Influenciador apresentou à Justiça americana o contrato de sua empresa com a plataforma que promoveu Bolsonaro
Por Alice Maciel – Quinta, 8 de janeiro de 2026
O influenciador bolsonarista Paulo Figueiredo informou à Justiça americana que trabalhou para a rede social Gettr entre agosto de 2021 e abril de 2022, durante o lançamento e expansão da plataforma no Brasil. Controlada à época por Jason Miller, ex-conselheiro de Donald Trump, a Gettr promoveu em seu perfil oficial o então candidato à reeleição Jair Bolsonaro (PL), abrigou perfis de bolsonaristas bloqueados pelo Supremo Tribunal Federal (STF) e espalhou desinformação sobre as urnas eletrônicas.
O ICL Notícias teve acesso aos documentos que detalham os serviços de consultoria e assessoria prestados por Figueiredo à Gettr por meio de sua empresa, sediada na Flórida (EUA), a International Treasure Group (ITG). Os registros foram apresentados pelo influenciador em dezembro, no processo em que sua firma é ré, acusada de ter recebido US$ 140 mil (cerca de R$ 760 mil) de uma empresa de fachada do magnata chinês Miles Guo.
Exilado nos EUA desde 2015, Guo é acusado de enganar milhares de seguidores na internet para investir em negócios sob seu controle e desviar mais de US$ 1 bilhão para financiar sua vida de luxo. Ele já foi condenado por nove crimes, incluindo lavagem de dinheiro e organização criminosa. Trumpista, Guo financiou Steve Bannon — ex-estrategista de Donald Trump e aliado da família Bolsonaro — e foi apontado pela Justiça americana como “controlador” da Gettr.
Conforme revelou reportagem da Agência Pública, em parceria com a Mother Jones, a ação contra a empresa de Figueiredo faz parte de um processo de falência que busca recuperar transferências supostamente ligadas ao esquema de fraude liderado por Guo.
O pedido de apuração na Justiça americana afirma que o pagamento à empresa do influenciador foi uma transferência fraudulenta. “Esta transferência foi, na verdade, fraudulenta, porque o devedor [Guo Wengui] a efetuou como parte de seu ‘jogo de fachada’ e foi feita com a intenção de dificultar, atrasar e/ou fraudar os credores do devedor”, diz o processo.
Neto do último presidente da ditadura militar, Figueiredo responde no Brasil à denúncia da Procuradoria-Geral da República (PGR) por integrar o núcleo responsável pela coordenação da disseminação de desinformação na trama golpista. Entre os acusados, é o único cuja denúncia ainda não foi analisada pelo STF. Residente nos EUA, ele foi notificado em outubro do ano passado por meio de carta rogatória, instrumento de cooperação jurídica internacional.

Serviços prestados à Gettr
Foi para justificar o recebimento dos recursos da empresa de Miles Guo que Figueiredo apresentou à Justiça dos EUA as provas de sua relação contratual com a Gettr, vínculo que até então nunca havia sido admitido publicamente pelo influenciador, apesar de já ter sido questionado pela imprensa. A reportagem procurou Figueiredo para comentar sobre o caso, mas não obteve retorno.
Ele anexou ao processo nove documentos com informações sobre a atuação de sua empresa para a rede social pró-Trump, lançada em julho de 2021 no Brasil. Dentre eles, está o contrato firmado entre as partes.
Entre os serviços prestados, estavam a análise de riscos jurídicos e políticos, o planejamento de estratégia de mídia e relações públicas, o contato com influenciadores e veículos de comunicação, além do suporte ao desenvolvimento de negócios. Segundo Figueiredo, sua empresa também enviava à Gettr relatórios semanais com análises e recomendações.
Um relatório produzido em 4 de dezembro de 2021, anexado ao processo, informa que Paulo Figueiredo sugeriu que a Gettr financiasse uma pesquisa presidencial com um instituto renomado. “Jason afirmou que não gostaria de publicar uma pesquisa com resultados desfavoráveis a Bolsonaro neste momento”, informa o relatório.
Além disso, apresenta uma lista de eventos bolsonaristas a serem patrocinados pela Gettr, como por exemplo, o Brasil Profundo, promovido pelo Instituto Conservador Liberal, think tank do ex-deputado Eduardo Bolsonaro; o Congresso Politicamente Incorreto organizado pelo deputado federal Carlos Jordy (PL-RJ); e um congresso para mil médicos do mundo todo, com patrocínio negociado em R$ 20 mil — à época o mundo vivia a pandemia da covid-19 e a Gettr disseminou desinformação sobre o tratamento precoce da doença.
O documento informa ainda que Jason Miller solicitou a Paulo Figueiredo que procurasse “eventos relacionados a criptomoedas”.

