Condições precárias levam trabalhadores a escolher o “menos pior”. Planos de saúde pagam R$ 15 por sessão. Clínicas extorquem por salas de terapia. Plataformas vendem “preço social” e levam profissionais a atender até 40 pacientes por semana. Qualidade das ocupações definha
Por Matheus Silveira de Souza
O avanço das plataformas digitais na última década nos dá a impressão de que elas ocuparam todos os poros da vida social. Seja para encontrar um relacionamento, escutar podcasts, assistir a filmes, se locomover na cidade, contratar serviços, encontrar um emprego ou realizar uma reunião, haverá uma ou mais plataformas prontas para suprir novas necessidades. O mundo do trabalho não passaria imune a essas transformações, sendo uma das áreas mais afetadas nessa discussão.
Ao falarmos em plataformização do trabalho, logo pensamos em motoristas da Uber, entregadores do Ifood e, quando muito, em indivíduos treinando IA. Todavia, a plataformização tem se espalhado para diferentes ocupações, como advocacia, faxinas, tradução, psicologia, entre outros1. A experiência de psicólogas em plataformas digitais explicita que esse fenômeno tem menos a ver com a mediação de tecnologias e está mais relacionado com o aprofundamento da precarização do trabalho. Se a utopia do avanço tecnológico nos prometia o aumento do tempo livre e a transferência de atividades repetitivas para as máquinas, o capitalismo-tardio-plataformizado tem nos entregado o aumento de doenças psíquicas, fadiga mental e a transformação do tempo de lazer em tempo de trabalho.
Nesse sentido, a psicologia é uma das ocupações que está paulatinamente se plataformizando. Das diversas plataformas pesquisadas, uma das que foram mais citadas nas entrevistas que realizamos é a PsyMeet, empresa criada em 2020 com o objetivo, segundo alegam, de oferecer terapia online a um preço acessível. Segundo o site da própria empresa, a PsyMeet oferece terapia online para mais de 3 milhões de pessoas anualmente. Na referida plataforma, todas as consultas possuem um valor tabelado de R$ 30, com a justificativa de oferecer terapia a um valor social. Embora a ideia possa parecer promissora para tornar a terapia clínica mais acessível, há uma série de reclamações sobre essa imposição de preço. Muitas psicólogas reclamam que a PsyMeet não realiza uma fiscalização para saber se as pessoas que procuram terapia online pela plataforma realmente não possuem condição econômica para pagar o valor inteiro da consulta. Com isso, pessoas com uma condição financeira estável acabam se valendo, de forma indevida, dos atendimentos por valor social.
Em síntese, a plataforma utiliza um discurso de cobrança de valor social como forma de garantir terapia para pessoas em vulnerabilidade, mas não se responsabiliza por fiscalizar que os clientes da plataforma estão em uma condição financeira instável, o que acaba por rebaixar o valor do trabalho dos psicólogos e psicólogas. Ademais, a PsyMeet parece utilizar a ideia de valor social como uma estratégia para atrair pacientes a valores reduzidos. Essa imposição cria sérios problemas, de modo que alguns entrevistados relatam que chegam a atender 40 pacientes por semana para conseguirem obter uma renda maior, considerando o baixo valor das consultas.
Escolhendo o menos pior: “os planos de saúde são a experiência da plataforma antes das plataformas”
Embora os valores pagos pela PsyMeet sejam baixos, alguns psicólogos afirmam que a plataforma ainda é melhor e mais rentável do que a experiência que tiveram com atendimentos por planos de saúde. Nos planos corporativos, os psicólogos realizam consultas de 30 minutos e ganham de 15 a 20 reais por sessão. Guilherme, um dos entrevistados, tem 31 anos, mora em São Paulo e explica por quê preferiu as plataformas aos planos de saúde. Ao se formar na faculdade, trabalhava como operador de telemarketing e estava buscando possibilidades de se inserir na psicologia. A primeira oportunidade que surge é para atender planos de saúde em uma clínica em Osasco, de forma presencial:
Era bem cansativo. Eu pegava ônibus aqui [ São Paulo] e ia até Osasco, pra receber pelo convênio, que era 15 reais, por consulta de 30 minutos. E em geral, você recebe 60 dias depois da consulta. Então, nessa perspectiva, quando você compara com plano de saúde, eu prefiro a plataforma. Porque, por exemplo, na PsyMeet eu recebia 30 reais e eu atendia de casa, não tinha custo de deslocamento, alimentação. Enquanto consultório presencial, eu tinha.
