Missão reuniu agricultoras, lideranças comunitárias e pesquisadoras em uma troca de conhecimentos sobre agroecologia, soberania e segurança alimentar e nutricional e protagonismo feminino, fortalecendo a Cooperação Sul-Sul
Separadas por um oceano, mas unidas por modos de vida, práticas agrícolas e histórias de resistência, mulheres da Guiné-Bissau e da Comunidade Quilombola Kalunga Engenho II, em Cavalcante (GO), viveram uma experiência que mostrou como os saberes ancestrais podem fortalecer a cooperação entre povos do Sul Global.
Entre os dias 22 e 26 de junho, agricultoras, lideranças comunitárias, pesquisadoras e representantes da organização não governamental Tiniguena participaram do intercâmbio “Diálogos e Saberes Ancestrais: Caminhos entre Guiné-Bissau e Brasil”, iniciativa acompanhada pela Agência Brasileira de Cooperação (ABC), e que promoveu o compartilhamento de experiências sobre agroecologia, soberania e segurança alimentar e nutricional, tecnologias socioterritoriais e valorização dos conhecimentos tradicionais.
Ao longo da programação, as participantes percorreram roças, quintais produtivos e áreas de preservação do Cerrado, conheceram práticas agrícolas desenvolvidas há gerações pelo povo Kalunga e participaram de rodas de conversa sobre organização comunitária, cultura, alimentação e protagonismo das mulheres.
Durante a visita à tradicional Roça de Toco, conduzida pelo agricultor Jorge Moreira de Oliveira, o grupo conheceu um sistema de cultivo que preserva árvores e raízes, favorecendo a regeneração natural da vegetação e a produção consorciada de arroz, feijão, milho, mandioca e banana. O conhecimento compartilhado despertou reconhecimento imediato entre as visitantes guineenses, que identificaram espécies vegetais, técnicas agrícolas e formas de organização semelhantes às existentes em suas comunidades.
Um dos momentos mais marcantes da visita foi o compartilhamento dos conhecimentos de Seu Jorge sobre o buriti, espécie símbolo do Cerrado. Ao apresentar os diversos usos da planta — utilizada na produção de artesanato, cordas, óleo medicinal, bebidas e alimentos —, ele explicou que seu aproveitamento é orientado pelo respeito aos ciclos da natureza. “Onde tem buriti, tem água”, afirmou, ressaltando que a preservação das veredas garante a sobrevivência da espécie e das comunidades que dela dependem. “Aproveitamos tudo dele, mas respeitamos a planta”, resumiu.
A fala encontrou eco entre as participantes da Guiné-Bissau, que identificaram no sibi uma planta com funções semelhantes em seus territórios, utilizada na construção de moradias, em manifestações culturais e no artesanato. Mais do que reconhecer espécies parecidas, o intercâmbio revelou uma compreensão compartilhada de que a sustentabilidade nasce da convivência respeitosa com a natureza e da transmissão desses conhecimentos entre gerações.
O Dia da Guiné-Bissau
Depois de conhecer os modos de vida da comunidade Kalunga, chegou o momento de a delegação africana compartilhar suas próprias experiências.
Vestidas com trajes tradicionais representativos das diferentes etnias da Guiné-Bissau, as agricultoras apresentaram práticas de produção, formas de organização comunitária e relatos sobre o cotidiano das mulheres em seus territórios.
Os depoimentos revelaram semelhanças que vão além das técnicas agrícolas. O plantio consorciado, a preservação das sementes, a produção voltada prioritariamente para o consumo das famílias, o manejo coletivo do território e a valorização do trabalho comunitário apareceram como elementos compartilhados entre os dois países.
Ao relatarem suas trajetórias, as participantes também destacaram os desafios enfrentados pelas mulheres rurais e as transformações promovidas pela organização comunitária e pelo acesso à educação. “Estamos representando todas as mulheres que ficaram lá. É isso que é desenvolvimento!”, afirmou a agricultora Alapaz Mam Tchongo, sintetizando o significado da missão para as mulheres de sua comunidade.
Outro momento marcante foi o depoimento de Sanhá João Correia, representante da ONG Tiniguena e egresso da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab). Ele destacou a importância da universidade na formação de profissionais comprometidos com o desenvolvimento dos países lusófonos e ressaltou a acolhida recebida no Brasil.
Ao chegar à Comunidade Kalunga, Sanhá afirmou ter reconhecido imediatamente valores presentes também em sua terra natal: o senso de coletividade, a organização comunitária e a mobilização em torno de objetivos comuns. Para ele, a experiência reafirma o propósito da Unilab de formar lideranças capazes de contribuir para a transformação social em seus países de origem.
Mais do que identificar diferenças entre Brasil e Guiné-Bissau, o intercâmbio revelou afinidades construídas ao longo da história. Nas sementes, nas práticas agrícolas, na cultura alimentar, nas formas de acolher quem chega e na preservação dos saberes ancestrais, as participantes encontraram pontos de encontro que reforçam o potencial da Cooperação Sul-Sul para promover soluções construídas a partir das próprias experiências dos territórios.
O intercâmbio integra o projeto “Ecossistema de Tecnologias Socioterritoriais Afro-Brasileiras em Agroecologia e Segurança Alimentar e Nutricional”, coordenado pela Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab), em parceria com a Universidade Federal de Goiás (UFG), com apoio do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI).
A iniciativa também evidencia o papel das universidades na Cooperação Sul-Sul. Inserida no Mecanismo das Universidades do Conselho de Segurança Alimentar e Nutricional da CPLP (MU-CONSAN-CPLP), a ação aproxima ensino, pesquisa, extensão e comunidades tradicionais, transformando a Estratégia de Segurança Alimentar e Nutricional da Comunidade dos Paises de Língua Portuguesa (CPLP) em experiências concretas de aprendizagem, intercâmbio e fortalecimento de capacidades nos territórios.
Ao aproximar comunidades tradicionais afro-brasileiras e africanas, a iniciativa fortalece redes de cooperação voltadas ao desenvolvimento sustentável e evidencia que a troca de saberes, a valorização da ancestralidade e o respeito aos territórios constituem caminhos para a construção de soluções compartilhadas entre países do Sul Global.
Fonte: ABC