Provas foram apresentadas após sentença à revelia
Em 30 de outubro de 2025, após diversas tentativas frustradas de notificação, o Tribunal de Falências do Distrito de Connecticut, nos EUA, onde a ação tramita, proferiu sentença à revelia contra a empresa de Paulo Figueiredo. A decisão fixou a condenação no valor de US$ 140 mil, acrescida de juros pré-julgamento.
Mais de um mês depois, em 2 de dezembro, o influenciador apresentou defesa e solicitou a revogação da decisão. Uma audiência para analisar o requerimento foi agendada para o dia 27 de janeiro.
“Com base nas informações disponíveis, em nenhum momento a ITG, ou qualquer membro de sua equipe, esteve envolvida ou teve conhecimento de qualquer suposto esquema da Gettr ou da HCHK [empresa de Guo] para prejudicar, atrasar ou fraudar credores. Todos os pagamentos que a ITG recebeu da Gettr foram referentes a serviços legítimos de consultoria”, defendeu Figueiredo na ação.
Para justificar a falta de respostas às notificações judiciais, ele alegou que, ao longo de 2023 e 2024, sua empresa enfrentou “dificuldades financeiras significativas” em razão de interrupções em suas atividades comerciais, e por isso, não teve recursos financeiros para contratar um advogado. Segundo ele, essas dificuldades foram agravadas por “mudanças políticas no Brasil” e pela redução das oportunidades de consultoria.
O influenciador também afirmou não ter tomado conhecimento em razão de problemas na entrega das notificações judiciais. Segundo ele, o endereço da empresa, localizado em Weston, na Flórida, é também seu endereço residencial, onde as correspondências costumam ser deixadas em uma área comum.
Figueiredo declarou ainda que não se recorda de ter recebido qualquer notificação sobre a decretação da revelia. Segundo seu relato, só percebeu a existência da sentença quando abriu uma correspondência do Tribunal de Falências contendo uma cópia da decisão proferida em 30 de outubro de 2025, o que teria ocorrido no início de novembro do mesmo ano.
No pedido de anulação, ele acrescentou que, entre agosto e novembro de 2025, realizou viagens frequentes, incluindo períodos prolongados em Washington, D.C., e que esteve envolvido em “sérios problemas jurídicos e de segurança pessoal” relacionados às suas atividades políticas no Brasil. “Essas circunstâncias contribuíram ainda mais para minha dependência das práticas informais de manuseio de correspondências no Endereço Weston e ajudam a explicar por que quaisquer correspondências anteriores do tribunal de falências, se entregues, não foram recebidas”, justificou.

As viagens citadas por Figueiredo a Washington foram realizadas em parceria com o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL/SP), numa ofensiva para articular sanções junto ao governo de Donald Trump contra o Brasil e autoridades brasileiras, que resultaram no “tarifaço”. Jason Miller, o ex-CEO da Gettr, foi, inclusive, parceiro dos bolsonaristas na articulação.
Em setembro, Figueiredo e Eduardo Bolsonaro foram denunciados pela PGR por coação no curso do processo, sob a acusação de terem articulado sanções contra ministros do STF, na tentativa de influenciar o julgamento de Jair Bolsonaro por golpe de Estado.
Serviços prestados pela empresa de Paulo Figueiredo à Gettr:
- Planejamento estratégico para as operações da GETTR no Brasil, incluindo análise da dinâmica política local, riscos legais e regulatórios e considerações de reputação.
- Identificação e recomendação de escritórios de advocacia brasileiros para assessorar em questões de plataforma, como termos de serviço, proteção de dados, regulamentação de conteúdo e outros assuntos jurídicos.
- Assessoria sobre a estrutura e localização das operações brasileiras da GETTR,
incluindo opções para entidades locais, contratação e presença física. - Desenvolvimento de estratégia de marca e mídia e estratégia de mídia para o Brasil, incluindo recomendações sobre empresas de relações públicas, agências de publicidade e iniciativas de geração de tráfego.
- Apoio consultivo contínuo à liderança do GETTR sobre eventos políticos, oportunidades na mídia e riscos potenciais à medida que o Brasil se aproximava do ciclo eleitoral.
Fonte: ICL Noticias /