Jéssica Guanabara (Cidacs/Fiocruz Bahia)
Em parceria com a Universidade de Harvard, um estudo conduzido por pesquisadores da Fiocruz analisou como a exposição a violência interpessoal (agressão física, violência sexual e violência doméstica) pode influenciar o risco de suicídio em adolescentes e jovens adultos. Publicada no periódico Cambridge Prisms: Global Mental Health, a pesquisa revelou que o risco foi 10,7 vezes maior entre jovens indígenas e 3,14 vezes maior entre jovens negros, enquanto a associação não foi estatisticamente significativa entre jovens brancos.
Durante o acompanhamento, 92.287 indivíduos apresentaram registro de violência e 1.657 suicídios foram identificados. Para a análise, os pesquisadores do Centro de Integração de Dados e Conhecimento para Saúde (Cidacs/Fiocruz Bahia) utilizaram dados populacionais de inscritos no Cadastro Único (CadÚnico). Além disso, o estudo longitudinal de abrangência nacional envolveu indivíduos com idades entre 10 e 29 anos, inscritos na Coorte dos 100 Milhões de Brasileiros e vinculados ao Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), ao Sistema de Informações Hospitalares (SIH) e ao Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), entre 2011 e 2018.
Os resultados evidenciam disparidades etnoraciais na associação entre exposição à violência interpessoal e suicídio em populações jovens em situação de vulnerabilidade. O estudo ressalta a necessidade urgente de intervenções que promovam a equidade em saúde e enfrentem o racismo estrutural.
“Esses achados destacam que o enfrentamento do racismo estrutural deve estar no centro das estratégias de prevenção do suicídio orientadas pela equidade, juntamente com esforços para prevenir a violência e abordar outros determinantes estruturais”, comentou a pesquisadora associada ao Cidacs/Fiocruz Bahia e a Harvard e uma das pesquisadoras do estudo, Flávia Jôse Oliveira Alves.
Segundo Flávia, evidências internacionais já haviam demonstrado que a violência interpessoal é um fator de risco significativo para o suicídio na adolescência e no início da vida adulta, o que torna esse estudo brasileiro consistente com achados anteriores. No entanto, poucos estudos buscaram entender as iniquidades etnoraciais envolvidas nesta relação.
A pesquisadora explica que, no Brasil, jovens indígenas e negros estão desproporcionalmente expostos à pobreza, à segregação e a oportunidades educacionais e de emprego restritas, aumentando tanto a probabilidade de vitimização quanto o sofrimento mental. A violência em si tem efeitos psicológicos diretos, incluindo trauma, depressão, transtorno de estresse pós-traumático e abuso de substâncias, todos os quais elevam o risco de suicídio. A exposição crônica fomenta hiper vigilância, desesperança e estratégias de enfrentamento inadequadas, amplificando ainda mais os caminhos para a autolesão.
O estudo ainda ressalta que as políticas de prevenção do suicídio têm sido pautadas principalmente em fatores já identificados em países de alta renda. Para Flávia, é fundamental reconhecer os fatores que influenciam o suicídio em países de baixa e média renda, como a exposição à violência. As estratégias de prevenção de suicídio voltadas para jovens precisam estender-se para além do individual e incluir a prevenção da violência e estruturas políticas para tratar da iniquidade racial.
“É preciso compreender que grupos raciais são afetados de maneira diferenciada por processos históricos de estratificação racial, marginalização social e maior exposição à violência, incluindo segregação residencial e acesso limitado à proteção do sistema de justiça”, acrescentou a pesquisadora.
Fonte: Fiocruz / Foto: Istock/Getty Images