Igreja vinha discutindo mecanismos de controle sobre a exposição pública de conflitos internos
14/09/2026
Por Anna Virginia Balloussier
(Folhapress) – O reverendo Arival Dias Casimiro deixou o cargo de pastor titular da IPP (Igreja Presbiteriana de Pinheiros) depois de fechar um acordo na Justiça trabalhista com uma ex-funcionária que o acusou de assédio e abuso espiritual.
A decisão ocorre após questionamentos na comunidade presbiteriana sobre sua permanência à frente de uma das igrejas mais influentes da IPB (Igreja Presbiteriana do Brasil), onde o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) André Mendonça também é pastor.
“Ciente dos fatos, o reverendo Arival, em respeito à família e à IPP, resolveu pedir licença em comum acordo com o conselho”, diz a assessoria de imprensa contratada pela IPP.
Casimiro foi procurado por telefonema e mensagens no início da tarde deste domingo (13), mas não respondeu até a publicação deste texto.
A mulher que o denunciou trabalhava na Junta Missionária de Pinheiros, braço da denominação. Ela abriu um processo em maio de 2025 e topou encerrá-lo por meio de um acordo entre as partes. A IPP, em nota divulgada aos seus membros, reconheceu que o pastor enviou mensagens “inoportunas, inadequadas e infelizes” a ela.
Disse ainda que o caso foi “apurado no ambiente eclesiástico” e que o pastor, depois de admitir “a inconveniência das mensagens” e pedir perdão, foi alvo de “medida disciplinar”, sem especificar qual.
Afirmou também que houve “acordo homologado pela Justiça do Trabalho, sem sentença de mérito e sem reconhecimento de prática de assédio” –essa frase em particular incomodou membros da igreja, que viram aí uma postura leniente com Casimiro.
Até a publicação deste texto, não havia sido informado o período do afastamento, nem se a decisão é temporária ou definitiva. Também não estava esclarecido se o pastor continuará exercendo alguma função na igreja enquanto isso.
Segundo o relato apresentado pela ex-funcionária à Justiça do Trabalho, Casimiro ia diariamente até sua mesa de trabalho para abraçá-la, acompanhando gestos de elogio e piadas que ela considerava excessivos. Ele também teria feito comentários sobre sua aparência, sugerindo repetidamente que usasse maquiagem e roupas mais curtas para chamar mais atenção.
Em uma ocasião, conforme depoimento da ex-funcionária reproduzido na ação, o pastor teria dito, diante de colegas de trabalho dela, que ainda se casaria com ela.
As abordagens não se restringiriam ao ambiente de trabalho. Entre 2022 e 2024, Casimiro teria enviado mensagens pelo WhatsApp que começaram com pendências profissionais, mas evoluíam para perguntas pessoais que a deixavam desconfortável, especialmente em razão da posição hierárquica e religiosa que ele ocupava.
Em uma das conversas anexadas ao processo, a funcionária comunica ao pastor lançamentos financeiros previstos. Ele muda de assunto e diz que existem coisas que não consegue falar por mensagem, apenas pessoalmente e em particular.
A mulher pergunta do que se trata. Casimiro responde: “O que sinto por você”, e logo em seguida recua: “Esquece”.
Ela pergunta se ele gostaria de conversar por ligação e afirma não compreender o motivo da abordagem. O pastor sugere novamente uma conversa presencial.
A ex-funcionária disse em depoimento que, em 15 de agosto de 2024, participou de uma reunião no gabinete pastoral para tratar do comportamento de Casimiro. Estavam presentes, além dos dois, a superiora imediata dela e um presbítero.
Segundo o relato, o reverendo pediu desculpas e afirmou ter “caído num laço do inimigo”. Disse que havia “invertido os papéis”, pois enxergava a funcionária como uma filha, e afirmou que desejava ajudá-la financeiramente na compra de um apartamento.
Ainda de acordo com o depoimento, Casimiro a abraçou e manifestou o desejo de que ela permanecesse trabalhando na Junta Missionária.
A mulher, porém, pediu para ser demitida sem justa causa, de modo a receber a multa rescisória e os direitos trabalhistas correspondentes. O pedido foi atendido.
Na ação, ela afirmou ter compreendido que as mensagens e o comportamento presencial do pastor não constituíam apenas assédio, mas também “abuso espiritual”.
A permanência do pastor no cargo passou a ser questionada no meio presbiteriano.
A controvérsia se deu enquanto a própria IPB vinha discutindo mecanismos de controle sobre a exposição pública de conflitos internos. Em agosto, a cúpula presbiteriana havia aprovado uma resolução contra a chamada “maledicência digital”.
O texto prevê sanções para quem levar supostos erros de lideranças ao “tribunal da internet”. A resolução também faz referência à circulação de fofocas e “denúncias vazias” capazes de colocar a igreja em evidência.
Fonte: ICL Noticias /