Peça conta a história do cangaceiro Jararaca para retratar o Brasil

cultura

Montado pelo Grupo Pavilhão da Magnólia, “Jararaca(s)” está em cartaz no Teatro da USP, no Centro MariAntonia, até 8 de novembro

Com a peça Jararaca(s), o Grupo Pavilhão da Magnólia transforma em teatro a trajetória real do cangaceiro José Leite de Santana (1901-1927), conhecido como Jararaca, que era do bando de Lampião e foi popularmente santificado em Mossoró (RN). O diretor da peça, Murillo Ramos, antecipa ao Jornal da USP um dos principais questionamentos da obra: “De quem são os corpos que sofrem as violências do Estado? Geralmente são corpos pretos e das pessoas mais pobres”. Jararaca(s) estreou em maio de 2026 no Instituto Itaú Cultural, em São Paulo, passou por Fortaleza (CE) e, no dia 15 passado, chegou ao Teatro da USP (Tusp), no Centro MariAntonia, onde fica em cartaz até 8 de novembro, com entrada grátis.

O espetáculo relata os últimos dias de vida de Jararaca. Com o bando de Lampião, ele invadiu a cidade de Mossoró, que resistiu fortemente aos cangaceiros. No combate, travado em junho de 1927, Jararaca levou um tiro e foi capturado pela polícia. A peça aborda os sete dias em que ele ficou preso, nos quais revelou aspectos internos do cangaço, como as relações com coronéis e o governo, que ajudavam a sustentar o poder paralelo formado pelos cangaceiros. Jararaca foi retirado da prisão sob a promessa de que seria levado à capital, Natal, para ser julgado, mas, na realidade, os policiais o levaram ao cemitério para agredi-lo e enterrá-lo vivo. “Seu assassinato pelo Estado, com o atestado de óbito lavrado mesmo antes de ele ser morto, é uma maneira de silenciamento”, destaca Ramos.

Após a morte de Jararaca, a população de Mossoró atribuiu a ele a operação de milagres e o alcance de graças, o que fez surgir a ideia de que o cangaceiro era um santo popular. Anualmente, centenas de pessoas visitam seu túmulo, no Cemitério São Sebastião, em Mossoró.

Cena da peça Jararacas(s) – Foto: Tim Oliveira
Cena da peça Jararacas(s) – Foto: Tim Oliveira

Murillo Ramos atua há 30 anos em Fortaleza como ator, diretor e professor de teatro. “Eu trabalho com questões que tratam de pessoas, de personagens que são não ficcionais, e com a possível ficção em cima desses personagens. A partir disso elaboro os meus processos artísticos”, diz Murillo, que há dois anos estuda a vida de Jararaca. 

O dramaturgo do espetáculo, Giordano Castro, foi escolhido pelo Pavilhão da Magnólia por seu trabalho coletivo. Ele faz parte do grupo de teatro Magilute, de Recife (PE). “O processo da prisão de Jararaca passa por uma má condução jurídica até chegar à tortura física e psicológica, que antecede sua morte”, conta, lembrando que, a partir dessa história, a equipe começou a discutir a imposição violenta do poder do Estado sobre o povo nordestino, incluindo questões de racismo e precarização da vida na região. “A gente parte desse ponto, dessa figura e dessa situação para discutir uma ideia de Brasil. É um trabalho que questiona a relação entre vida e política.”

O título da obra, que remete ao nome do cangaceiro no plural, convida o público a pensar sobre outros casos de violência estatal como o de Jararaca, retomando o questionamento sobre quais vozes têm o direito de narrar a história, destaca o dramaturgo. A peça aproxima tempos e histórias distintas ao falar sobre quais mortes ganham reconhecimento e quais são esquecidas. O texto de divulgação da peça reforça essa mensagem com as frases “quem matou Jararaca?” e “quem matou Marielle?”.

O Grupo Pavilhão da Magnólia foi fundado em 2005, em Fortaleza (CE) – Foto: Tim Oliveira

Jararacas(s) é uma parceria entre o Grupo Pavilhão da Magnólia, o Itaú Cultural e o Hub Cultural Porto Dragão, equipamento do governo do Estado do Ceará voltado à difusão, formação e articulação da produção artística e cultural cearense. O Pavilhão da Magnólia foi fundado em 2005, em Fortaleza, e tem sede na Casa Absurda, um espaço cultural independente instalado na capital cearense. Desde então, faz espetáculos em diferentes regiões do Brasil. Em 2025, recebeu o Prêmio Shell de Teatro, na categoria Destaque Nacional, pela peça A Força da Água.

A peça Jararacas(s), do Grupo Pavilhão da Magnólia, fica em cartaz até 8 de novembro, de quinta-feira a sábado, às 20 horas, e aos domingos, às 19 horas, na sala do Teatro da USP (TUSP) do Centro MariAntonia da USP (Rua Maria Antonia, 294, Vila Buarque, região central de São Paulo, próximo às estações Santa Cecília e Higienópolis-Mackenzie do metrô). Entrada grátis. Os ingressos devem ser retirados na bilheteria do Centro MariAntonia a partir de uma hora antes do espetáculo. Mais informações estão disponíveis no site do Tusp.

* Estagiária sob supervisão de Roberto C. G. Castro

Fonte: Jornal da USP / Violência contra a população nordestina é um dos temas tratados na peça – Foto: Tim Oliveira


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