Reflexos 

Ângela Monize Bahia Brasil colunistas

Por Angela Monize – Sábado, 39 de maio de 2026

Essa semana, ouvi alguém muito admirável dizer que iria desistir de um sonho. minha percepção foi de que ela não gostaria de desistir no fim das contas, apenas interromper o barulho de alguns outros sentimentos gritantes por alguns minutos.

de alguma forma, aquilo ficou em mim…

por que as pessoas pensam em desistir de um sonho!? por que existem noites em que o mundo inteiro parece excessivamente aceso e outras noites em que nem a lua brilha!?

As avenidas brilhando depois da meia-noite, os apartamentos iluminados como pequenas vidas expostas em vitrines, os carros atravessando a cidade como se todos estivessem fugindo de alguma coisa que nunca alcançam completamente.

e no meio disso tudo, alguém me confessou o desejo de desistir.

Não de maneira dramática. Isso seria mais fácil de compreender.

Foi algo dito com um sorriso no rosto e emoção no olhar.

Como alguém que já cansado, não quer carregar os próprios pensamentos.

E então, eu, logo eu, meu Deus, a Ângela!!! respondi imediatamente algo contrário: “não, você não pode desistir! você é demais fazendo isso!!!”

De fato, eu nunca aprendi a dizer para alguém desistir de si. Nem quero. Nem seria eu…

mas quando o corpo inteiro começa a falhar emocionalmente, como proceder!? como proceder ao escárnio!? quais tentativas temos e em qual balança pesar!?

Acho que o verdadeiro esgotamento nasce quando a vida perde profundidade.

Quando os dias começam a parecer cenas repetidas de um longo filme.

O mesmo despertador. as mesmas notificações. os mesmos trajetos. os lutos diários. as perdas. As mesmas pessoas dizendo “vai passar” como quem joga um cobertor fino sobre um incêndio. 

Vai arder mais, você não entende!? Vai incendiar a casa, as coisas, os brilhos, as pessoas…

O ar ficará cada vez mais rarefeito.

Cinematograficamente bonito. 

E ao mesmo tempo constrangedor.

É como um escrito na madrugada.

Algo que não exige explicações.

Receber rosas, talvez.

Ganhar uma carta escrita à mão. 

Uma fotografia qualquer onde dois corpos apenas permanecem próximos sem precisar transformar aquilo em qualquer definição.

A luz dourada atravessando nossas pernas como fim de tarde em película antiga.

O chão metálico refletindo uma frieza bonita, urbana e comportada.

Eu penso no quanto algumas coisas ainda conseguem impedir a queda completa.

Uma música específica tocando dentro do carro numa rua vazia.

O som do salto encontrando o chão enquanto alguém acompanha teus passos sem acelerar os próprios.

O cheiro de chuva preso numa roupa. o cheiro do perfume e da chuva presos numa roupa…

Pessoas que fazem a vida parecer menos hostil. 

O visor do celular acendendo de madrugada com uma mensagem inesperada.

O pequeno intervalo entre uma risada e outra.

Porque talvez desistir tenha relação direta com esquecer que ainda existem detalhes capazes de sustentar a nossa permanência ali. em qualquer sonho.

e eu sei…

Existem dias em que o espelho se torna cruel, os sonhos parecem distantes demais da pessoa que somos no presente, dias em que o corpo fica cansado antes mesmo da manhã começar.

Mas ainda assim, pensar na possibilidade.

Mesmo depois do excesso, depois do choro engolido, depois de olhar para o próprio futuro como quem olha uma janela fechada.

Abrir a janela.

Criar estratégias.

Desarmar o medo.

Chamar a coragem para tomar um café.

Pedir uma pausa, talvez.

Mas… enfim…

Continuar.

A grande arte, extremamente delicada, que é a vida.

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