“O Brasil precisa ter uma taxa de juros civilizada”

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“Se a inflação é 4%, a taxa de juros poderia ser perfeitamente de 6%, já seria alta, não precisamos que ela seja de 14,75%”, afirma Paulo Feldmann      

Domingo, 3 de maio de 2026

Radio USP

O Brasil ostenta um título nada invejável, o de possuir a terceira maior dívida em relação ao PIB da América do Sul, segundo dados do Fundo Monetário Internacional (FMI). A proporção é de 91,4% do PIB (Produto Interno Bruto), enquanto a Venezuela, com 138%, ocupa o primeiro posto nessa relação, seguida pelo Bolívia, com 93,7%. Até que ponto tais números são significativos para a vida econômica da nação? De acordo com o economista Paulo Feldmann, professor da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária (FEA) da USP, eles nada representam no que se refere ao desenvolvimento do País, embora sejam importantes para o FMI, que cuida da saúde financeira dos bancos. E mais: esses dados do órgão levam em conta a dívida bruta e não a dívida líquida, que é o que importa para o Brasil, e que é da ordem de cerca de 78%. “A dívida preocupa os investidores estrangeiros, mas isso também não é verdade, porque eles continuam investindo no Brasil – e muito -, apesar desse número”, avalia ele, “porque há muitas outras coisas que são muito interessantes no Brasil para os investidores. Poucos países neste momento são tão atraentes  para os investidores lá fora quanto o Brasil, ninguém dá bola para a dívida”.

Paulo Feldmann – Foto: FEA-USP

De acordo com Feldmann, o que gera o crescimento da dívida é o pagamento de juros para os aplicadores de renda fixa ou do tesouro direto. “A taxa de juros do Brasil é de 14,75%, é muito alta para uma inflação de 4% apenas, dá mais de 10% de taxa de juros real, é a segunda mais alta do mundo, o que gera uma quantidade de R$ 1 trilhão, que tem de ser pago todo ano pelo governo federal, é muito dinheiro, 7% do PIB brasileiro, como é que o governo vai pagar esse R$ trilhão, não paga, não tem como, tem que rolar.” Ou seja, a dívida aumenta ano a ano justamente por causa desse valor, um aumento equivalente a 7% do PIB. “Por que não se reduz essa taxa de juros? O Brasil não precisa ter a segunda taxa de juros real mais alta do mundo.” Os demais países da América do Sul possuem uma taxa de juros um pouco maior do que a inflação. “No mundo inteiro, a taxa de juros é 1% a 2% acima da inflação – nos Estados Unidos, por exemplo, a inflação esperada é de 3%, a taxa de juros é de 4,5%, 5%. Mas no Brasil, porque os rentistas querem ter um ganho cada vez maior, e o setor financeiro consequentemente também, pressionam o Congresso, pressionam o governo para que não se abaixe a taxa de juros.” Graças a esses “esforços” do setor financeiro, o Banco Central não consegue diminuir a taxa de juros “por medo das represálias que os bancos vão tomar”.

Injustiça contra o governo

Uma coisa que Feldmann deixa claro é que se comete uma injustiça muito grande quando se diz que os gastos do governo são responsáveis pelo aumento do endividamento. “Isso não é verdade, os gastos do governo estão no mesmo patamar que estiveram nos últimos dez anos, praticamente”, afirma o professor. “Os gastos do governo são compatíveis com a receita do governo, e o déficit do governo, o que se chama de superávit primário, ou de déficit primário, é da ordem de 0,2%. No ano passado, o governo gastou acima do que arrecadou, apenas 0,2%, este é o valor dos gastos do governo. Por quê? Porque não entram nesse índice os juros. O pagamento de juros não entra aí, entra em outra conta, que se chama superávit ou déficit nominal. Para essa conta ninguém dá bola no Brasil.”

Ainda segundo ele, a grande imprensa prefere concentrar suas críticas no déficit primário, de forma nenhuma significativo, ao contrário do déficit nominal, este sim, foco de atenção de todos os demais países, “que é onde entra o pagamento de juros. Mas no Brasil não se fala dele”. Já a imprensa internacional, diz ele, considera um absurdo o que o País paga de juros, “porque o déficit nominal realmente é muito alto no Brasil, um dos mais altos do mundo, da ordem de 8% a 9% ao ano. Nós precisamos reduzir essa taxa de juros e ter um valor decente”. A lógica é simples, argumenta Feldmann: como a  taxa de juros é muito alta, os empresários não vão investir em suas empresas, comprando novas máquinas, contratando mão de obra ou aumentando o tamanho da fábrica, porque vão aplicar no mercado aproveitando as altas taxas de juros em vigor no País. “O nível de investimento do País está muito baixo, e isso sim, afeta o crescimento do PIB, afeta o emprego, afeta tudo, mas é por causa da taxa de juros. O grande problema do Brasil, não tenha dúvidas, é essa taxa de juros Selic, que é absurda e que faz realmente com que o País não consiga avançar.” Para o economista, o Brasil precisa ter uma taxa de juros civilizada. “Se a inflação é 4%, a taxa de juros poderia ser perfeitamente de 6%, já seria alta, não precisamos que ela seja de  14,75%.”

Fonte: Jornal USP / O que gera o crescimento da dívida é o pagamento de juros para os aplicadores de renda fixa ou do tesouro direto – Arte sobre fotos: Marcello Casal Jr / Agência Brasil e Agência Brasil / Antonio Cruz

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