Rodrigo Dias
Relatório do BTG Pactual indica que setor ainda deve enfrentar pressão competitiva de plataformas como Shein, Shopee e Temu, mas avalia que empresas locais melhoraram gestão de estoques, precificação e eficiência operacional desde 2023
A decisão do governo federal de eliminar a alíquota de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50 reacendeu o debate sobre a concorrência entre varejistas brasileiras e plataformas asiáticas, mas o impacto tende a encontrar um setor doméstico mais preparado do que há dois anos. Em relatório divulgado na quarta-feira (13), o BTG Pactual afirma que empresas locais avançaram em disciplina operacional, gestão de estoques e estratégia comercial desde o pico da pressão competitiva em 2023 e 2024. O banco ressalta, porém, que o fim da chamada ‘taxa das blusinhas’ favorece novamente a expansão de marketplaces internacionais como Shopee, Shein e Temu.
Segundo o relatório, a medida assinada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) elimina a tributação federal criada em 2024 sobre remessas internacionais de baixo valor. Até então, compras internacionais estavam sujeitas à cobrança de 20% de imposto de importação mais ICMS, o que levava a uma carga tributária efetiva entre 40% e 50%, dependendo do estado e da categoria do produto.
O BTG lembra que, antes da taxação, o Brasil recebia mais de 18 milhões de encomendas internacionais por mês. Após a implementação da medida, o volume teria caído para cerca de 11 milhões mensais no fim de 2024, voltando gradualmente para a faixa de 15 milhões a 17 milhões com subsídios maiores das plataformas e ganhos logísticos.
Mesmo com a reversão do imposto, o banco avalia que varejistas nacionais estão mais resilientes. Em levantamento próprio comparando uma cesta de oito produtos entre Lojas Renner, C&A Brasil, Riachuelo e Shein, a plataforma chinesa segue mais barata: 6% abaixo da Riachuelo, 10% abaixo da Renner e 13% abaixo da C&A.
Ainda assim, o BTG destaca que a diferença de preços diminuiu de forma relevante em relação às pesquisas realizadas em 2024 e 2025, indicando avanços das empresas brasileiras em sourcing, controle de remarcações, alocação de estoques e arquitetura de preços. Para o banco, isso sugere que os grupos locais estão “operacionalmente mais preparados” para enfrentar um ambiente competitivo mais agressivo.
O relatório também mostra que a disputa deixou de se restringir ao vestuário barato e já se espalha para categorias como acessórios eletrônicos, beleza, decoração, artigos esportivos e bens de consumo. O banco destaca que players internacionais continuam ampliando investimentos em logística local, frete grátis, publicidade e ecossistemas de criadores de conteúdo, enquanto varejistas brasileiras ainda operam sob uma estrutura tributária, trabalhista e logística mais pesada.
Apesar disso, o BTG avalia que o principal desafio agora será preservar ganhos recentes de margem e qualidade de estoque diante de uma nova rodada de pressão sobre preços e participação de mercado.
Fonte: Money Report