Por Raul Monteiro*
Se algum dia a teve, o governo perdeu a fé cega na reeleição de Jerônimo Rodrigues (PT) ao Palácio de Ondina. As pesquisas realizadas até agora, mesmo acusadas pelos jogadores de terem seus vieses, conduzem à percepção de que o cenário é bastante desafiador para o incumbente, que não conseguiu construir uma marca nestes quase quatro anos de gestão à qual possa recorrer agora para tocar sua comunicação. Afinal, porque o eleitor deve votar de novo em Jerônimo, dar-lhe a oportunidade de continuar governando a Bahia? Foram perguntas que a maioria que escolheu os líderes petistas conseguiu responder com facilidade na renovação das duas primeiras gestões petistas.
Na primeira delas, o então governador Jaques Wagner buscava, com o segundo mandato, mudar o padrão político autocrático com que a Bahia fora governada por cerca de duas décadas pelo senador Antônio Carlos Magalhães. Fraco de gestão, Wagner conseguira projetar a ideia de que as dificuldades que enfrentava na administração decorriam da grande mudança de cultura que construía para a Bahia ao derrotar o carlismo, legando um patrimônio imaterial para o Estado, cansado da mão de ferro com que ACM governava e da panelinha que se formara em torno dele, como a campanha que levou o petista à primeira vitória soube muito bem explorar.
Assim, conseguiu não apenas o passe para governar nos quatro anos seguintes como a chance de fazer Rui Costa seu sucessor. Com o segundo petista que comandou o Estado o momento de renovar o mandato não foi diferente. Com a percepção clara de que Wagner representara uma ruptura com o passado político recente da Bahia, mas não conseguira moldar a imagem de gestor que um Estado grande e problemático demandava, Rui se auto-cunhou logo nos primeiros meses do governo o apelido de “Correria”, transformando a preocupação com as contas públicas e com a resolutividade das decisões da administração em sua principal marca.
Também lograria se reeleger com a mão nas costas, contra um candidato escolhido pela oposição de última hora, conseguindo ainda fazer de Jerônimo, com o apoio de todo o grupo, o governador seguinte do PT. Ocorre que a taça chegou nas mãos da terceira liderança petista escolhida pelo eleitor para comandar o Estado, mas por falhas desde o princípio na comunicação, na dificuldade que tem para se concentrar no enfrentamento dos graves problemas vividos pelo Estado e na fadiga de material que um partido que está no governo há duas décadas protagoniza, Jerônimo tem hoje à sua frente infinitamente mais dificuldades do que os antecessores tiveram.
É claro que o governador ainda espera contar com a mão salvadora de Lula, em que, desde a primeira eleição de Wagner, todos os petistas se fiaram na Bahia até agora. Mas o presidente vive pela primeira vez os efeitos de um desgaste monumental que ameaçam a sua própria reeleição, precisa se concentrar na tarefa de ganhar o pleito e de aliados que, no comando de seus Estados, mais o ajudem mais do que dele dependam. Jerônimo teve quatro anos para se preparar para as dificuldades que começa a ver se avolumarem à sua frente agora e, a despeito de todos os alertas, inclusive de Rui e Wagner, as desconsiderou, transformando sua reeleição num peso.
* Artigo do editor Raul Monteiro publicado na edição de hoje da Tribuna.
Fonte: Polírica Livre /Foto: Thuane Maria/Arquivo/GOVBA