Algumas clínicas ainda cobram uma mensalidade para a utilização da sala de atendimento. De acordo com as psicólogas entrevistadas, a atuação em plataformas é mais vantajosa do que a referida atuação em clínicas, pois embora gastem com a mensalidade nas empresas-aplicativos, não precisam dividir uma parte dos rendimentos das consultas com a clínica e não precisam pagar para utilizar as salas de atendimento em espaços físicos. O fato de que não precisam gastar tempo e dinheiro com deslocamentos também é um elemento destacado com frequência pelas psicólogas.
Esse debate evidencia os elementos de continuidade na precarização da psicologia antes e depois do advento das empresas-plataformas, pois já podíamos observar, antes da plataformização, psicólogos atendendo por planos de saúde em clínicas de psicologia e ganhando 15 reais por consulta. Essa reflexão remete à fala de um entrevistado sobre as semelhanças entre as plataformas digitais e os planos de saúde:
Os planos de saúde são essas estruturas também. São essas protoplataformas. São a experiência de plataformas antes das plataformas. A minha impressão é que essa relação que a gente vê hoje nas plataformas tem suas coisas próprias, mas ela toma emprestado um modelo de negócio que já existia, que no caso a gente da área de saúde é essa mediação dos planos”.
As plataformas se utilizam de uma dinâmica já existente no mercado laboral da saúde, realizada pelos planos, e atualizam essa atividade a partir de diferentes arquiteturas digitais. Tais arquiteturas não apenas definem a interação nas plataformas, mas também determinam relações laborais específicas. Se os planos de saúde realizaram, décadas atrás, um cercamento do mercado da saúde – para lembrar do processo de cercamento que ocorre no período de acumulação primitiva do capital – as plataformas vão, progressivamente, criando um cercamento a determinados setores do mercado de trabalho e construindo seus oligopólios e monopólios no setor de transporte, saúde, publicidade, entre outros.
Qual a classe social dos psicólogos plataformizados?
Vale ressaltarmos que essa realidade, embora disseminada entre as classes e frações de classe, não atinge de forma igual os trabalhadores. No formulário online respondido por 210 psicólogos e psicólogas que atuam em plataformas, verificamos que a maioria deles tem uma trajetória social parecida, qual seja, a necessidade de conciliar a graduação com o trabalho, a formação em faculdades privadas de menor qualidade e o fato de serem a primeira pessoa da família a acessar o ensino superior. Esse recorte demonstra que a maioria dos psicólogos que enfrenta a precariedade das plataformas e dos planos de saúde são oriundos da classe trabalhadora e não tiveram a oportunidade de se dedicar apenas aos estudos durante a graduação.
Esse resultado explicita um projeto de ascensão social pelo estudo interrompido pelas próprias condições materiais existentes no mercado de trabalho. Embora milhares de estudantes tenham conciliado a graduação de noite e emprego de dia durante anos, após se formarem encontram ocupações tão precárias quanto as que estavam antes de concluírem a faculdade. Essa discussão nos ajuda a compreender a insatisfação de parte da população com o governo federal, apesar dos índices recordes de empregabilidade no país. Não basta vermos o índice de empregabilidade se desconsiderarmos a qualidade dos empregos, considerando que a maioria das ocupações criadas no último ano pagam até dois salários-mínimos2.
Dito de outro modo, é necessário recolocar no centro do debate público não apenas a geração de empregos, mas a qualidade das ocupações criadas. A expansão do ensino superior nas últimas décadas ampliou o acesso aos diplomas universitários, mas não foi acompanhada por um processo equivalente de criação de postos de trabalho qualificados capazes de absorver essa mão de obra. Nesse contexto, a reindustrialização do país assume papel estratégico, na medida em que possibilita a geração de empregos mais qualificados e com melhores salários, criando alternativas concretas para trabalhadores que hoje se veem compelidos a aceitar formas cada vez mais precárias de inserção profissional.
Notas
1 ABÍLIO, LUDMILA. Dossiê das violações dos direitos humanos no trabalho uberizado: o caso dos motofretistas na cidade de Campinas. Diretoria Executiva de Direitos Humanos, Unicamp, 2024.
2 EXAME. Mais de 90% dos empregos criados em fevereiro são de até dois salários mínimos. Disponível em: https://exame.com/economia/mais-de-90-dos-empregos-criados-em-fevereiro-sao-com-salarios-de-ate-r-2-824/
Fonte: Outra Saúde / Imagem: Getty Images