No ambiente de ‘violências naturalizadas’ que é o futebol, xenofobia segue presente

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Sábado, 14 de Maio de 2022

por Nuno Krause / Ulisses Gama

Logo após o Bahia vencer o Azuriz nos pênaltis, em Pato Branco, pela terceira fase da Copa do Brasil, integrantes do Esquadrão contaram que receberam insultos xenofóbicos de torcedores do time mandante durante todo o confronto. Nas redes sociais, o assessor de imprensa Bruno Queiroz publicou uma foto da comemoração do elenco tricolor relatando os xingamentos. 

“‘Baiano, não anda rápido que você só consegue andar devagar’, ‘Vai macumbeiro!’, ‘Volta pra sua rede pra dormir’, ‘Volta pra Bahia, terra de índio’. A resposta está na foto! Muito orgulho do clube que representa as nossas raízes e nossa cultura”, escreveu Bruno. 

“O futebol não está à parte da sociedade, ele faz parte dela. Qual é o grande agravante? É que as violências são naturalizadas no futebol. Se você abordar uma pessoa que comete esse ato, em muitos casos ela não se acha preconceituosa. Alegam que isso faz parte do futebol. Isso precisa ser desnaturalizado. Ele não deve fazer parte, temos que romper com isso”, avaliou, em entrevista ao BN. 

Com relação à xenofobia, o sociólogo acredita que a própria constituição social e geográfica do país favorece a manifestação. “Desde a escravidão, a regionalização, as desigualdades sociais. [O futebol] Influencia e é influenciado por toda a sociedade. Portanto, todas essas situações de preconceito, racismo, xenofobia, seja praticada por pessoas de outros países ou intra-regional e inter-regional, aqui no Brasil, têm relação com isso”, explicou. 

Bruno Queiroz revela que o fato é comum em viagens do Bahia para o Sul do Brasil. “Sem querer generalizar todas as torcidas, porque não são todas as pessoas que nos atacam dessa maneira, mas esse tipo de xenofobia acontece muito no Sul do país”, pontuou. 

A “justificativa” para o injustificável foi uma declaração de Guto Ferreira falando que o estádio Os Pioneiros tinha “luz de boate”. Nesta quinta-feira (12), no CT Evaristo de Macedo, o episódio foi tema de conversa entre os atletas, que ficaram impressionados com o clima hostil. 

E A PUNIÇÃO? 

O Código Brasileiro de Justiça Desportiva (CBJD) prevê punições, em seu artigo 243, para quem “praticar ato discriminatório, desdenhoso ou ultrajante, relacionado a preconceito em razão de origem étnica, raça, sexo, cor, idade, condição de pessoa idosa ou portadora de deficiência”. 

O inciso 1º afirma que, caso a infração prevista no artigo “seja praticada simultaneamente por considerável número de pessoas vinculadas” a algum clube, neste caso torcedores, “esta também será punida com a perda do número de pontos atribuídos a uma vitória no regulamento da competição”. Caso o torneio em questão não seja disputado por pontos, “a entidade de prática desportiva será excluída da competição, torneio ou equivalente”.

Além disso, está prevista uma multa de R$ 100,00 a R$ 100 mil, “e os torcedores identificados ficarão proibidos de ingressar na respectiva praça esportiva pelo prazo mínimo de 720 dias”. 

O Bahia Notícias entrou em contato com a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) para saber se haveria alguma punição ao Azuriz, mas não obteve retorno até o fechamento desta matéria. 

Para Felipe Damasceno, a punição é importante, a curto prazo, mas não é solução. “É preciso que isso seja combatido não só por meio do punitivismo. [Os atos] Precisam ser punidos com rigor na lei. Porém, o grande trabalho de mudança deve ser feito no campo da educação. Dentro do debate sobre cidadania (…). Algo que me chama muito a atenção é o fato de o futebol não ser discutido na educação. Não há debate”, lamenta. 

Classificado para as oitavas de final da Copa do Brasil, o Bahia volta a campo no próximo domingo (15), contra o Vasco, em São Januário, pela 7ª rodada da Série B do Brasileirão. 

Fonte: Bahia Notícias

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