizar os dedos na tela como se faz hoje em dia. ali, cada letra exigia algo. o dedo descia com decisão, encontrava resistência, e então o pequeno impacto acontecia.
metal contra fita, fita contra papel.
e a letra nascia.
o primeiro contato não foi com a escrita como ideia, mas com a escrita como acontecimento.
o corpo participava.
o pulso, o ritmo, a força.
não dava para escrever distraída.
cada tecla pressionada era uma escolha que não voltava. apagar não era fácil. não havia desfazer.
eu seguia um passo de cada vez, a minha tela era uma máquina de escrever e, ao fundo, um pé de pinha e outro de acerola.
e um fascínio muito específico…
ver o pensamento se tornando visível em tempo real, com pequenas imperfeições, desalinhamentos mínimos, marcas de tinta mais fortes em algumas letras do que em outras.
a palavra não vinha perfeita,
ela vinha viva.
o papel era conduzido. preso por um rolo firme, girado com cuidado, medindo o espaço do que ainda iria ser dito.
e cada avanço era um pequeno ritual.
girar, alinhar, ajustar.
um tempo entre uma linha e outra.
um tempo que obrigava a sustentar o que se pensava.
quando a linha chegava ao fim, eu precisava agir de novo.
a mão empurrava a alavanca lateral, e então vinha aquele movimento inteiro.
o carro deslizando de volta, rápido, com um som contínuo, quase satisfatório.
eu sentia a máquina respirar antes de recomeçar.
e tudo voltava ao início.
pronto para mais uma tentativa de continuidade das coisas.
ah… a continuação das coisas…
algo tão bonito…
a máquina carregava isso. não era só uma ferramenta de trabalho.
quanto mais se escrevia, mais se fixava uma ideia.
cada palavra tinha peso.
cada erro permanecia ali.
já pararam para pensar que a nossa vida é assim? tudo o que fazemos, tudo o que somos, tudo o que construímos… nos atravessa, mas não se desfaz.
a continuidade acontece mesmo assim.
e talvez tenha sido ali que a escrita ganhou outro sentido pra mim. não é algo que precisa sair certo de primeira, mas algo que se constrói mesmo com falhas visíveis, ruídos ou interrupções.
a máquina de escrever ensina isso sem explicar muito.
ensina que ideia não basta.
é preciso tocar, insistir, atravessar, viver…
quando a folha já está preenchida, existe um gesto final de puxar o papel para fora e sentir a leve resistência antes dele se soltar. segurar nas mãos aquilo que, minutos antes, não existia.
a folha vem com marcas.
algumas mais fundas, outras quase apagadas.
escrever, desde então, nunca foi sobre evitar falhas ou buscar fluidez.
talvez tenha ficado mais próximo disso mesmo…
aceitar o som, o peso, o intervalo,
sustentar o movimento até o fim da linha,
e entender que, às vezes, o que permanece no papel não é só o que se quis dizer,
mas tudo o que foi necessário atravessar para conseguir dizer.
escrever, pra mim, é como viver.
escrever, pra mim, é como respirar.
não tem como voltar ou apagar.
vou. escrevo. erro. percebo.
e continuo…