Venda da Serra Verde coloca Brasil na corrida global por terras raras

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Especialista alerta que negócio, no entanto, não resolve fragilidade industrial do país

A venda da mineradora brasileira Serra Verde para a americana USA Rare Earth, avaliada em cerca de US$ 2,8 bilhões, é considerada pelo mercado um ponto de inflexão na disputa global por terras raras. Segundo relatório do BTG Pactual, a transação vai além de um movimento isolado: sinaliza o fortalecimento da estratégia ocidental de diversificar a cadeia produtiva desses minerais críticos, hoje amplamente dominada pela China. Nesse cenário, o Brasil surge como candidato a ganhar relevância nos próximos anos.

A Serra Verde se diferencia por já estar em operação, produzindo elementos magnéticos como neodímio, praseodímio, disprósio e térbio, essenciais para veículos elétricos, turbinas eólicas e tecnologias de energia limpa. A expectativa é que represente mais de 50% da oferta de terras raras pesadas fora da China até 2027, com capacidade inicial de 6,4 mil toneladas anuais. Esse diferencial aumenta o interesse de investidores por ativos mais maduros e pode estabelecer um novo patamar de valuation para projetos estratégicos fora da Ásia.

O negócio também reforça a preferência por depósitos de terras raras pesadas, considerados mais escassos e valiosos, e coloca empresas como Aclara, Viridis e Meteoric no radar de potenciais aquisições. Para o BTG, a operação pode acelerar a consolidação do setor e redefinir preços em um contexto de demanda crescente por minerais críticos.

Fragilidade industrial

Apesar do reposicionamento geopolítico, especialistas alertam que o Brasil continua periférico na cadeia de maior valor agregado. A produção local não garante autonomia industrial, já que o país segue dependente de importações de ímãs e tecnologias derivadas. A China ainda domina 90% do processamento global e concentra a fabricação de ímãs permanentes, influenciando preços e suprimento.

Enquanto a USA Rare Earth verticaliza sua plataforma fora do Brasil — com ativos no Reino Unido, França e EUA, além de contratos de longo prazo para absorver toda a produção inicial da Serra Verde — o país permanece apenas como fornecedor de matéria-prima. Isso reforça o risco de trocar dependência chinesa por uma dependência distribuída, sem soberania industrial.

“O ativo no Brasil não retém valor aqui; o país segue estratégico como origem, mas periférico na industrialização rentável”, afirma Rodolfo Midea, CEO da Fácil Negócio Importação.

“O foco é quem controla metal, liga, magneto e aplicação, não só a mina. Temos geologia e escala, mas falta presença nos elos de margem e autonomia”, acrescenta.

Fonte: Money Report

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